A onda gigantesca se levantou como um braço irado de Netuno, um jogar longe por desacato, tudo que estivesse pela frente. O tridente netuniano ferindo, cortando, estraçalhando revoltado. Nesta hora não tem etnia, capacidade, sexo, nada, o mundo se solidariza com os afrontados.
Uma catástrofe. As vozes apocalípticas se levantaram e cavalgaram os quatro cavalos, aos quatro ventos por todos os meridianos e paralelos. Reforçaram a previsão de que a ensandecida vontade de Deus quicaria na nossa cara a bola de descalabros que fizemos com o planeta. Todo mundo se benzeu como pode ou crê. Se não acredita passou a acreditar e tome sinal da cruz, arruda na orelha, ferradura da sorte e, se facilitar, até algum silício rolou, purgação pelos pecados.
Acompanhou-se o numero de vítimas, as cidades atingidas, o epicentro do fenômeno devastador. Lemos e ouvimos: “... um vagalhão colossal, enegrecido pelos destroços que já carregava, avançou pela cidade de Sendai”... O maior terremoto do Japão trazendo em seu bojo aquele vaga vadia, vadiando de olhos negros. O noticiário atraiu até os jovens de fones enfiados nas orelhas que trocaram a música da pesada. Não se sabia mais qual a importância do fenômeno uma vez que os números de vítimas e as caras desesperadas atraíam tanto a atenção. Riscos no cabo do revólver.
Mais surpresos ainda, chocados?, admirados?, vimos no dia seguinte o povo começar a reconstrução.
Concordo que é de ficar estupefato com os dois acontecimentos. O antes e o depois. Que será que surpreende mais a nós brasileiros? A visão da calamidade ou a incrível e mais surpreendente disposição deste povo acostumado às tragédias, arregaçar as mangas e se por a trabalhar. Um senhor com setenta anos e alguns, voltou ao terreno aonde sua empresa de construção repousava inerte e sonâmbula, começou a limpeza. Cada tijolo uma lágrima, sem dúvida, uma ferida nas mãos, embora japoneses tenham as melhores e preparadas luvas do mundo, mas sangra por dentro, como todos nós, mesmo que não tenhamos olhos puxados e fibra de aço.
Passou uma semana. As capas das revistas a cada dia colocando mães, filhos, e arraso em destaque, as reportagens da mídia gritando o descalabro em todas as cores.
Algum tempo antes o Haiti foi arrasado por um terremoto de menor magnitude, mas o número de mortos foi assombrosamente maior, 300 000 pessoas. No Japão cerca de 1 000. O país miserável tornou-se mais miserável ainda, se é possível. Baby Doc saiu das sombras como cavaleiro quixotesco e se refestelou a comandar ação nenhuma. Trabalhar de pensador é desgastante então traz do bom e do melhor para que as idéias do homem engordem enquanto ele também.
O Haiti jaz na miséria e na fome até hoje. Não existe no horizonte nem o bruxulear de um sol fraco. O Japão sabe quanto tempo levará para se reconstruir. Nenhum japonês pensou em sair de sua terra, há haitianos mendigando um olhar do governo brasileiro, meio acampados em Brasília, pedintes de documentos para trabalhar. Sem comida e sem perspectiva. Ruim aqui, pior lá.
O Haiti é pobre e negro, então...
As calamidades são mel para os sérios e os ridículos, cada um lida com elas à sua maneira. Uns tomam providências para minorá-las da próxima vez e criam mecanismos para que, de alguma forma, possam preveni-las. Os ridículos fazem escarcéu e secam lágrimas, olho atento na TV para assistir a próxima, melhor que novela das 8.
Mas... Espera um pouco,
“No dia seis de Abril de 2010 o Rio de Janeiro presenciou um dos maiores temporais de sua história. O temporal que atingiu o Estado teve início no fim da tarde de segunda-feira, dia 05/04/10 e deixou mais de 100 mortos. As regiões que se encontram próximas ao Centro da capital carioca, e a cidade de Niterói, na Região Metropolitana, foram as mais atingidas, segundo o Instituto de Geotécnica do Município do Rio de Janeiro.”
Durante a madrugada o Rio começou a sofrer com a força da natureza. No município de São Gonçalo, os moradores sofreram muito com os barrancos e com os deslizamentos de terra. Muitos deles tiveram que abandonar suas casas com todos os seus pertences, pois o risco da situação era muito alto.”
As vozes sorumbáticas gritaram aqui também, os quatro cavalos balançaram as crinas de fogo. A morte aproveitou o festim e se esbaldou. O povo todo tremeu e ajudou, caminhões, aviões, carros, de qualquer lado translado do Brasil.
No Japão soou avisos e houve uma calma busca de abrigo. Já sabem que estão sobre uma falha geológica, o Anel de Fogo do Pacífico.
O Haiti, coitado, o aviso da fome de todo dia é soado dentro dos estômagos vazios. Para terremotos, catástrofes, só têm as mãos servindo de escudo.
O Brasil sabe em música, verso e ciência que nas águas de março rolarão cabeças.
Águas de Março
Tom Jobim
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol
Agora se fala, da boca para fora? “Rio terá centro de prevenção a temporais ainda este ano.”
Que beleza! Estamos nos tornando de primeiro mundo, agora já saberemos das mortes anunciadas desde sempre todos os anos. Algum político de olho nas próximas enchentes? Não, nas próximas eleições. Disse:
- Todas as obras de contenção ficarão prontas até dezembro, inclusive a estrada que liga a Prainha a Grumari.
Que piada! Vamos subir a serra fluminense e dar uma espiada? Não dá para subir calmamente, meu amigo, a prefeitura não tem máquinas adequadas para tirar o barro agora ressecado, o povo que ajudava foi ajudar o Japão que sabe se virar sozinho, o Haiti nem pensar em ajudar, é uma bagunça mesmo.
A lama seca cobre as ruas todas, as plantações, que plantações? Estão ao Deus dará. Mas os jornais estão cansados, a TV tem coisa muito mais atual para noticiar e o olho está mais no IBOPE do que em coisas tão antigas e sem graça.
As orações vão direto via Embratel Astral para o Japão. O Haiti ninguém sabe onde fica, se confunde o nome com Taiti e se torna uma beleza paradisíaca. O Brasil é povo divertido, com o pessoal do “jeitinho” nem precisamos nos preocupar.
Deus é brasileiro, dizem, mas parece que os brasileiros são cidadãos do mundo.
Os quatro cavalos troteiam todos os dias sobre nossas cabeças.
sábado, 30 de abril de 2011
domingo, 17 de abril de 2011
PÊSSACH ESPECIAL
Estava intranqüila. A vida era um turbilhão de erros desconformes. Para aumentar ainda mais a pressão, perdera o emprego. Não havia luz. As janelas da alma estavam trancafiadas e não sentia vontade de coisa alguma, muito menos enfrentar a família cobrando uma felicidade inexistente. Sucesso inatingível.
O telefone assustou-a, a sensação de estar sozinha no mundo fazia com que imaginasse que ninguém poderia procurá-la.
Não, pensou rejeitando, era a mãe lembrando-a do Pêssach que reuniria irmãos, primos, primas e tios. A última coisa que desejava neste momento. Arrumar-se, fazer caras e bocas era uma tarefa hercúlea que não queria enfrentar. E não podia negar-se, seria um caos a sua ausência. Famílias judias têm este apego que às vezes pesa, definiu.
Sentia-se oprimida, presa das circunstâncias, a última coisa que desejava era comemorar. Ainda mais um evento que louvava a liberdade e o abandono da escravidão, fosse ela no Egito ou em qualquer lugar do mundo. O mundo estava pequeno e a aprisionava. Ou grande demais?
Chegou o dia fatídico. Contra a vontade preparou a roupa e os acessórios totalmente desmotivada e sem nenhum capricho.
Mal adentrou a casa dos pais e um enxame de alegres familiares a recolheram nos braços. Sacrifício é sorrir sem vontade, dizer que está ótima sentindo-se um lixo. Enfim... “Noblesse oblige”.
Livrou-se das boas-vindas e resolveu se distrair dando uma espiada no Sêder, a ceia do Pêssach. Ao ver sobre a mesa tudo arrumado com esmero e fé, alguma coisa aconteceu. Num instante, como um filme visto muitas e muitas vezes.
Seu povo, ela entre eles, oprimido e escravizado no Egito, sofrendo todas as dores da humilhação e da falta de tudo. Gente sendo tratada como animais. Uma dor muito maior do que seu momento apertou o coração.
As dez pragas que obrigariam o faraó por fim dobrar-se à evidência de que este povo escolhido não seria avassalado por vontade de Deus, passaram com seu rastro de sofrimento e destruição. Deus acima da vontade dos homens castigando a inveja e a cobiça egípcia até a morte de seus primogênitos. Pragas que a ciência explica como fenômenos naturais, mas a fé compreende que Deus não quebra Suas próprias regras e sim usa a Natureza para exprimir Sua vontade.
A garganta secou na longa e penosa travessia do deserto e compreendeu que seu pequeno instante reproduzia essa marcha forçada em busca da redenção em si mesma, terra prometida. E que só a maturidade construída através de 40 simbólicos anos de provação consegue atingir.
Viu sua vida repartindo-se como o Mar Vermelho se abriu dando passagem aos filhos de Davi. Indo ao encontro da Libertação.
No centro da mesa a bandeja com os três matzot, o pão ázimo tão significativo representando as três tribos originais, Cohanim, os sacerdotes, Leviim, os estudiosos e Israel, o povo. Eram suas raízes mais profundas.
Os olhos redimensionaram os símbolos ali dispostos como se em verdade tivesse vivido aquelas antigas histórias e em verdade as vivera.
O pedaço mais obscuro do corpo do frango, simbolizando o poder de Deus retirando os judeus do Egito. Zeroá é seu nome e Iahweh seu pastor. Perdidas na imensidão do inconsciente as vozes vieram à tona e ela sentiu o poder de Adonai dentro de si, libertando-a dos pesados laços de injunção que a manietavam.
Betsá - Ovo cozido, colocado na parte superior à esquerda da bandeja, simbolizando a lembrança do sacrifício que se oferecia em cada festividade. Uma das inúmeras idéias relacionadas com o ovo colocado como símbolo na travessa do sêder é de que, normalmente, um alimento quanto mais é cozido, mais macio se torna. No caso do ovo é o contrário; quanto mais se coze, mais duro se torna.
Assim é o povo judeu: quanto mais é oprimido ou afligido, como ocorreu no Egito e ao longo da história humana, mais fortalecido e numeroso se torna.
Se Israel tivera a coragem de reagir ela também poderia fazê-lo. Fortalecer-se na fé e tornar-se numerosa em sua força. Essa era mensagem que recebia.
Pela primeira vez a ressonância do Pêssach era muito mais que uma tradição milenar e um momento de cânticos de hosanas, era uma onda de movimentos intensos dentro dela. Rompendo diques e libertando as águas aprisionadas de seus impedimentos.
Marór era sua própria escravidão aos embates da psique. Erva amarga. No entanto, ao comê-la, estaria revivendo a força de seus antepassados quando lutaram contra a dor e a venceram.
A mistura de nozes, amêndoas, tâmaras, canela e vinho, Charósset, colocada na parte inferior à direita da bandeja, representando a argamassa com a qual os judeus trabalharam na construção das edificações do faraó. A argamassa com as quais os tijolos de si mesma foram se ajustando até chegar neste momento de iluminação diante da mesa do Pêssach. Era a mesma etimologia egípcia, isto é “golpe”, agora interpretada como “Iahweh que salta, ultrapassa, poupa protege” as casas dos israelitas marcadas com o sangue da vítima pascal.
Ela era uma vítima das ciladas psíquicas e Deus a impulsionava a saltar sobre elas, protegendo-se delas e renascendo para a Libertação.
Mistérios de Deus.
O Povo de Israel recebeu e aceitou a Toráh no Monte Sinai, com fidelidade e lealdade, dizendo:
- “Faremos e ouviremos”.
Ela também faria e ouviria.
Seguiu a peregrinação do Sêder como o único caminho possível para a salvação de ser.
À volta o mundo tinha emudecido. Todos a observavam enquanto seus lábios se moviam em devota oração a Deus. Um toque de extrema santidade envolvia sua contrição e permeava a família. Uma reverência, um reconhecimento da Presença Divina.
Karpás - O salsão, colocado embaixo, à esquerda. Essa verdura, molhada em vinagre ou água salgada, serve para dar o “sabor” do Êxodo. Lembra o hissopo (Ezov) com o qual os israelitas aspergiram um pouco de sangue nos batentes de suas casas, antes da praga dos primogênitos
- Lave-se de meu sangue a minha dor e nasça de mim o primogênito da nova geração dos Libertos. – As palavras vinham como que sopradas pelo anjo que os desviara da morte há milênios atrás.
Chazéret - A escarola colocada sob o Marór para ser mergulhada na água salgada, referência às lágrimas vertidas. Ao mar do inconsciente que se abria dentro dela trazendo a paz e a segurança. Dique rompido.
Estava purificada, podia agora começar o ritual sagrado do Pêssach. Levantou o vinho kosher reverencialmente. Praticou a Urhas não apenas na ablução das mãos, mas do espírito. Cada hino de louvor, um louvor interno de gratidão pela presença inesgotável de Deus, o Impronunciável, dentro de seu coração. Cada passo ritualístico, um degrau vencido.
Enfim, Haliel. Então agradeceu ao Senhor Deus pela ceia pascal através da qual reviveu o milagre da liberdade. Encheu um copo de vinho (o quarto), e bebeu depois de ter recitado os salmos chamados de hallel.
No fim de tudo abriu a porta, para favorecer a entrada de Elihau Hanavi, o mensageiro e fez a Nirsah, aceitação total.
Anunciou o término da ceia pascal e pediu a Deus que seja sempre o libertador de Israel. O Israel que mora dentro de cada um de nós.
Chegara à Terra Prometida de seu Eu maior.
Vana Comissoli
O telefone assustou-a, a sensação de estar sozinha no mundo fazia com que imaginasse que ninguém poderia procurá-la.
Não, pensou rejeitando, era a mãe lembrando-a do Pêssach que reuniria irmãos, primos, primas e tios. A última coisa que desejava neste momento. Arrumar-se, fazer caras e bocas era uma tarefa hercúlea que não queria enfrentar. E não podia negar-se, seria um caos a sua ausência. Famílias judias têm este apego que às vezes pesa, definiu.
Sentia-se oprimida, presa das circunstâncias, a última coisa que desejava era comemorar. Ainda mais um evento que louvava a liberdade e o abandono da escravidão, fosse ela no Egito ou em qualquer lugar do mundo. O mundo estava pequeno e a aprisionava. Ou grande demais?
Chegou o dia fatídico. Contra a vontade preparou a roupa e os acessórios totalmente desmotivada e sem nenhum capricho.
Mal adentrou a casa dos pais e um enxame de alegres familiares a recolheram nos braços. Sacrifício é sorrir sem vontade, dizer que está ótima sentindo-se um lixo. Enfim... “Noblesse oblige”.
Livrou-se das boas-vindas e resolveu se distrair dando uma espiada no Sêder, a ceia do Pêssach. Ao ver sobre a mesa tudo arrumado com esmero e fé, alguma coisa aconteceu. Num instante, como um filme visto muitas e muitas vezes.
Seu povo, ela entre eles, oprimido e escravizado no Egito, sofrendo todas as dores da humilhação e da falta de tudo. Gente sendo tratada como animais. Uma dor muito maior do que seu momento apertou o coração.
As dez pragas que obrigariam o faraó por fim dobrar-se à evidência de que este povo escolhido não seria avassalado por vontade de Deus, passaram com seu rastro de sofrimento e destruição. Deus acima da vontade dos homens castigando a inveja e a cobiça egípcia até a morte de seus primogênitos. Pragas que a ciência explica como fenômenos naturais, mas a fé compreende que Deus não quebra Suas próprias regras e sim usa a Natureza para exprimir Sua vontade.
A garganta secou na longa e penosa travessia do deserto e compreendeu que seu pequeno instante reproduzia essa marcha forçada em busca da redenção em si mesma, terra prometida. E que só a maturidade construída através de 40 simbólicos anos de provação consegue atingir.
Viu sua vida repartindo-se como o Mar Vermelho se abriu dando passagem aos filhos de Davi. Indo ao encontro da Libertação.
No centro da mesa a bandeja com os três matzot, o pão ázimo tão significativo representando as três tribos originais, Cohanim, os sacerdotes, Leviim, os estudiosos e Israel, o povo. Eram suas raízes mais profundas.
Os olhos redimensionaram os símbolos ali dispostos como se em verdade tivesse vivido aquelas antigas histórias e em verdade as vivera.
O pedaço mais obscuro do corpo do frango, simbolizando o poder de Deus retirando os judeus do Egito. Zeroá é seu nome e Iahweh seu pastor. Perdidas na imensidão do inconsciente as vozes vieram à tona e ela sentiu o poder de Adonai dentro de si, libertando-a dos pesados laços de injunção que a manietavam.
Betsá - Ovo cozido, colocado na parte superior à esquerda da bandeja, simbolizando a lembrança do sacrifício que se oferecia em cada festividade. Uma das inúmeras idéias relacionadas com o ovo colocado como símbolo na travessa do sêder é de que, normalmente, um alimento quanto mais é cozido, mais macio se torna. No caso do ovo é o contrário; quanto mais se coze, mais duro se torna.
Assim é o povo judeu: quanto mais é oprimido ou afligido, como ocorreu no Egito e ao longo da história humana, mais fortalecido e numeroso se torna.
Se Israel tivera a coragem de reagir ela também poderia fazê-lo. Fortalecer-se na fé e tornar-se numerosa em sua força. Essa era mensagem que recebia.
Pela primeira vez a ressonância do Pêssach era muito mais que uma tradição milenar e um momento de cânticos de hosanas, era uma onda de movimentos intensos dentro dela. Rompendo diques e libertando as águas aprisionadas de seus impedimentos.
Marór era sua própria escravidão aos embates da psique. Erva amarga. No entanto, ao comê-la, estaria revivendo a força de seus antepassados quando lutaram contra a dor e a venceram.
A mistura de nozes, amêndoas, tâmaras, canela e vinho, Charósset, colocada na parte inferior à direita da bandeja, representando a argamassa com a qual os judeus trabalharam na construção das edificações do faraó. A argamassa com as quais os tijolos de si mesma foram se ajustando até chegar neste momento de iluminação diante da mesa do Pêssach. Era a mesma etimologia egípcia, isto é “golpe”, agora interpretada como “Iahweh que salta, ultrapassa, poupa protege” as casas dos israelitas marcadas com o sangue da vítima pascal.
Ela era uma vítima das ciladas psíquicas e Deus a impulsionava a saltar sobre elas, protegendo-se delas e renascendo para a Libertação.
Mistérios de Deus.
O Povo de Israel recebeu e aceitou a Toráh no Monte Sinai, com fidelidade e lealdade, dizendo:
- “Faremos e ouviremos”.
Ela também faria e ouviria.
Seguiu a peregrinação do Sêder como o único caminho possível para a salvação de ser.
À volta o mundo tinha emudecido. Todos a observavam enquanto seus lábios se moviam em devota oração a Deus. Um toque de extrema santidade envolvia sua contrição e permeava a família. Uma reverência, um reconhecimento da Presença Divina.
Karpás - O salsão, colocado embaixo, à esquerda. Essa verdura, molhada em vinagre ou água salgada, serve para dar o “sabor” do Êxodo. Lembra o hissopo (Ezov) com o qual os israelitas aspergiram um pouco de sangue nos batentes de suas casas, antes da praga dos primogênitos
- Lave-se de meu sangue a minha dor e nasça de mim o primogênito da nova geração dos Libertos. – As palavras vinham como que sopradas pelo anjo que os desviara da morte há milênios atrás.
Chazéret - A escarola colocada sob o Marór para ser mergulhada na água salgada, referência às lágrimas vertidas. Ao mar do inconsciente que se abria dentro dela trazendo a paz e a segurança. Dique rompido.
Estava purificada, podia agora começar o ritual sagrado do Pêssach. Levantou o vinho kosher reverencialmente. Praticou a Urhas não apenas na ablução das mãos, mas do espírito. Cada hino de louvor, um louvor interno de gratidão pela presença inesgotável de Deus, o Impronunciável, dentro de seu coração. Cada passo ritualístico, um degrau vencido.
Enfim, Haliel. Então agradeceu ao Senhor Deus pela ceia pascal através da qual reviveu o milagre da liberdade. Encheu um copo de vinho (o quarto), e bebeu depois de ter recitado os salmos chamados de hallel.
No fim de tudo abriu a porta, para favorecer a entrada de Elihau Hanavi, o mensageiro e fez a Nirsah, aceitação total.
Anunciou o término da ceia pascal e pediu a Deus que seja sempre o libertador de Israel. O Israel que mora dentro de cada um de nós.
Chegara à Terra Prometida de seu Eu maior.
Vana Comissoli
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
APENAS UM FILME
Foi apenas um filme, falava de morte e de vida, esta bruxa ou fada que nos carrega pela mão nos fazendo rir ou chorar, brincar ou pecar, amar e nem tanto. Isso tudo sem pedir licença e sem aviso prévio. Mas foi lindo, suave e leve como não dá para imaginar num filme deste teor.
Maria Clara saiu do cinema rindo sozinha, meio sem ver nada, ou quem sabe vendo mais do que poderia um dia imaginar ver. Não se incomodou com o calor sufocante da rua como não tinha se incomodado com o ar condicionado enregelante do shopping.
Fora uma noite surpreendente, isto por que, por traumas passados odiava ir ao cinema sozinha, aliás como odiava qualquer coisa sozinha e agora não mais, nem se dera conta que fazia quase tudo acompanhada dela mesma e isso não perturbava, pelo contrário, abria espaço para ser cada vez mais ela mesma. Ninguém para implicar com restaurante onde comera degustando cada pedaço do wraps acompanhado daquela fantástica coca zero com gelo e limão. Caminhara por entre as lojas, shopping ela também odiava, achando bom o colorido caótico das vitrines misturadas e sob a luz branca e constante.
Fazia tempo que a leveza não a pegava assim desprevenida, deixando-a sem nenhuma resistência para se sentir bem. Não se pusera a cantarolar como é lugar comum nas novelas, tampouco endoidara os transeuntes com sorrisos sem quê nem por que. Nem ficara boba cumprimentando as pessoas e distribuindo amendoim. Quem a visse não desconfiaria de seu estado de espírito. Continuava senhora pelo lado de fora, apenas perturbava um pouco o vestido cheio de cores e a postura sem idade. Perturbava os bobos da corte que anseiam agradar ao rei de plantão e estipulam comportamentos adequados e outros fora de quadro, com isso enquadrando todo mundo num estereotipado bem longe da realidade.
O filme despertara não sei o que, uma mágica esquecida que lhe dava a certeza de poder tocar o pote no fim do arco-íris onde as moedas de ouro nem de ouro eram, mas de sorrisos e carícias compridas como nunca tivera. E assim acreditou que João ou José, ou o sem nome caminhava ao seu encontro com chapéu de plumas.
Não se espantou ao ver o homem fazer mesura à sua frente e tirar o chapéu emplumado num gesto mais cabível no reino da Dinamarca. Vestia calças bufantes de veludo e a camisa branca tinha detalhes de renda com uma vistosa gravata de laço em azul profundo. Retribuiu o cumprimento, dobrando um pouco a perna e arrebanhado as saias de cetim numa proeza a lá 1500.
Logo se deram os braços e para escândalo geral dançaram uma valsinha suave como a música de Chico Buarque, ou talvez não fosse dele? Não sabe como as luzes diminuíram e um tom alilazado cobriu de sensualidade o espaço em que estavam deixando os demais de fora e gelados de bom comportamento.
Não pensou nem por um momento que fosse alucinação ou toque de mágica, se deixou levar pelo desaviso, ou descabido como se tudo estivesse dentro da maior normalidade e que Miguel era mesmo verdadeiro ao seu lado apesar do cheiro de pizza que exalava como um bom e plausível homem do século XXI. A peruca de cachos e bucles encobriam os cabelos levemente grisalhos apesar do tempo que já andara por eles o que era absolutamente normal na corte francesa de onde surgira. Inglês não era, não tinha aquele nariz de quem sente mal odor em todas as coisas e tampouco norueguês ou sueco por que a fala era em bom português brasileiro, marcada por algumas gírias e alguns palavrões apropriados, nenhum deles dirigido a ela. Para ela só tinha minha deusa, ou minha princesa e era assim mesmo que se sentia, por menos não deixaria nesta hora de tão pouco escândalo e tanta seda.
Saiu à rua rindo disso tudo e sem entender como aquele filme gostoso que assistira apertada entre gente desconhecida e precisando cuidar para não descansar o braço em cima de braço alheio, pusera este tique surreal em seus olhos e uma fascinação dentro do peito.
Já era tarde e estava sem carro, emprestado para o filho, nem ligou de esperar o ônibus e ouvir o reclame das moças do shopping cansadas do trabalho e loucas para chegar em casa fugidas da matéria plástica do shopping que aguentavam todos os dias com um sorriso também de plástico.
Até fumou um cigarro para encompridar a sensação de eminente encontro com o príncipe encantado ou nem tanto que, com certeza, aconteceria ali na esquina apesar do pipoqueiro não deixar muita margem a encontros românticos em meio a cheiro de manteiga e chocolate quente de milho estourado.
Não lembrava o nome da Bela Adormecida pelo qual certamente mudaria o seu, mas estava certa que alguma coisa bela acordara nela nesta noite que não é de filme, mas feita da mais pura vontade.
Se deu conta de repente que ontem a noite era de lua cheia o que a pusera na janela a espiar e para seu assombro que nunca via, uma estrela riscou o céu e nem era estrela de verdade, mas um meteoro ou meteorito, o tamanho não importava, só importava que fez aquele pedido bem do jeito que tudo acontecera hoje no faz de conta de sua alma.
Vana Comissoli
Maria Clara saiu do cinema rindo sozinha, meio sem ver nada, ou quem sabe vendo mais do que poderia um dia imaginar ver. Não se incomodou com o calor sufocante da rua como não tinha se incomodado com o ar condicionado enregelante do shopping.
Fora uma noite surpreendente, isto por que, por traumas passados odiava ir ao cinema sozinha, aliás como odiava qualquer coisa sozinha e agora não mais, nem se dera conta que fazia quase tudo acompanhada dela mesma e isso não perturbava, pelo contrário, abria espaço para ser cada vez mais ela mesma. Ninguém para implicar com restaurante onde comera degustando cada pedaço do wraps acompanhado daquela fantástica coca zero com gelo e limão. Caminhara por entre as lojas, shopping ela também odiava, achando bom o colorido caótico das vitrines misturadas e sob a luz branca e constante.
Fazia tempo que a leveza não a pegava assim desprevenida, deixando-a sem nenhuma resistência para se sentir bem. Não se pusera a cantarolar como é lugar comum nas novelas, tampouco endoidara os transeuntes com sorrisos sem quê nem por que. Nem ficara boba cumprimentando as pessoas e distribuindo amendoim. Quem a visse não desconfiaria de seu estado de espírito. Continuava senhora pelo lado de fora, apenas perturbava um pouco o vestido cheio de cores e a postura sem idade. Perturbava os bobos da corte que anseiam agradar ao rei de plantão e estipulam comportamentos adequados e outros fora de quadro, com isso enquadrando todo mundo num estereotipado bem longe da realidade.
O filme despertara não sei o que, uma mágica esquecida que lhe dava a certeza de poder tocar o pote no fim do arco-íris onde as moedas de ouro nem de ouro eram, mas de sorrisos e carícias compridas como nunca tivera. E assim acreditou que João ou José, ou o sem nome caminhava ao seu encontro com chapéu de plumas.
Não se espantou ao ver o homem fazer mesura à sua frente e tirar o chapéu emplumado num gesto mais cabível no reino da Dinamarca. Vestia calças bufantes de veludo e a camisa branca tinha detalhes de renda com uma vistosa gravata de laço em azul profundo. Retribuiu o cumprimento, dobrando um pouco a perna e arrebanhado as saias de cetim numa proeza a lá 1500.
Logo se deram os braços e para escândalo geral dançaram uma valsinha suave como a música de Chico Buarque, ou talvez não fosse dele? Não sabe como as luzes diminuíram e um tom alilazado cobriu de sensualidade o espaço em que estavam deixando os demais de fora e gelados de bom comportamento.
Não pensou nem por um momento que fosse alucinação ou toque de mágica, se deixou levar pelo desaviso, ou descabido como se tudo estivesse dentro da maior normalidade e que Miguel era mesmo verdadeiro ao seu lado apesar do cheiro de pizza que exalava como um bom e plausível homem do século XXI. A peruca de cachos e bucles encobriam os cabelos levemente grisalhos apesar do tempo que já andara por eles o que era absolutamente normal na corte francesa de onde surgira. Inglês não era, não tinha aquele nariz de quem sente mal odor em todas as coisas e tampouco norueguês ou sueco por que a fala era em bom português brasileiro, marcada por algumas gírias e alguns palavrões apropriados, nenhum deles dirigido a ela. Para ela só tinha minha deusa, ou minha princesa e era assim mesmo que se sentia, por menos não deixaria nesta hora de tão pouco escândalo e tanta seda.
Saiu à rua rindo disso tudo e sem entender como aquele filme gostoso que assistira apertada entre gente desconhecida e precisando cuidar para não descansar o braço em cima de braço alheio, pusera este tique surreal em seus olhos e uma fascinação dentro do peito.
Já era tarde e estava sem carro, emprestado para o filho, nem ligou de esperar o ônibus e ouvir o reclame das moças do shopping cansadas do trabalho e loucas para chegar em casa fugidas da matéria plástica do shopping que aguentavam todos os dias com um sorriso também de plástico.
Até fumou um cigarro para encompridar a sensação de eminente encontro com o príncipe encantado ou nem tanto que, com certeza, aconteceria ali na esquina apesar do pipoqueiro não deixar muita margem a encontros românticos em meio a cheiro de manteiga e chocolate quente de milho estourado.
Não lembrava o nome da Bela Adormecida pelo qual certamente mudaria o seu, mas estava certa que alguma coisa bela acordara nela nesta noite que não é de filme, mas feita da mais pura vontade.
Se deu conta de repente que ontem a noite era de lua cheia o que a pusera na janela a espiar e para seu assombro que nunca via, uma estrela riscou o céu e nem era estrela de verdade, mas um meteoro ou meteorito, o tamanho não importava, só importava que fez aquele pedido bem do jeito que tudo acontecera hoje no faz de conta de sua alma.
Vana Comissoli
domingo, 23 de janeiro de 2011
A VISITANTE
Saiu do estado de letargia mantido durante os últimos três nyens. Alphonsus estava debruçado sobre ela, os olhos brilhantes de euforia. Ajudou-a a levantar e, com um gesto rápido, convidou-a a observar.
O grande visor abriu-se. Boiando no intenso negror estava o planeta azul imerso em sua fantasiosa harmonia, ainda assim belo e convidativo. Impossível deixar de sentir sua atração.
― É Gaia!
― É linda!
Uma emoção forte e primitiva tomou conta de Astene. Num segundo, milhares de vidas passaram por seus sensores e uma palavra estranha, sonora, tomou forma: Saudades. Virou-se para o companheiro perguntando:
― O que é saudades?
Alphonsus arregalou os olhos galácticos e profundos numa negação surpresa. Apertou um botão sobre a mesa de informações, uma tela se iluminou e desenhou em caracteres angulosos:
“Lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas dis-tantes ou extintas acompanhadas do desejo de tornar a vê-las.”
Uma imagem desconhecida, ou guardada no fundo da psique, nebulosa, veio à mente de Astene, com ela a nostalgia suave daquilo que se deseja novamente, já tocado e perdido.
A nave pousou com serenidade, tudo funcionava a contento.
Não foi a primeira a desembarcar, havia hierarquia, ela era apenas uma estudiosa aplicada que recebera como prêmio, a oportunidade de acompanhar a expedição.
A terra era verde e selvagem. Um fogo de vida e indisciplina brotava numa inquietante magnitude. Cacto vicejante, pleno de seiva alimentadora, para quem saiba escolher, senão... A morte.
Pequenos seres escuros e sorridentes os recepcionaram em festa. Todos se incorporaram à beatitude do momento. Apenas Astene continha dentro do peito um terror mágico. Uma premonição. Tentava fechar os olhos oblíquos para que não pudessem ler através deles o desvario e a ansiedade, tão desconectados com a rígida disciplina aprendida.
Escreveu em seu diário de experiências:
“Sou Astene, faço minha primeira missão, pensei encontrar mundos externos a serem desbravados, catalogados e transmitidos. Encontro o fervilhar de meu sangue e a impossibilidade de reportar-me aos tranqüilos sítios da meditação, como se tudo não passasse de uma viagem para dentro de mim. Perco minhas referências e percebo que... Não é possível que eu tenha sonhado. Sei de onde vim e onde estou. Não há psique forte assim, as coisas estão realmente acontecendo. Não é alucinação".
Tudo foi muito rápido. O reconhecimento da área, o encontro camuflado com os habitantes. A serenidade sendo retomada e a sensação de iminência se diluindo, até que todo sentimento parecesse um pesadelo.
“Hoje faremos contato direto. Estejam equilibrados e protegidos das violen-tas ondas emocionais que os terráqueos transmitem.” O instrutor foi incisivo en-quanto lançava olhares perscrutadores, nos punha transparentes. Abaixei-me para fechar a bota absolutamente composta.
Chegamos a uma sala apertada, as paredes oprimiam e eram tão densas que mal e mal podíamos vislumbrar o céu através delas. Reunidos em torno de mesa rude, ainda de madeira, encontramos seis terráqueos absorvidos em visões infantis e diluídas. Brincavam com suas energias tentando despertá-las e manterem-se organizados com elas. Volta e meia um deslizava e perdia a suave luz azul alaranjada.
Eu demorei a enxergá-los como individualidade, ao restringir meu campo de percepção eu o vi.
As mãos rebeldes postas sobre o colo, a testa ampla revelando sua procedência evidente, os olhos inquietos sob as pálpebras cerradas. Imediatamente percebeu-me. O coração disparou e um arrepio de premonição rompeu a possibilidade de concentrar-se. Os lábios moveram-se no enunciar de nome perdido e logo a luz violácea da nostalgia se consolidou em torno dele.
Voltei muitas vezes, meus mestres sorriam, compreensivos. Afinal toquei as cordas afinadas de sua percepção e ele tornou-se brilho rosa-fogo. Entrei cambaleante, em seu chakra básico e perdi as referências e os parâmetros. Enlouqueci. Nossos corpos rolaram no etéreo, bruxos e resplandecentes.
Conheci a nudez e jatos róseos avermelhados fulgiam em minhas pernas. O ventre, incandescente, dominava minha vontade. Ele também nu, os braços abertos e o peito como cama macia. Consciente sobre o estado de nudez soube que era apenas parte neste momento.
Abraços, beijos, sempre e sempre mais internos, me levaram, devagar, por mundos nunca cavalgados. Não fui sozinha, ele me acompanhava.
Meu corpo, novamente na velha dimensão, foi buscado. Um contato lento. Um roçar de lábios, uma mão na pélvis, encostar de peitos e depois a expansão. Viajei nas galáxias, vi sóis e mares, reconheci-me no Universo e de dentro de mim um jorro de luz. Fiquei em paz e olhei meu companheiro de viagem, entendendo no seu cansaço o mesmo encontro. Descobri a outra parte, unindo-as senti o Todo.
A nave subiu sem ruído. Eu, no dorso da terra, observava meus irmãos que partiam. Encolhi-me. Perdia muito e ganhava outro tanto, fugi da consciência. Tor-nei-me parte que busca parte.
Vana Comis-soli
O grande visor abriu-se. Boiando no intenso negror estava o planeta azul imerso em sua fantasiosa harmonia, ainda assim belo e convidativo. Impossível deixar de sentir sua atração.
― É Gaia!
― É linda!
Uma emoção forte e primitiva tomou conta de Astene. Num segundo, milhares de vidas passaram por seus sensores e uma palavra estranha, sonora, tomou forma: Saudades. Virou-se para o companheiro perguntando:
― O que é saudades?
Alphonsus arregalou os olhos galácticos e profundos numa negação surpresa. Apertou um botão sobre a mesa de informações, uma tela se iluminou e desenhou em caracteres angulosos:
“Lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas dis-tantes ou extintas acompanhadas do desejo de tornar a vê-las.”
Uma imagem desconhecida, ou guardada no fundo da psique, nebulosa, veio à mente de Astene, com ela a nostalgia suave daquilo que se deseja novamente, já tocado e perdido.
A nave pousou com serenidade, tudo funcionava a contento.
Não foi a primeira a desembarcar, havia hierarquia, ela era apenas uma estudiosa aplicada que recebera como prêmio, a oportunidade de acompanhar a expedição.
A terra era verde e selvagem. Um fogo de vida e indisciplina brotava numa inquietante magnitude. Cacto vicejante, pleno de seiva alimentadora, para quem saiba escolher, senão... A morte.
Pequenos seres escuros e sorridentes os recepcionaram em festa. Todos se incorporaram à beatitude do momento. Apenas Astene continha dentro do peito um terror mágico. Uma premonição. Tentava fechar os olhos oblíquos para que não pudessem ler através deles o desvario e a ansiedade, tão desconectados com a rígida disciplina aprendida.
Escreveu em seu diário de experiências:
“Sou Astene, faço minha primeira missão, pensei encontrar mundos externos a serem desbravados, catalogados e transmitidos. Encontro o fervilhar de meu sangue e a impossibilidade de reportar-me aos tranqüilos sítios da meditação, como se tudo não passasse de uma viagem para dentro de mim. Perco minhas referências e percebo que... Não é possível que eu tenha sonhado. Sei de onde vim e onde estou. Não há psique forte assim, as coisas estão realmente acontecendo. Não é alucinação".
Tudo foi muito rápido. O reconhecimento da área, o encontro camuflado com os habitantes. A serenidade sendo retomada e a sensação de iminência se diluindo, até que todo sentimento parecesse um pesadelo.
“Hoje faremos contato direto. Estejam equilibrados e protegidos das violen-tas ondas emocionais que os terráqueos transmitem.” O instrutor foi incisivo en-quanto lançava olhares perscrutadores, nos punha transparentes. Abaixei-me para fechar a bota absolutamente composta.
Chegamos a uma sala apertada, as paredes oprimiam e eram tão densas que mal e mal podíamos vislumbrar o céu através delas. Reunidos em torno de mesa rude, ainda de madeira, encontramos seis terráqueos absorvidos em visões infantis e diluídas. Brincavam com suas energias tentando despertá-las e manterem-se organizados com elas. Volta e meia um deslizava e perdia a suave luz azul alaranjada.
Eu demorei a enxergá-los como individualidade, ao restringir meu campo de percepção eu o vi.
As mãos rebeldes postas sobre o colo, a testa ampla revelando sua procedência evidente, os olhos inquietos sob as pálpebras cerradas. Imediatamente percebeu-me. O coração disparou e um arrepio de premonição rompeu a possibilidade de concentrar-se. Os lábios moveram-se no enunciar de nome perdido e logo a luz violácea da nostalgia se consolidou em torno dele.
Voltei muitas vezes, meus mestres sorriam, compreensivos. Afinal toquei as cordas afinadas de sua percepção e ele tornou-se brilho rosa-fogo. Entrei cambaleante, em seu chakra básico e perdi as referências e os parâmetros. Enlouqueci. Nossos corpos rolaram no etéreo, bruxos e resplandecentes.
Conheci a nudez e jatos róseos avermelhados fulgiam em minhas pernas. O ventre, incandescente, dominava minha vontade. Ele também nu, os braços abertos e o peito como cama macia. Consciente sobre o estado de nudez soube que era apenas parte neste momento.
Abraços, beijos, sempre e sempre mais internos, me levaram, devagar, por mundos nunca cavalgados. Não fui sozinha, ele me acompanhava.
Meu corpo, novamente na velha dimensão, foi buscado. Um contato lento. Um roçar de lábios, uma mão na pélvis, encostar de peitos e depois a expansão. Viajei nas galáxias, vi sóis e mares, reconheci-me no Universo e de dentro de mim um jorro de luz. Fiquei em paz e olhei meu companheiro de viagem, entendendo no seu cansaço o mesmo encontro. Descobri a outra parte, unindo-as senti o Todo.
A nave subiu sem ruído. Eu, no dorso da terra, observava meus irmãos que partiam. Encolhi-me. Perdia muito e ganhava outro tanto, fugi da consciência. Tor-nei-me parte que busca parte.
Vana Comis-soli
O HOMEM DE MEUS SONHOS
Tudo que desejo é encontrar um desses homens maduros e gostosos, que não desejam um instante, mas tantos passos quanto a harmonia permita.
Não desejo uma barriga tanquinho, sim uma barriga que saiba balançar alegremente de riso.
Não busco uma performance sexual, mas um beijo carinhoso depois.
Não quero que pinte os cabelos por que grisalho tem um charme artístico que me fascina.
Não anseio um homem que carregue um peitão siliconado pelo braço para provar que ainda seduz, quando na verdade foi seduzido pela ilusão de que um jovem amor pode voltar o relógio do tempo.
Quero um homem que saiba validar as estradas por onde andou, a sabedoria que absorveu e me fale, num jantarzinho em casa ou num restaurante discreto que toque MPB e tenha velas na mesa.
Quero a emoção que só um homem vivido sabe ter e que reconhece sua importância.
Quero um homem que não tenha vergonha de se emocionar numa passagem dolorosa de filme e que aperte minha mão neste momento como quem diz: pode chorar, eu entendo e também deixei correr meu sentimento pelos olhos.
Não quero um homem para me deixar de língua de fora na cama, mas que saiba prolongar um gozo só por nós vividos neste momento.
Não quero um homem que só saiba dizer adeus, mas que tenha aprendido a validade de um volto logo.
Quero um homem que já tenha lido poesia e ache lindo. Que conheça Fernando Pessoa e me deixe ler em voz alta, mesmo me achando um pouco criança e não rindo por eu ser isso mesmo.
Quero um homem que assista sem culpa ou cobrança o seu jogo de domingo e não faça polêmica por que saí com uma amiga já que não sou fissurada por futebol.
Quero este homem que conhece os caminhos das praças e não me dê dinheiro para eu comprar um presente, mas me traga este presente sem muita certeza se acertará.
Quero um homem que acredite em sonhos em todas as idades sabendo que eles mudam de teor e forma
Quero aquele se descobriu a delícia de ser naturalmente elegante e não seja fanático por Hugo Boss e nem pense que uma etiqueta possa lhe conferir charme.
Quero que seja espontâneo e não faça cara de mau para impressionar. Que sinta um pouco de medo já que é um sentimento comum a todos nós em alguns momentos.
Quero um homem que não me ate achando que voarei, mas tenha a certeza que é meu pouso.
Quero este cinqüentão, ou sessentão que sabe que o menino dentro dele é o mesmo de sempre.
Quero um homem que saiba rir alto e chorar também, que dê e saiba receber. Um homem que traga flores e não se aflija por que esqueceu.
Não precisa cozinhar, mas, se souber, não faça disso mais trunfo para dizer que se basta e é o cara.
Quero que leve café na cama e adore receber fingindo que está dormindo
Quero que se sinta maravilhoso de terno e gravata e não menos de bermuda e camiseta.
Quero um homem que saiba ficar calado e também fale animado quando tiver vontade.
Não quero um professor me ensinando o tempo todo, mas discípulo tanto quanto eu.
Que dirija bem e não se ache o Ayrton Sena, que não diga que mulher é terrível na direção quando eu der alguma rateada que provavelmente ele também já deu
Quero um homem com agá maiúsculo e não um boneco estereotipado pela novela das oito.
Quero enfim, um homem que já tenha aprendido que a vida é preciosa em qualquer idade e que todas elas são tempo de amor.
Não desejo uma barriga tanquinho, sim uma barriga que saiba balançar alegremente de riso.
Não busco uma performance sexual, mas um beijo carinhoso depois.
Não quero que pinte os cabelos por que grisalho tem um charme artístico que me fascina.
Não anseio um homem que carregue um peitão siliconado pelo braço para provar que ainda seduz, quando na verdade foi seduzido pela ilusão de que um jovem amor pode voltar o relógio do tempo.
Quero um homem que saiba validar as estradas por onde andou, a sabedoria que absorveu e me fale, num jantarzinho em casa ou num restaurante discreto que toque MPB e tenha velas na mesa.
Quero a emoção que só um homem vivido sabe ter e que reconhece sua importância.
Quero um homem que não tenha vergonha de se emocionar numa passagem dolorosa de filme e que aperte minha mão neste momento como quem diz: pode chorar, eu entendo e também deixei correr meu sentimento pelos olhos.
Não quero um homem para me deixar de língua de fora na cama, mas que saiba prolongar um gozo só por nós vividos neste momento.
Não quero um homem que só saiba dizer adeus, mas que tenha aprendido a validade de um volto logo.
Quero um homem que já tenha lido poesia e ache lindo. Que conheça Fernando Pessoa e me deixe ler em voz alta, mesmo me achando um pouco criança e não rindo por eu ser isso mesmo.
Quero um homem que assista sem culpa ou cobrança o seu jogo de domingo e não faça polêmica por que saí com uma amiga já que não sou fissurada por futebol.
Quero este homem que conhece os caminhos das praças e não me dê dinheiro para eu comprar um presente, mas me traga este presente sem muita certeza se acertará.
Quero um homem que acredite em sonhos em todas as idades sabendo que eles mudam de teor e forma
Quero aquele se descobriu a delícia de ser naturalmente elegante e não seja fanático por Hugo Boss e nem pense que uma etiqueta possa lhe conferir charme.
Quero que seja espontâneo e não faça cara de mau para impressionar. Que sinta um pouco de medo já que é um sentimento comum a todos nós em alguns momentos.
Quero um homem que não me ate achando que voarei, mas tenha a certeza que é meu pouso.
Quero este cinqüentão, ou sessentão que sabe que o menino dentro dele é o mesmo de sempre.
Quero um homem que saiba rir alto e chorar também, que dê e saiba receber. Um homem que traga flores e não se aflija por que esqueceu.
Não precisa cozinhar, mas, se souber, não faça disso mais trunfo para dizer que se basta e é o cara.
Quero que leve café na cama e adore receber fingindo que está dormindo
Quero que se sinta maravilhoso de terno e gravata e não menos de bermuda e camiseta.
Quero um homem que saiba ficar calado e também fale animado quando tiver vontade.
Não quero um professor me ensinando o tempo todo, mas discípulo tanto quanto eu.
Que dirija bem e não se ache o Ayrton Sena, que não diga que mulher é terrível na direção quando eu der alguma rateada que provavelmente ele também já deu
Quero um homem com agá maiúsculo e não um boneco estereotipado pela novela das oito.
Quero enfim, um homem que já tenha aprendido que a vida é preciosa em qualquer idade e que todas elas são tempo de amor.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
ESCRITOR NOVATO
Escritor, ao contrário da magnífica aura que se criou em torno da atividade, é um bicho chato paca. Escreve tudo que passa pela cabeça e filosofa. Como filosofa!! Depois manda para todo mundo.
A muitos ele enche a paciência por que não estão nem aí para questionamentos, divagações e críticas, ou estão soterrados de trabalho e de saco cheio de estar na frente do computer.
As escrevinhações são de todas as etiologias, pode crer. Desde o cosmo até o mais ínfimo grão de areia. Política e Brasil é o que mais gostamos, incluindo claro, religião e Deus. Serve-nos também assuntos sérios ou humorísticos, relacionamentos e sua dinâmica. Traquitana antiga ou antevisões futurísticas. Tudo serve. Tudo são letras em movimento.
Eu incomodo especialmente escrevendo sobre todas as Dependências. As dos outros principalmente. Olhar o sufoco alheio é bem mais fácil. Espelho torto onde fantasio que não sou passível de escorregões estratosféricos.
Quem gosta de escritor é outro escritor. Normalmente são as pessoas que mais lêem por isso se amam, animais estranhos no paraíso da imbecilidade chamado Terra.
Quem gosta de escritor é outro maluco com a diferença que não escreve com letras legíveis, escreve, reescreve no bulício de seus pensamentos, nas indagações intermináveis de seus questionamentos e na busca do que é quase sem resposta.
No Brasil quem gosta de escritor é mimoseado com o título de rato de biblioteca. Rato, esse bichinho repugnante que ninguém deseja por perto. No Brasil ler é perder o BBB não sei que número para afofar mentalmente bundas, peitos e picas duras dos outros já que provavelmente não funcione bem com nenhum desses elementos vitais.
Uni-vos, escritores brasileiros, cheios de garra e com tão pouca valorização nas terras tupiniquins. Bons são os de fora, das terras civilizadas, onde se escreve qualquer bobagem, se edita e se é lido. Brasileiro reclama, mas gosta de se menosprezar. Nada daqui é bom, só o que vem de fora merece atenção. Ou um que outro Paulo Coelho falando de mágicas pseudo-reais e outras plagiadas como sabemos.
A onda dos vampiros parece um tsunami e penso se estamos tão perdidos que só a ficção total aguentamos por que a realidade é dura e não queremos olhar para ela de frente. Isso dá trabalho, teríamos que fazer alguma coisa, no mínimo pensar no mundo que criamos.
Alguns dizem que o livro desaparecerá, o computador, mais fácil, deletável o substituirá e fico feliz em lembrar a declaração de Humberto Eco: “Tudo que eu quiser dizer seriamente colocarei no papel.”
Talvez venha uma nova “queima às bruxas” e veremos nossos amados filhos de papel torrando no meio da rua. Não é ficção, vêem-se movimentos do governo que desembocarão nisso. Melhor não esperar para ver e gritar antes:
QUERO FALAR! QUERO EXISTIR EM MINHAS PALAVRAS!
Grande Fernando Pessoa dizendo:
“Quem não entende uma palavra, não pode entender uma alma.”
Está na hora de escritor brasileiro deixar de se encolher, não permitir que apenas as traças leiam suas letras santas.
Está na hora do Brasil se alfabetizar e aprender o beabá não que sejam apenas três letras: N Ã O!
Vana Comissoli
A muitos ele enche a paciência por que não estão nem aí para questionamentos, divagações e críticas, ou estão soterrados de trabalho e de saco cheio de estar na frente do computer.
As escrevinhações são de todas as etiologias, pode crer. Desde o cosmo até o mais ínfimo grão de areia. Política e Brasil é o que mais gostamos, incluindo claro, religião e Deus. Serve-nos também assuntos sérios ou humorísticos, relacionamentos e sua dinâmica. Traquitana antiga ou antevisões futurísticas. Tudo serve. Tudo são letras em movimento.
Eu incomodo especialmente escrevendo sobre todas as Dependências. As dos outros principalmente. Olhar o sufoco alheio é bem mais fácil. Espelho torto onde fantasio que não sou passível de escorregões estratosféricos.
Quem gosta de escritor é outro escritor. Normalmente são as pessoas que mais lêem por isso se amam, animais estranhos no paraíso da imbecilidade chamado Terra.
Quem gosta de escritor é outro maluco com a diferença que não escreve com letras legíveis, escreve, reescreve no bulício de seus pensamentos, nas indagações intermináveis de seus questionamentos e na busca do que é quase sem resposta.
No Brasil quem gosta de escritor é mimoseado com o título de rato de biblioteca. Rato, esse bichinho repugnante que ninguém deseja por perto. No Brasil ler é perder o BBB não sei que número para afofar mentalmente bundas, peitos e picas duras dos outros já que provavelmente não funcione bem com nenhum desses elementos vitais.
Uni-vos, escritores brasileiros, cheios de garra e com tão pouca valorização nas terras tupiniquins. Bons são os de fora, das terras civilizadas, onde se escreve qualquer bobagem, se edita e se é lido. Brasileiro reclama, mas gosta de se menosprezar. Nada daqui é bom, só o que vem de fora merece atenção. Ou um que outro Paulo Coelho falando de mágicas pseudo-reais e outras plagiadas como sabemos.
A onda dos vampiros parece um tsunami e penso se estamos tão perdidos que só a ficção total aguentamos por que a realidade é dura e não queremos olhar para ela de frente. Isso dá trabalho, teríamos que fazer alguma coisa, no mínimo pensar no mundo que criamos.
Alguns dizem que o livro desaparecerá, o computador, mais fácil, deletável o substituirá e fico feliz em lembrar a declaração de Humberto Eco: “Tudo que eu quiser dizer seriamente colocarei no papel.”
Talvez venha uma nova “queima às bruxas” e veremos nossos amados filhos de papel torrando no meio da rua. Não é ficção, vêem-se movimentos do governo que desembocarão nisso. Melhor não esperar para ver e gritar antes:
QUERO FALAR! QUERO EXISTIR EM MINHAS PALAVRAS!
Grande Fernando Pessoa dizendo:
“Quem não entende uma palavra, não pode entender uma alma.”
Está na hora de escritor brasileiro deixar de se encolher, não permitir que apenas as traças leiam suas letras santas.
Está na hora do Brasil se alfabetizar e aprender o beabá não que sejam apenas três letras: N Ã O!
Vana Comissoli
DIVAGANDO RUBEM ALVES
Leio o Rubem devagar, é preciso sorvê-lo, ler não basta.
Às vezes preciso voltar atrás quando alguma coisa me fere demais e entristeço de ver minhas concepções infantis se desmanchando: amo a mim através do outro.
Que chato! Eu queria amar o outro diferente de mim! Mas talvez fosse uma invasão e assim é que está certo. Já escrevi que amamos o outro porque não podemos amar direto a Deus, ao nosso espírito imortal. Ou qualquer outra coisa externa e grande
Também volto a reler ao ficar feliz de reconhecer já ter feito tantas dessas sabedorias, se é que servem para alguma coisa.
Lembro-me do texto que escrevi quando abateram o guapuruvu que enxergava da minha janela e com quem conversava todas as manhãs. O consolei na morte iminente a cada galho tombado. Ele que era tão orgulhoso e feliz com sua beleza e elegância.
Depois chorei a perda de meu amigo árvore e para sempre reconheci suas sementes quando as encontrava. Recebi uma qualquer de presente e fiz de conta que eram dele. Afinal, todas as sementes de guapuruvu pertencem a mesma espécie porque suas almas de planta são unas e indivisíveis e, se morrem, não sentem a dor que sentimos sabendo que continuarão vivas em suas iguais.
Lembro que imitava o Chiquinho (o de Assis que amo incondicionalmente, como ele ensinou) dando bom dia céu, bom dia sol, ou chuva até mesmo antes de escovar os dentes.
Lembro que arrancava capim-navalha do meio da grama pensando que ele era muito ardiloso, pois escorregava as raízes por baixo das outras para brotar logo adiante e sobreviver do meu arrancar e matar. Ele enganava a famigerada morte.
Deveria por datas no que escrevo senão sempre parecerá que escrevi depois que aprendi e muito pelo contrário, o aprender é absolutamente atual. Diário.
Foi assim que lembrei de um conto escrito em Bombas quando tinha onze bebedores para beija-flor e ficava sentada olhando sua guerra. Os beija-flores são muito belicosos, sabias? Lutam defendendo seu território. Descobri nesse belo tempo, onde não existia tempo e sobrava tempo para aprender as coisas imensamente sérias da vida: dos pequenos animais, do lindo jardim que eu tinha.
Existiu outro, perdido, se é que se pode perder algum texto já que ficaram escritos dentro de mim e talvez de algumas pessoas que leram, onde eu acompanhava formigas lá em Canela, no Rio Grande do Sul e me sentia uma delas e as compreendia.
Houve também aquela experiência no Beira-Mar Shopping, de Floripa, quando nem sonhava em morar na Ilha da Magia. Olhei as pessoas com um sentimento estranho e forte de que todas eram uma individualidade fantástica e pulsavam igual a mim, sendo também eu. Um sentimento de unidade tão grande que nem eu, amante das letrinhas, consigo descrever. Um paradoxo: uma unidade absolutamente cabível na individualidade.
Por causa dessas coisas todas foi que comecei a pensar que era maluca e agora, parte delas, o Rubens diz que também malucou. Encontro então, outro maluco e não me sinto tão deslocada nesse mundo que é de Deus.
Não é porque Ele está tão esquecido, perdido dentro das garrafas de Coca-cola e outras tantas coisas inúteis. Se é que Ele existe, não o tenho visto ultimamente.
Ontem eu pensei muito tempo que não estava me importando com a opinião de ninguém porque eu podia ser eu em paz e dar uma banana para as opiniões.
Pensei no meu amigo que se esforça para me convencer dos caminhos a percorrer, quando sei que já trilhei tantos. Agora desejo o meu próprio que seguirá outras marcas, mas provavelmente não as seguirá de forma inexorável e mais pularei amarelinha entre eles.
Até quis escrever, mas estava com sono. Escrevi mais tarde, não saiu do jeito que pensei no travesseiro. Outro amigo colocou no site mesmo assim. Ainda riu de mim quando desejei que o conto passasse na triagem e me respondeu que os meus sempre passam e isso também é estranho. Acho que só eu posso sentir realmente o que escrevo, são bons apenas aos meus olhos. No entanto, tive um amigo que chorara me lendo, ou se identificara. Então é uma tremenda pretensão imaginar que só eu sinto as coisas, tenho apenas a capacidade de transcrevê-las e foi o pessoal lá de cima que me deu isso, não fui eu que criei nada.
Acaba que isso é quase uma crônica e talvez eu possa arrumar a forma e jogar no espaço da Internet.
Tenha um lindo dia nublado porque eles também são lindos com seu alívio ao calor e, às vezes penso que sou meio sapo, pois sinto saudades desses dias quando demoram a voltar.
Vana Comissoli 01/2008
Às vezes preciso voltar atrás quando alguma coisa me fere demais e entristeço de ver minhas concepções infantis se desmanchando: amo a mim através do outro.
Que chato! Eu queria amar o outro diferente de mim! Mas talvez fosse uma invasão e assim é que está certo. Já escrevi que amamos o outro porque não podemos amar direto a Deus, ao nosso espírito imortal. Ou qualquer outra coisa externa e grande
Também volto a reler ao ficar feliz de reconhecer já ter feito tantas dessas sabedorias, se é que servem para alguma coisa.
Lembro-me do texto que escrevi quando abateram o guapuruvu que enxergava da minha janela e com quem conversava todas as manhãs. O consolei na morte iminente a cada galho tombado. Ele que era tão orgulhoso e feliz com sua beleza e elegância.
Depois chorei a perda de meu amigo árvore e para sempre reconheci suas sementes quando as encontrava. Recebi uma qualquer de presente e fiz de conta que eram dele. Afinal, todas as sementes de guapuruvu pertencem a mesma espécie porque suas almas de planta são unas e indivisíveis e, se morrem, não sentem a dor que sentimos sabendo que continuarão vivas em suas iguais.
Lembro que imitava o Chiquinho (o de Assis que amo incondicionalmente, como ele ensinou) dando bom dia céu, bom dia sol, ou chuva até mesmo antes de escovar os dentes.
Lembro que arrancava capim-navalha do meio da grama pensando que ele era muito ardiloso, pois escorregava as raízes por baixo das outras para brotar logo adiante e sobreviver do meu arrancar e matar. Ele enganava a famigerada morte.
Deveria por datas no que escrevo senão sempre parecerá que escrevi depois que aprendi e muito pelo contrário, o aprender é absolutamente atual. Diário.
Foi assim que lembrei de um conto escrito em Bombas quando tinha onze bebedores para beija-flor e ficava sentada olhando sua guerra. Os beija-flores são muito belicosos, sabias? Lutam defendendo seu território. Descobri nesse belo tempo, onde não existia tempo e sobrava tempo para aprender as coisas imensamente sérias da vida: dos pequenos animais, do lindo jardim que eu tinha.
Existiu outro, perdido, se é que se pode perder algum texto já que ficaram escritos dentro de mim e talvez de algumas pessoas que leram, onde eu acompanhava formigas lá em Canela, no Rio Grande do Sul e me sentia uma delas e as compreendia.
Houve também aquela experiência no Beira-Mar Shopping, de Floripa, quando nem sonhava em morar na Ilha da Magia. Olhei as pessoas com um sentimento estranho e forte de que todas eram uma individualidade fantástica e pulsavam igual a mim, sendo também eu. Um sentimento de unidade tão grande que nem eu, amante das letrinhas, consigo descrever. Um paradoxo: uma unidade absolutamente cabível na individualidade.
Por causa dessas coisas todas foi que comecei a pensar que era maluca e agora, parte delas, o Rubens diz que também malucou. Encontro então, outro maluco e não me sinto tão deslocada nesse mundo que é de Deus.
Não é porque Ele está tão esquecido, perdido dentro das garrafas de Coca-cola e outras tantas coisas inúteis. Se é que Ele existe, não o tenho visto ultimamente.
Ontem eu pensei muito tempo que não estava me importando com a opinião de ninguém porque eu podia ser eu em paz e dar uma banana para as opiniões.
Pensei no meu amigo que se esforça para me convencer dos caminhos a percorrer, quando sei que já trilhei tantos. Agora desejo o meu próprio que seguirá outras marcas, mas provavelmente não as seguirá de forma inexorável e mais pularei amarelinha entre eles.
Até quis escrever, mas estava com sono. Escrevi mais tarde, não saiu do jeito que pensei no travesseiro. Outro amigo colocou no site mesmo assim. Ainda riu de mim quando desejei que o conto passasse na triagem e me respondeu que os meus sempre passam e isso também é estranho. Acho que só eu posso sentir realmente o que escrevo, são bons apenas aos meus olhos. No entanto, tive um amigo que chorara me lendo, ou se identificara. Então é uma tremenda pretensão imaginar que só eu sinto as coisas, tenho apenas a capacidade de transcrevê-las e foi o pessoal lá de cima que me deu isso, não fui eu que criei nada.
Acaba que isso é quase uma crônica e talvez eu possa arrumar a forma e jogar no espaço da Internet.
Tenha um lindo dia nublado porque eles também são lindos com seu alívio ao calor e, às vezes penso que sou meio sapo, pois sinto saudades desses dias quando demoram a voltar.
Vana Comissoli 01/2008
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