Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

UMA MOEDA, OUTRA FACE

─ Quinzimmm... Quinzinhoooo... ─ Foi o chamado. O menino pré-adolescente rosnou de volta: ─ Joaquim! Não se deu ao trabalho de gritar a reprimenda, ouvido ou não, ele não seria atendido na exigência que já devia beirar uns 5 ou 6 anos. Não bastava o terem feito eterna miniatura do pai dando-lhe o mesmo nome, puseram a abreviação ridícula de Quinzinho. Era o apequenamento da miniatura. O drama é que apelido pega, quanto mais quiseres te livrar dele, mais gruda em ti como tatuagem mal feita e borrada que se odeia, mas não tem jeito de tirar. Nem sequer era parecido fisicamente com o pai e muito menos na maneira de ser. Não era o mais velho, onde poderia se achar algum tipo de explicação, como o tão esperado filho e essas coisas bobas que nem sempre traduzem um sentimento verdadeiro. Era o caçula muitos anos mais moço que o irmão próximo. Sem nem entrar no mérito que Joaquim era um nome prá lá de ultrapassado e que sempre o fazia passar vergonha. Os colegas tinham nomes como Alberto, Paulo, Gustavo e ele precisava dizer entre dentes o malfadado Joaquim. Coisa de velho, ruminava. Gostava do pai. Quem não gosta? Ama-se até um mau pai, pelo menos enquanto a consciência não está totalmente desenvolvida, precisava fingir que não gostava para mostrar sua rebeldia sem perdão. Isso dava um trabalho danado, era preciso ser respondão, tirar notas muito baixas, criar situações para levar umas boas lambadas ardidas (o pai era de antigamente igual ao nome) e outras coisas difíceis de serem feitas quando não nascem espontaneamente. Aos poucos, conforme crescia, foi se isolando, assim não precisava ouvir o chamado- punhalada no ouvido. Só não conseguia se livrar da mãe que insistia com o apelido. Em torno dos 17 anos resolveu se conhecer, ou melhor, conhecer o significado do nome estigma. “Joaquim: Surgiu no hebraico como Jehoiachim, que quer dizer estabelecido por Deus (Jeová). A partir deste dia estabeleceu o que considerou sua real filiação e deixou de ser o filho do “seu” Joaquim para ser o exaltado por Deus. Aliviou sua alma, nada estaria acima disso. Acreditou demais nessa salvação, muito além da conta. Foi adiante e descobriu outras coisas que também introjetou: Joaquim: Que ser independente e escolher seus próprios projetos, decidir sozinho e trabalhar sendo o seu próprio patrão. Com espírito pioneiro e desbravador, é sempre muito honesto e leal. Gosta de desafios intelectuais. Quer ser ouvido e sua maior recompensa é ser elogiado em suas habilidades e atitudes. Era isso mesmo que ele queria, caía como uma luva e foi fácil começar a exigir que o respeitassem, foi dizendo de cenho apertado que não atenderia quem o chamasse pelo apelido indigno de um filho de Deus. No início não deram muita importância, aos poucos foram obrigados a esquecer o carinhoso Qinzim. Se fazia de surdo quando a mãe o chamava assim e depois passou a dizer palavrões que ela nem conhecia o significado. Chegava a cortar pela metade a palavra quando pelo hábito começava a chama-lo. O pai ignorou e como quase nunca o chamasse não houve problema algum. Com os irmãos foi mais difícil, muito olho roxo e muita cara amassada rolou até que eles desistissem. Achavam uma burrice, afinal Joaquim não é um nome sonoro e gostoso que caracteriza um menino do século XXI, Qizim era o “canal”. Joaquim se fortificou, aprendeu que podia mudar as coisas que não o agradassem. Foi para a academia e desenvolveu músculos, socos, em 1 ano era um possante rapaz que inspirava respeito só de olhar. Ninguém se metia com ele, sabiam que viria bomba e nem mulher de milico gosta de apanhar até sangrar a cara. Ele não tinha piedade, marcava seu território a ferro e fogo. Tinha uma missão e a faria de qualquer maneira, era seu dever diante de Deus. Atingiria seus objetivos embora não soubesse quais seriam, isso era de menor importância. Descobriria. O que valia era o andamento da conquista que considerava respeito. “Os “Joaquins” aprendem com os próprios erros e suportam melhor a pressão física e mental do que a maioria das pessoas. Procuram amigos com interesses semelhantes, por isso não são muito sociáveis. Geralmente trabalham para si mesmas, pois não gostam de receber ordens, quando muito atuam como administradores ou gerentes, pois preferem dar as ordens. São em geral proprietários de seus negócios, ou então são aqueles que os gerenciam. Autoritarismo, presunção, dominação ou mania de exatidão, são fatores negativos do portador deste nome. Quando são reprimidos por algo se tornam tristes, ressentidos e limitados. Obter sucesso na vida é fácil quando colocam em prática suas próprias ideias e realizam seus próprios planos”. Se era tudo isso por que o pai não o respeitava devidamente? Por que o pai não desenvolvera sua potencialidade plena e se resignara a ser mais um funcionário público sem expressão? Esta limitação do pai fazia com que ele mesmo se limitasse. Todos os “Joaquins” tinham o dever de corresponder à imagem. Não via isso? Os aspectos negativos envolvidos não lhe diziam respeito, afinal era um predestinado de Deus e nada de ruim o tocaria. Depois de resolvido o problema do apelido, se atirou aos estudos, era evidente que precisava ser o primeiro da turma por mais difícil que fosse. Uma a uma as etapas foram vencidas e o vestibular foi ultrapassado com facilidade, era Joaquim. Arredio, de poucas palavras, mas gestos de comando e olhar furioso. Amigos não eram necessários, mais tarde provavelmente quando precisasse de contatos para que sua vida profissional seguisse a linha traçada. A solidão o alimentava bem como uma raiva cega e surda do mundo que lhe devia respeito. As coisas estavam neste pé quando conheceu a Mariana. Era uma moça de cabelos ao vento, pernas que sabiam correr e mãos em constante movimento. Gostava de falar alto, de fazer amigos e de curtir sexta-feira com grupo de amigos em algum boteco qualquer para estudantes. De preferência alternando os amigos, deixava mais dinâmico, dizia. Entrou na faculdade na metade do semestre vinda de outro estado. Sabe-se lá por que Joaquim se encantou. Não tinha nada a ver com ele e no início achou inconvenientes as piadas que interrompiam os professores, com o tempo (tempo bem rápido) passou a rir para dentro, ela era mesmo irresistível. A necessidade de conhecê-la levou-o novamente a pesquisar nomes onde encontrava seus tesouros. Mariana: “Muito ligado a família, e emotivo costuma exagerar nos seus cuidados e corre o risco de sufocar as pessoas que ama. Tem muita energia e por isso deve sempre manter-se ocupado com alguma coisa. Nos relacionamentos amorosos ou mesmo de amizade, quando se magoa, procura se recolher para dentro de si mesmo e só sai quando recebe um pedido de perdão. Um bom conselho seria aprender a controlar seu temperamento e deixar as pessoas que ama mais na delas”. Era certo que ela não conhecia a própria alma, aquela dinâmica de extroversão era uma fachada e ele a ajudaria a se descobrir sem que os aspectos negativos viessem à tona. Ajudando-a neste encontro reforçaria seu próprio destino de aceitar desafios e de receber elogios que receberia friamente sendo eles apenas reconhecimento de sua competência. Mariana nem sequer prestou atenção nele e aos poucos foi se incomodando com aquele “nerd” importuno a assediando de forma tão fria que a vontade era de vestir casaco e sair correndo. Por algum tempo apenas sorriu gelado para ele, não era mal educada e todo mundo entende sorriso sem graça. Ou não? Joaquim começou a questionar o quanto tinha sido contaminado pelo Quinzim que a força de seu nome, seu âmago não derrubava as barreiras da menina boba que gargalhava com todo mundo, menos com ele. A falta dos elogios do pai, só podia ser isso. Mesmo quando passou tão bem no vestibular ele apenas lhe dera um tapinha nas costas dizendo “é isso aí, Quinzinho”. Total desrespeito. Insistiu junto à Mariana como pode e aguentou. Os dias passavam e dentro dele crescia a raiva descomunal que naturalmente ele não expunha. Ela se desenvolveu a ponto de não poder mais encarar os irmãos e a mãe que era também uma grande culpada: deixará o pai lhe dar aquele nome idiota. As notas foram despencando e não era mais o primeiro da turma, não conseguia se concentrar nos livros, o rosto de Mariana rindo dele, debochando. Tentava se segurar em algum valor guardado do Joaquim, nada havia a segurar, Deus se calara. Estaria isso também estabelecido? Há carga em ser o preferido do Senhor? Qual era a missão que precisava enfrentar agora para retomar seu caminho divino? A resposta estourou numa madrugada de temporal entre raios e trovões. Recomeçar. Esta era a verdadeira forma de matar o Joaquim torto, com marcas de segundo, ele depois do pai, ele não o único. Só havia um jeito de ser o primeiro, os reis sobem em majestade quando deixam de ser príncipes, apenas um pode ser rei. “O rei está morto. Longa vida ao rei”. Cheio de sangue do pai nas mãos, não sentiu como se o rei estivesse morto e muito menos que fosse ter longa vida. Sentiu um gelo subindo pelo peito e estraçalhando os últimos sentimentos existentes. Até José teria servido, todos os nomes ou qualquer um, menos em nome do pai. Vana Comissoli

domingo, 15 de abril de 2012

CARNE E SANGUE



Padre Jeremias se arrastou ao altar sentindo-se fraco e angustiado, negava que fosse algum mal do espírito que tantas vezes o atormentara com visões de acontecimentos futuros próximos. Isso é tentação do demônio e esconjurava:
"Pé de pato
Pé de pinto,
Quem sobrou
que vá pros quintos"
Em seguida batia na boca por de novo ter vindo à mente o esconjuro de sua infância. Não tinha jeito, o tinhoso se enfiava até em suas lembranças, passava por cima da exaltação da Igreja e...
“Eu juro e te desconjuro.
Vai-tiarré, Cruz! Pé de Pato!
Sai daqui raça ruim,
Mais levado do diabo!”
Parece que hoje estava pior, seu estômago embrulhara-se de tal forma que não via a hora de botar o dedo na goela e vomitar todas as tripas que estivessem se contorcendo. Ainda mais terrível era a certeza de que algo infernal aconteceria naquela que deveria ser a missa relaxante do fim-de-tarde.
Arrepiado, erguendo os olhos a cada ruído mais intenso foi levando até chegar a hora da Eucaristia quando deveria esquecer tudo e todos, inclusive os medos e principalmente as superstições. Sentir a transubstanciação de um pequeno e banal biscoito sem graça no corpo e sangue de Nosso Senhor. Era a apoteose da missa, seu significado dogmático e inquestionável. A aparência permaneceria de pão e vinho, porém a substância se modificaria, passaria a ser o próprio Corpo e Sangue de Cristo. Nada da bobagem incrédula de outros ramos dissidentes de falar em símbolo. Símbolo o escambau! Era sangue e carne!
Houve tempo, em que era infantil que pensara, provavelmente endemoniado, que milagres não acontecem assim... no ligeirão, diante de nossos olhos. Sentiu o toque divino da fé quando leu São João Crisóstomo: “Com efeito, o que é o pão? É o corpo de Cristo. E em que se transformam aqueles que o recebem? No corpo de Cristo; não muitos corpos, mas um só corpo. De fato, tal como o pão é um só apesar de constituído por muitos grãos, e estes, embora não se vejam, todavia estão no pão, de tal modo que a sua diferença desapareceu devido à sua perfeita e recíproca fusão, assim também nós estamos unidos reciprocamente entre nós e, todos juntos, com Cristo”.
João Paulo II ensinou que a desagregação enraizada na humanidade é contraposta à força geradora de unidade do corpo de Cristo. Portanto... Sem questionamentos bastardos e herdados de magos e bruxas a quem interessava possuir o poder. A Igreja não se interessava pelo poder, mas sim na união como nos primeiros tempos. A sabedoria herdada diretamente do Cristo pela Igreja Católica era o arrimo e a esperança do mundo e estava em suas mãos.
"E, tomando um pão, tendo dado graças, o partiu e lhes deu, dizendo:
Isto é o meu corpo oferecido por vós; fazei isto em memória de mim.
De forma semelhante, depois de cear, tomou o cálice, dizendo:
Este é o cálice da Nova Aliança no meu sangue derramado em favor de vós”.
Que droga! Hoje a concentração não estava boa. Será que ainda tenho um biscoito na mão ou, apesar de minha inconstância, se deu o milagre prometido? Fechou os olhos e engoliu a hóstia. Esperou alguns segundos para que a Verdade se fizesse dentro dele...
O maligno saiu de sua cabeça sob a forma de seres vermelhos, alados e chifrudos, riam e ele ficou lívido. Sua pouca fé se materializava à sua volta, ou seria apenas uma tentação como Jesus também viveu no deserto? Vencerei satanás, pensou e virou-se para a fila de pessoas à espera da comunhão. Foi um sacrifício palpável e de vez em quando era obrigado a espantar os pequenos demônios que teimavam em aterrissar sobre seus ombros, sobre o cálice tantas vezes sagrado. Vencer o demônio era seu intuito e esbravejou esconjuros poderosos que a todos estremeceu. Era justo que assim fosse, pois de todos saiam diabos particulares enraizados em suas mentes e corações.
Seu exorcismo atingiu as mais profundas fendas do inferno por que, a cada comungando, foi dado o dom e gritavam se jogando sobre aqueles que não comungaram, tentando esgoelá-los, alguns testemunharam visões dos santos, outros abraçaram o crucifixo.
Saia Satã, Mefistófeles, Belzebu, Azazel, Azarape, Cabrunco, Cão, Canhoto, Capa-Verde, Capeta, Capiroto, Chifrudo, Coisa-Ruim, Cramulhão, Crinado, Danado, Demo, Dos Quintos, Encardido, Espírito-de-Porco, Excomungado, Ferra-Brás, Indesejado, Lá de baixo, Mau, Mefisto, Pastor Negro, Pé-de-Bode, Pé-Preto, Pedro Botelho, Peneireiro, Príncipe, Rei ou Senhor das Trevas, Príncipe, Rei ou Senhor dos Infernos, Rabo-de-Seta, Rabudo, Ranheta, Renegado, Sarnento, Satanás, Sete-peles, Temba, Tinhoso, Tranca-Rua, Zarapelho...
Nenhum foi esquecido e já as velas eram derrubadas do altar e o fogo se espalhou rápido pela sacristia, subindo nos bancos e no púlpito. Queimavam os confessionários, as rameiras ocultas se despiam e jogavam-se nuas e enlouquecidas nas chamas mais ardentes. Os infames, lanhavam a cara e gritavam seus pecados e mea culpa, os ordinários se escondiam nos cantos de onde as chamas cavalgadas pelos demônios os expulsava.
- Esconjuro o bicho do ciúme, escuro, negro, que tenta apanhar-me fragilizada e tomar conta do território. És uma mascote, cão raivoso, não és o chefe da matilha, eu te esconjuro.
- Esconjuro o bicho da posse, que não permito que reja mares que o ultrapassam na sua beleza, na sua profundidade, no seu balanço hipnótico, nas suas águas furiosas. Afoga-te nelas!
- Esconjuro o bicho do despeito, devorador das orlas das emoções generosas que só precisam de si mesmas para se regenerar.
O padre corria a avivar o fogo, o inferno tinha vindo resgatar seus moradores que se fossem todos nas chamas, seu lugar. Em alguns momentos, átimos, em que conseguia ver com os olhos que tivera antes desta demonstração da ira do Senhor, sabia que as chamas eram apenas espirituais e todos ali se purificavam e sairiam ovelhas brancas e celestiais, quiçá anjos.
“Não se adora, não se crê senão aquilo que se teme; todas as crianças olham para o céu com indiferença; mas estruja o trovão e elas tremerão, irão se esconder.”
Assim era hoje a Verdade dentro de uma singela igreja perdida no mundo, mas Deus não escolhe lugares, escolhe homens de fé que queiram segui-lo com ardor. Jeremias, fiel a seu mandato, salvou à custa de mãos de fogo as hóstias restantes e no tumulto da paixão, agradeceu a cuidadosa prevenção das irmãs que nunca baixavam o estoque.
Saiu à rua, os cabelos tisnados, as vestes semi cozidas e empurrou goela a baixo hóstias de redenção dizia entre soluços e lágrimas de gratidão ao senhor.
Pavor e estranheza consegue arrebatar as mentes mais lúcidas e os ensinamentos escamoteados voltam à tona em toda sua força: os medos, a escuridão, impotência, fragilidade e submissão primal. É a hora do homem diante da incompreensão do Cosmos e seu pedido de socorro é agudo e desesperado. Todos engolem a hóstia consagrada para logo em seguida os diabos internos assolarem sem pudor, transformando homens em assassinos, estupradores, viciados, negros olhos olhando seu negror interno.
A festança maligna durou cerca de duas horas se é que alguém, dentro ou fora da igreja se lembrou de olhar o caminho dos ponteiros.
A noite ia já a passos largos quando o que sobrou dos homens, crentes ou não, aplacou o ensandecido Purificador e adormeceu-os atirados pelo chão como se animais fossem.
Do Vaticano vieram nomes nobilíssimos a fim de estudar e encontrar, fosse como fosse, uma explicação para o acontecimento que, na certa, tinha sido arquitetado para denegrir o Santo nome. Um feito simples, rápido e eficiente:
“Ao invés de farinha normal, hóstias foram produzidas com uma farinha alucinógena, que teve efeito imediato. E por isso, no último domingo, na igreja do Santo Espírito de Campobasso, na região central da Itália, desencadeou-se o caos”.
“Foi apurado que se tratou de um caso de ergotismo, uma intoxicação alimentar causada por farinhas de cereais contaminadas por esclerócios que atingem a safra do grão. Os organismos microscópicos contêm uma grande quantidade de fungos, perigosos para a saúde, entre os quais costumam se encontrar muitos agentes psicotrópicos, parecidos com o ácido lisérgico, ou LSD”.
“Segundo resultado das análises a farinha utilizada para produzir as hóstias foi contaminada por estes agentes, capazes de provocar uma reação alucinógena em menos de um minuto”.
O Santo Padre leu o relatório e chamou os mais altos bispos para o exorcismo máximo da Igreja.


Vana Comissoli

quarta-feira, 11 de abril de 2012

TIREM-ME DAQUI!




Em Nome de Deus Clemente Misericordioso
Que a paz esteja convosco

Em qualquer lugar do mundo o trabalho campesino é rude e duro, feito para pessoas simples em quem o contato com a terra é uma extensão de si mesmo. Tudo que precisam conhecer da vida a natureza ensina e talvez saibam viver melhor do que os letrados e pernósticos intelectuais do concreto.
Shamim não era diferente de seus vizinhos, pouco estudo, pouco tempo para grandes pensamentos. Sua fé era a mesma que herdara dos pais, que herdaram dos pais, que herdaram... Para que perguntas sobre isso? Tem todas as respostas nas maçãs que amadurecem, na aspereza do solo exigente que dá em troca de esforço um perfume frutado ao peito reconhecido. Deus não é mesmo isso? Somos fiéis, fazemos o trabalho que Ele nos deu com afinco e prazer e... Pronto, recompensa. Não tem nada a reclamar de Deus. Tudo que acontece é fato da vida assim como os pássaros voam, as plantas crescem, chove quando tem que chover e o homem é mau quando tem que ser.
Neste dia levantou quando mal saia o sol a espiar a terra paquistanesa. O sol não sabe a quem alimenta, não entende de muçulmanos ou cristãos, tanto uns como outros precisam dele do mesmo jeito, assim como de água, alimento e sono. Não foram as regras criadas por Deus indistintamente? É o que Shamim sem pensar, pensa, está dentro dela. Têm vizinhas que adoram Maomé, mas batem roupa no rio exatamente como ela, gritam pelos filhos, fazem segundo a mesma receita, o pakora e as deliciosas samosas. A única diferença é na hora de rezar, Shamim não tem horário, a maioria dos habitantes da pequena aldeia tem.
Alzubra, Azzah, Ghayda e todas as outras se ajoelham longe dos maridos para orar "lá onde a terra pouco verdeia, para não se perder na areia, tem sempre a luz da candeia, do archote de Maomé". O silêncio verde do Islã cala até a boca dos cachorros, dizem...
Shamim observa, é cristã, aqui na “terra dos puros”. - Pak deriva do persa e significa “puro”, e Stan, “terra”. Não convém espiar nesta hora, mas é teimosa, não se importa que seja um grão de areia neste mundo islâmico. Jesus veio para todos e a Lei da Sharia também, não há defesa contra a blasfêmia do olhar, no entanto até os cristãos arrefeceram este peso não de ser com ela, perdida nesta terra pedregosa que se voltará a ira. Não entende de estado laico ou vinculado à uma religião, são ideias tão longínquas quanto imaginar um mundo onde as mulheres não estejam atrás de um véu.
No seu mais secreto íntimo deduzia com convicção: "Cristo morreu na cruz pelos pecados da humanidade"; que sacrifício Maomé havia feito pelas pessoas? Até as matara e em seu nome muitas e muitas mais. Na própria aldeia tinham havido julgamentos rápidos e eficientes em cortar mãos e o açoite é um objeto abominável e íntimo. Que ninguém a ouvisse, recorreriam ao imame local, esposo de uma das amigas, e a denunciariam à polícia pelo delito de blasfêmia. O artigo 295 do Código Penal do Paquistão determina pena de morte para quem blasfemar contra o Profeta do Islão. Teriam os pensamentos soado alto demais? Atravessado a espessa fumaça de seu cérebro?
Cresceram juntas, casaram com os maridos a quem foram destinadas, tiveram filhos na mesma época, mas Shamim, cinco vezes por dia é a estranha. Tentam convencê-la a aceitar a fé islâmica segundo manda a "Jihad Menor”. Ela ouve, treme um pouco, há tantas histórias! E de uns tempos para cá parece que houve um aumento nas diferenças e não trocam receitas e risinhos com a mesma frequência. Mas não... As amigas, quase irmãs, não fariam nada contra ela.
Após a Salát Assobh, a oração da manhã, vão ao poço buscar água, conversando faceiras enquanto puxam os véus para esconder a boca. As casas não tem água e não há estranhamento nisso. Há bastante para todos no poço.
Shamim crê que serve ao Deus vivo e que, por isso, não há razão para negar o cristianismo e virar uma muçulmana. Não há razão para medo, será consolada pelo Senhor. Desconhece que desde o dia em que deixou escapar ou talvez não tenha escapado nada, só pensado intensamente, algo sobre a igualdade das fés todos a consideraram uma blasfema.
Habibah coloca seu jarro na beirada do reservatório e vira-se para continuar a conversa ininterrupta que as mulheres adoram. São descuidadas nesta hora, nenhum homem à vista, os maridos estão no campo e os filhos nas escolas. É a sua hora, talvez mais sagrada do que qualquer das sagradas horas de oração, mas isso nem elas, nem Shamim sabem. O jarro balança um pouco, mal assentado e o gesto espontâneo faz com que Shamim corra a segurá-lo. O alvoroço é geral:
- Não toca! Impura, infiel, vais conspurcar a água de minha família.
- Só fui segurar para não cair e quebrar. Não toquei na água, está vazio ainda.
Habibah toma o pote e lança-o ao chão, está perdido, sujo e violado. Allah é Deus e Maomé o seu profeta, foi determinado que uma impura não blasfeme se opondo às suas leis.
No dia seguinte, seus vizinhos foram à polícia e relataram que Shamin fez comentários depreciativos contra Maomé. A ira de Deus é menos poderosa que a ira do homem contra aquele que blasfema sobre seu deus.
Por mais que o homem queira, Deus não mudará Seu caminho que foi feito à imagem e semelhança do homem e nestas paragens, os caminhos estão escritos no Alcorão.

Vana Comissoli

sábado, 7 de abril de 2012

VIA SACRA

Josué desceu do ônibus dando graças a deus por afinal estar a quatro quarteirões de sua cama. Estava cada vez mais difícil ter paciência de aturar o cheiro de gente, as palavras vazias ou ásperas de todos em torno. Uma hora e dez, às vezes vinte deste convívio forçado e espremido era muito mais do que um cristão poderia aguentar para salvar sua alma. Às vezes ficava repetindo internamente “Vão para o inferno, desgraçados!” como uma espécie de mantra ou conta de ovelhinhas antes de dormir. Distraía e parava de ouvir a tagarelice de vizinhos desconhecidos aproximados apenas pelo mesmo penar dentro do coletivo.
- Vão para o inferno, desgraçados! – Vão para o inferno, uma vez. Vão para o inferno, duas vezes. Vão para o ...
O ar da rua refrescado pela garoa era uma espécie de batismo bendito que o aproximava da bem aventurança. Aquela tão suplicada nos cultos e prometida nos cultos do pastor Elias todos os domingos dedicados ao Senhor conforme recentemente recebera em sua vida. Esperança, esperança, esperança.
Gritos atravessaram as calçadas, gritos próximos e múltiplos. Tencionou-se. Eram prenúncio de perigo na favela, tiroteio dos traficantes ou invasão da polícia. Sempre perigosos para quem não tinha nada nem com um, nem com outro e procurava viver despercebido até o dia que fosse chamado a uma vida melhor que, tinha certeza, chegaria. Esperança prometida, regras cumpridas á risca para merecê-la, até o cigarro largara, baseado nem para refresco. Pelo menos era o que sua mãe de mãos esfoladas pelo tanque e sabão ininterruptos, falava de olhos postos no crucifixo pendurado meio capenga em cima da porta de entrada para abençoar a casa e aos que saíam ou chegavam. Não importava muito em qual dos casos, desde que tivessem sempre presente que eram filhos de deus e um dia, sabe-se lá quando, seriam resgatados da favela. Josué gostava dos amigos, da funk e das peladas, mas desde que os políticos resolveram perseguir o tráfico, as coisas ficaram pesadas e a vontade de ir embora bateu na porta com força.
Ouviu os tiros e se grudou na parede de cabeça baixa, correndo com a pasta de plástico cobrindo a cabeça como se fosse um escudo anti bala perdida, fazia de conta que era para a chuva miúda numa tentativa de diminuir o medo que podia paralisá-lo em vez de fazê-lo correr o mais que pudesse. Quando dobrou a esquina a movimentação era bem maior do que o esperado, todo mundo corria e um quase menino estava estendido no chão imóvel. Uma mulher desmaiava nos braços de alguém, ou fazia quê, já que gritava alucinada: meu filho! Meu filho!
Quatorze quadras para chegar em casa, estava acostumado a contar os passos, distraía a tensão e quem sabe impediria de ouvir os tiros e os gritos. Felizmente parece que estavam mais para cima e não à esquerda, direção que seguiria.
- Foi ele! Foi ele!
A voz berrou e em seguida alguém lhe passou uma rasteira fazendo com que caísse de cara no chão, um fio de sangue escorrendo do nariz que tinha batido de jeito no meio fio.
A partir daí tudo se transformou num grande pesadelo, uma leve visão de sacrifício passando rapidamente pela cabeça. “Te esconjuro!”
- Foi ele, eu vi! Reconheço o moletom e o capuz pretos. Foi ele que atirou.
A multidão enlouquecida pela sede de sangue, punição, esperança de centenas de anos, também reconheceu. Até os que nunca o tinham visto acusaram o reconhecimento e urravam: Também vi, foi ele. Deve ter a arma ainda. Está sempre armado este desinfeliz, eu vi!
A sorte se acabou ali. Que sorte? Esperança de sorte.
Meia dizia de homens suados, molhados pela chuva, cheirando a roupa suja, caíram sobre ele, amarrando-lhe os pulsos e os pés, mas de modo que ainda pudesse andar. Levantaram-no puxando pelos cabelos, rasgando o capuz e empurraram-no em direção à subida íngreme, sentido contrário e torto de sua casa. Pedras soltas na via o fizeram tropeçar, andava sem enxergar direito e não conseguia se lembrar das palavras do pastor embora procurasse febrilmente no cérebro entorpecido por xingamentos e impropérios. “Seu filho do diabo, filho de puta e outras verdades que tais”.
Caiu batendo os beiços que racharam e sangraram, uma dor aguda e estrondosa comprovou a perda do dente que não lembrou de cuspir e nem sabe se engoliu. Alguns chutes fizeram com que entendesse que era preciso levantar e que, talvez isso fosse sua salvação, já vira gente morrer pisoteada na estripulia de fugir dos alvoroços agora quase constantes na favela. As autoridades tinham se decidido a limpar o ambiente dando segurança aos moradores. Todos tiveram esperança e fé que isso seria uma bênção. Era uma questão de tempo, depois tudo seria paz e dias de sol, a alma renovada pela saída da bandidagem com seus atos demoníacos que visavam apenas o próprio umbigo. Um novo tempo, uma nova ideia de vida.
Compreendia a direção a seguir pela turba que abria caminho para ele, até parecia uma procissão. As ideias começavam a se organizar e ele pensava que era filho de deus e seria salvo deste inferno de loucos e desenfreados. Foi assim que resolveu anunciar:
- Não fui seu, sou filho de deus. Ele é meu pai assim como seu!
Alguma coisa deu errado por que choveram pedras e uma delas encontrou certo o caminho do olhos que fechou a meio.
Uma mulher abria caminho aos prantos, arrancando os cabelos e afinal reconheceu como sua mãe, ou talvez tenha ouvido seus chamados.
- Josué, meu filho. Que fizeste? Nada fizeste. Este é Josué. Estão enganados.
A esta altura estava estropiado e cego, entortava o caminho, pensava nos ovos de Páscoa que ainda precisava comprar para os primos e para neguinha Madalena de sorriso largo e branco. Madalena dos braços macios e colo exposto aos seus carinhos, jurando amor eterno que a ele se daria por toda a vida.
Viu que a mãe caía e alguém a recolheu nos braços. Seria o pastor? Levou-a do burburinho e pensou que talvez os pés balançando fosse a última coisa que visse da mãe. Lamentava em meio ao caos de conexão mental não ter ficado mais tempo com ela ao invés de ter corrido a soltar pipas. Sentar ao lado do tanque ouvindo as histórias de santos e anjos que ela gostava tanto de contar apesar do pastor dizer que não existiam. Mas eram apenas histórias e ela pecava no segredo da casa. Como menino era justo que quisesse mais sair com os amigos atrás de descobertas que repartiria com enlevo, do que ver mãe batendo roupa sob o sol.
Lá de trás veio um vozerio e todo mundo parou. Parece que o BOPE estava derramando mais polícia, alguns até se escafederam e seu amigo Jonas com um olhar que apertou o coração de ver, tanta piedade tinha, passou seu pano de mecânico pelo rosto dele, limpando ou sujando um pouco, mas pelo menos não correu mais sangue da testa o que abriu a visão e melhor não ter aberto já que se deu conta muito bem do que estava para acontecer. Já vira antes. Aonde mesmo?
O pessoal do BOPE tinha outras ocupações e os favelados desgranidos que cuidassem de suas turras, não era traficante e eles não se metiam na arruaça, essa era a regra: deixa o pessoal resolver suas pendengas, a missão é pegar bandido, o povo é trabalhador e do bem. Foi assim que o grupo continuou caminho inchado de gente a cada metro.
Josué não viu quando jogaram uma galinha morta retirada do ebó dos exus. Tropeçou na bicha e se enrolou em seus pés fazendo-o cair pela segunda vez. Bem de seu lado ouviu a saudação e teve certeza que estes nomes não se deve dizer, razão tinha o pastor, eram do demônio e traziam má sorte:
- Laroyê, Exu! "Exu, em ti confio. Leva meus medos embora, Compadre".
Continuou ouvindo como uma ladainha e no fundo nem achou tão dos infernos por que lhe deu uma impossível calma, parecia até que pediam por ele, tivesse fé e coragem que tudo terminaria em pizza com um olho roxo, sem um dente e um monte de escoriações dolorosas, mas passariam. Esperança, não morres nunca.
Ninguém o juntou, mas levantou assim mesmo, enxergava já o terreno baldio do alto da favela, quem sabe não quereriam se encher de pega-pega e apenas o largassem por lá aliviados dos pecados e felizes com a justiça.
Estavam bem na frente da casa de Sá Matilde com as meninas todas saindo meio peladas para assistir o desfile, até parecia cantor de funk chegando para a balada e isso não era fato de se perder. Quando viu Ritinha nem sabe bem como, no meio delas, com sua cara de vaca com sono sentiu um aperto no peito, até ontem brincava com sua irmã com as bonecas de trapos que a mãe costurava. Os olhos dela tinham um jeito estranho e parece até que corria água deles. As palavras saíram meio atropeladas ou bêbadas sem que pudesse brecá-las e não sabia que elas existiam dentro dele até ouvi-las:
- Não te preocupa, Ritinha, não chora. Um dia eu subirei até aqui de novo e te tirarei desta vida de pecados, és só uma guriazinha, teu coração é puro, mostra isso prá todo mundo, mesmo que tenhas que abrir as pernas todas as horas do teu dia.
Mal terminou de falar e alguém deu um passa pé que o desabou novamente. Estava tão pesado, devia ser cansaço do dia trabalhado, estava acostumado a dor no cangote, se parecia maior era por que não pudera se atirar na frente da TV como todos os dias enquanto mastigava o bom e conhecido sanduiche de mortadela.
Chegaram ao descampado e alguém o derrubou para lhe tirar os tênis quase novos e até as roupas todas, cada um carregando uma peça. O frio da chuva que se tornara gelada pela noite, arrepiou sua pele e então, só então se deu conta do pavor que o dominava.
Tinha que acontecer isso tudo, este pesadelo, bem na véspera dos feriados? Teria três dias para descansar até começar, no domingo a se preparar para a nova e eterna semana que sempre voltava.
Vacilou quando viu a árvore seca bem no meio do terreno, meio chamuscada pelo fogo, onde assaram o Nei das Trincas ao trair o Chefe embolsando alguns gramas de pó. Foi nela que o prenderam e parecia estarem enterrando alguma coisa em suas mãos para que não pudesse se soltar. Com o que seria que doía tanto? Precisavam também prender os pés? Ele não teria forças para caminhar nem dois passos, não fugiria, isso era desnecessário.
Já estava tudo turvo e mesmo que virassem as costas, deu-se conta que não conseguiria sair dali, queria mesmo era se atirar no chão, dormir com a chuva aliviando a dor que o queimava. O pastor era um desgraçado, tinha dito que ele era filho de deus. Onde estava o tal deus nessa hora? Por que não vinha com seus anjos salvá-lo daquele inferno? Melhor que não viesse, talvez morrer fosse não sentir nada, talvez a morte fosse a verdadeira salvação e foi assim que se entregou. Não estava sentindo mais nada quando Zé Pretinho o espetou com o canivete.
No dia seguinte saiu notícia no jornal com foto e tudo sobre o massacre da favela e o povo todo se persignou. Tinha isso que acontecer bem na Páscoa? E se... E se...
Povo é povo, houve até romaria por via das dúvidas, algumas mulheres levaram flores que puseram junto à árvore queimada. Muito tempo depois elas estavam lá como no dia em que foram depositadas e ele passou a ser chamado de santo milagroso já que a flores não morriam.
Eram sempre-vivas, tem a mesma aparência por todo o sempre até que virem pó.

Vana Comissoli

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

FILHOS DO PODER SUPERIOR

Aos parceiros da UDQ na lembrança
amigos, irmãos, camaradas
para sempre.

Patrick, André, Astréia e Míriam.
Conhecemo-nos aqui nessa casualidade imposta. Prisão disfarçada.
Somos adictos internados, cada um na sua, numa clínica para dependentes químicos.
Os dias se arrastam nos grupos terapêuticos, sessões com psiquiatras, seminários explicativos (prá lá de chatos), filmes patrolando nossa adicção.
Temos pela frente trinta dias iguais, convivendo numa panela de macarrão que cozinhou demais. Mole e emaranhado. Um barulho ensurdecedor dentro da cabeça. Noites fritando na cama até chegar o entorpecimento sonambúlico dos remédios forçando a desligarmo-nos do mundo.
Muitos momentos, horas ociosas. Fumamos loucamente. Não temos bebida, nem droga, nenhum embalo. Os cigarros como único escape, uma chaminé para os pensamentos esburacados.
Uma constante charada martelando sem resposta: Quem sou eu? Quem sou eu? Um cogumelo ou um elefante branco? Somos um pouco de tudo, até da interrogação. Tentando sair de um buraco negro e fundo que nós mesmos cavamos.
Cogumelos tentando se proteger com suas copas da chuva ácida, presos nas raízes que sobraram da gangrena de nossas desgraças.
Elefantes brancos no espelho dos olhos de quem nos observa.
Um monte de retalhos a serem costurados para, afinal, nos mostrarem o que somos e a que viemos.
Entramos esquivos, meio chapados ainda, meio bêbados. Estômago embrulhado, o medo nos olhos, a solidão na alma e a desconfiança como escudo. Alguns dão o último “teco”, a última fumada da pedra, a última cheirada, no banheiro da recepção, enquanto esperam a triagem. Só os alcoólicos não fazem isso: impossível esconder uma garrafa de vodka no rabo.
Logo estarão nus e se agachando para ver se não trazem nas entranhas algum suspiro de cocaína, crack ou maconha.
Arrancados de nossas referências, por vontade própria alguns, outros a fórceps. Pouco convencidos da lepra em que nossas vidas desembocaram.
Aos poucos, a exposição desnuda das terapias, nos mostra as afinidades dos desafins em tudo, menos com as drogas. Os pontos de toque e de choque em que esbarramos.
Encontramo-nos.
Patrick. Vinte e seis anos, cocainômano injetável. Lindo como Adônis, meio morto como Lázaro. Homo, bi e se pudesse, tri sexual. A sensibilidade jorrando pelos poros, pelas tatuagens, pelos piercings. Um espírito gritando, enquistado no desespero.
André. Ao passar pelas ruas, as pessoas se voltam: que cara de bom menino! Que translúcidos olhos azuis! Cabelos loiros, comportados. Suave e interrogador olhar. A inquietação enchendo sua boca de chocolate, balas e perguntas. Voraz, incerto, inseguro. A cocaína cheirada no escondido da madrugada, do filho e da mulher a quem se atracava com toda a força do coração torcido. Muitas internações, esta sua última esperança. Haverá a última? Ou será a última antes da próxima?
Astréia. Menina levada, quase criança. Estapeando o mundo com a raiva nos olhos turquesa, na aparência mais do que desleixada, nos palavrões que saúdam suas falas. Na homossexualidade escarrada na cara dos certinhos e estúpidos, no seu conceito. Um ET sem saber de que planeta caíra. Perdidaça, jurando que sabia tudo. Somelier de todas as drogas. Uma expert.
E eu. Mírian. Atravessada pelo álcool depois de ter sido atingida por um avião batendo nas torres gêmeas. Família, filhos, trabalho. Tédio aparentemente normal. Torcida igual pepino para se tornar o que jamais fora. Deixando-se domar por medo do mundo grande e ameaçador. De solidão já tinha prenhe a infância irreversível. Algumas fugas guerreiras para manter a identidade, mas que já prenunciavam a válvula de escape da vodka. Um barco desgovernado procurando bússola.
Quatro vidas, quatro desencontros, quatro carências absurdas.
Na encheção das terapias ou nas dores da cura, em meio às conversas sérias, mineradoras, a exaustão de lapidar-se.
Foi simples assim.
O fumódrofo mergulhado na fumaça dos incontáveis cigarros, os poros exalando nicotina, a boca feito cinzeiro.
Grupos reunidos no dominó, alguém sozinho num canto com olhos perdidos, um violão retinindo.
Nós quatro proprietários da mesa grande onde ninguém se atreve a chegar.
As palavras dos grupos de auto ajuda tilintando nos ouvidos:
“Acreditamos que um Poder Superior a nós mesmos pode devolver-nos o equilíbrio.” (Primeiro passo do A.A.)
“Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus na forma em que O concebemos.” (Terceiro passo do A.A.)
Poder Superior... Estrela longínqua no espaço sideral da adicção. Crença vazia de significados. Objeto de nossas orações desesperadas e jamais materializadas. Nada de milagre à vista. Só muita coragem e querer. Ponto de interrogação.
− Tive uma idéia espetacular! Não somos filhos do Poder Superior?
Eles me olharam.
− E daí? Grande merda. – retrucou Astréia.
− Ele existe. – Afirmou André convicto. Eu vi. No lustre de minha sala.
− No lustre... Ah, me poupe! Viajandão vê até Jesus Cristo descendo da cruz soltando fogos de artifício.
− Existe, mas não se importa. – vaticinou Patrick.
− Então vamos recriá-lo à nossa imagem e semelhança, conforme o concebemos. Não é isso que eles pregam?
A olhada de meus parceiros traz carradas de curiosidade. Alguma luz, eu acho.
− Vamos criar a Igreja dos Filhos do Poder Superior!
Uma lufada de ar baleiado. Fonte de inesperado desufoco. Brincadeira no meio do peso.
− Seremos os pastores.
− Isso dá grana, muita grana.
− Irmãos, ovelhas desgarradas, o Poder Superior abre seus braços sobre suas cabeças sofridas. Espera apenas a vossa aceitação. Materializem a entrega de suas almas, de suas vidas através da fé do dízimo. Doe e receba em dobro!
-- Em triplo! – Triplo é melhor. Pega bem.
Pastores precisam de nomes de impacto. Místicos. Força e fé.
− Patrick, serás Osiris, o deus egípcio julgador dos mortos, o que pesa os corações e portanto a validade da vida.
− André serás Thor, o deus nórdico. Representando a força da natureza, o trovão, fazendo justiça com seus raios, com o seu martelo.
− Astréia. Serás Perséfone, amada de Hades, deus das entranhas da terra e para lá a levou. Por pedido de sua mãe inconsolável volta para visitá-la e da alegria de Demeter, nasce a primavera. O renascimento. Renasceremos nas tuas mãos, pastora dos perdidos, dos abandonados.

Eu serei Kali. Kali tem um relacionamento ambíguo com o mundo. Por um lado destroe os espíritos malignos e estabelece a ordem. Entretanto também serve como representante das forças que ameaçam a ordem social e a estabilidade por sua embriaguez de sangue e subseqüente atividade frenética. A deusa da morte. Organizarei a mente dos desviados.

Já a mania tomava conta de nossos frágeis egos. O entusiasmo eleva as vozes.
Astréia brada:
--Roupas. Não podemos usar coisas comuns, banais. Nós somos os pastores, os fiéis devem nos temer e respeitar.
Era chegada na moda trash. Patrick transava jóias de prata, anéis, pulseiras.
− Branco, tem que ser branco. Pureza. A nossa pureza. – Baixa um pouco o tom. – Não descobrimos, mas existe.
Logo volta ao tom frenético:
− Com uma tremenda folha dourada no peito, a cor pode mudar de acordo com a graduação hierárquica. Dourado só para os fundadores.
− Folha de quê?
− Sou mais uma nota de dólar. Lembrar sempre o dízimo é fundamental. A gente vai precisar de iate para meditar no grande mar. – Esse é André, o prático da turma.
− Que dólar, que nada! O dízimo a gente berra no meio da colheita. Arranca os cabelos.
− Vou usar peruca, então. – Murcha Patrick.
− Tem que ser uma tremenda folha de maconha que é familiar a todos. – Andréia berra.
− Legal! Não podemos esquecer a desgraça que vivemos.
− Então precisaremos de avião para ir aos lugares sagrados: Colômbia, China, Afeganistão. Todos.
− Como assim?
− Produtores de coca, ópio, mescalina, haxixe, LSD...
− Sensacional!
A necessidade de um hino surge.
Astréia-Perséfone resolve a situação de empaque.
− Vamos usar a música do Paralamas do Sucesso, só mudamos a letra:

Tô segurando
Essa lanterna
Para os afogados
Sei que vou poder te salvar.

− Se é para pedir licença, a gente paga e usa a música toda:

Quando tá escuro
E ninguém te ouve
Quando chega a noite
E você pode chorar

Há uma luz no túnel dos desesperados
Há um cais de porto
Pra quem precisa chegar

Eu estou na lanterna dos afogados
Eu estou te esperando
Vê se não vai demorar

Uma noite longa
Pr'uma vida curta
Mas já não me importa
Basta poder te ajudar
E são tantas marcas
Que já fazem parte
Do que eu sou agora
Mais ainda sei me virar

Eu tô na lanterna dos afogados
Eu tô te esperando
Vê se não vai demorar

− As pias de água benta, de benzeção, devem resgatar a subjetividade. Por preferências, marcas indeléveis da individualidade, do eu soterrado dos fiéis: whiskey, vodka, cachaça e um licorzinho para arrematar.
− Bem, então as hóstias deverão ser de cocaína. – Berra André-Thor.
− E teremos confessionários privativos, onde os pecados serão dramatizados longe dos olhares críticos. Só na revivência poderão sentir o peso da injúria feita. – Profetiza Patrick-Osiris. – Cada um deve reviver sua droga de preferência. Penitência.
A cada risada os outros internos se aproximam. Novos companheiros já se abancam à mesa e logo são batizados com nomes para a nova vida.
A Igreja dos Filhos do Poder Superior cresce a galope. Dei-me conta da preponderância sobre o juízo que as drogas obtêm com facilidade. Elas seduzem. Qualquer caminho é rota de fuga do mundo que inverte valores e estarrece os mais sensíveis levando-os às rotas desenfreadas.
Ezequiel que a tudo assiste, aparentemente fechado em sua concha, isolado, grita:
− Panacas, vocês não estão criando nada! Não passam de crianças reproduzindo o que vêem. Irremediavelmente condicionados. Boiada de idiotas. Políticos, ladrões ou capachos: traficantes no poder das nações. A mentira maior do que a verdade e a manipulação é moeda corrente de livre trânsito.
Um suspiro tremente escapa de minha indignação:
− O quartel general está aqui dentro, mas o grosso da tropa está lá fora! O mundo está roto, a beleza enxovalhada e o ser humano virou ração para os bois gordos. Um trapo descartável.
Ezequiel se levanta:
− Fomos engolfados pela fraqueza. Entregamos nossas vidas de bandeja. Tentamos acertar errando. Tentamos sobreviver fugindo. Perdemos a guerra e nos tornamos presas fáceis, nos desumanizamos no imundo. Mergulhamos no mar estúpido da descartabilidade. Fomos invadidos, esquecemos de questionar e reivindicar o status de ser humano. Estúpidas e ruminantes vacas de presépio, onde na manjedoura vage a vulgarização dos sentidos. Em cada um de nós o mundo morre um pouco.
Silêncio total. Olhamo-nos perplexos. A consciência dói. É ferimento sem cura, estigma. O silêncio é uma mortalha.
A nova igreja aborta-se ao nascer. Jamais terá forças para driblar a igreja 666 que viceja pelos corredores do planeta.
Em vários cantos da Terra, em múltiplos idiomas, os crucificados elevam pensamentos enquanto são bombardeados pela mais mortífera artilharia que se tem notícia: a desesperança e a descrença que leva à desonra.
Alguém começa a cantar baixo, logo seguido por todos e o som aumenta, toma conta do espaço, das mentes:
“Vem, vamos embora
que esperar não é saber.
Quem sabe faz a hora
não espera acontecer.”

• De todos estes personagens reais apenas dois se mantém em recuperação. Alguns voltaram para a clínica, outros continuam absurdamente na ativa e algum está preso.
Os sobreviventes se engajaram em serviços beneficentes de auxílio aos dependentes na ativa e seus familiares. Os laços de irmandade jamais se desfizeram e embora distantes o contato é permanente e a felicidade partilhada a cada nova conquista de vida. Irmãos paridos na dor, irmãos unidos na recuperação.
Para sempre.

sábado, 22 de outubro de 2011

URUBUSERVANDO

Uma sensação vaga, imprecisa, urubu adivinhando carniça pelo cheiro. Eu senti.
Ele era alto, moreno, de grandes e estarrecidos olhos negros. O cheiro de carniça estava soterrado sob um excitante Mont Blanc que devia custar quase, ou mais, do que um salário da plebe.
Eu sobrevoava os campos primaveris de minha fácil vida. Gostava de encantar, mais precisamente de seduzir, sem saber dos riscos servidos nos canapés de caviar com que me lambuzava nessa promessa de retornos jamais vindos.
Quando cheguei à festa o aroma me alcançou nos olhares famintos de minhas amigas, no ti ti ti que rapidamente foi confirmado ao enxergá-lo. Era ele, tive certeza. Vinha montado no cavalo branco e eu esperava seu beijo fingindo adormecida. Não era fingimento.
Envolvê-lo foi fácil, eu tinha todos os ingredientes necessários da receita de princesa. Flores, bombons, mimos... Princesas são tão bobas! Ouvem uma única melodia tocada em cravo secular onde a letra, canto-chão, repete: Felizes para sempre... Felizes para sempre...
Assim que pousei sobre ele a carniça exalou. Acontecia nas brincadeiras do amor. Amor, rosa vermelha, cálice de vinho tinto... Cálice de vinho tinto... Cálice de vinho tinto... branco, uísque, vodka, caipirinha caipira de cachaça, cálice... cálice,,, cálice. Copos... copos... copos... “Pai, afaste de mim esse cálice, de vinho tinto de sangue”.
No princípio culpei o vizinho que fedia e todos sabíamos, depois meu nariz osfrésico. Pulei para o alerta, deixei rastros de perfume de todos os tipos: reportagens, livros, avisos. Efeitos dos perfumes daninhos. Meu príncipe amava o odor afrodisíaco, hipnotizante, acostumara-se e não via mais a diferença, ou se a via enamorara-se por ele para sempre, acostumara os sentidos e se encharcava cada vez mais. Amor antigo, bem mais antigo do que eu, a rival.
Por fim decidi que meu amor soberano o envolveria se eu o exercesse à exaustão. Desenvolvi aromas de carinho, entusiastas, chorosos, lamentosos, impediriam que ele se inebriasse do cheiro de desespero e infâmia.
Fomos deixando os duques e duquesas de lado, tinham começado a respirar fundo quando chegávamos, embora disfarçando, para logo em seguida passarem a usar máscaras protetoras descaradamente na cara.
O príncipe já era quase um sapo disforme e coaxava noites a dentro transformando meu sono de pós prazer numa vigília de temor constante, numa guerra ímpia e injusta como ouço no hino de minha terra. Não mostrava valor, constância nenhuma.
Eu tinha que desistir. O urubu em mim crocitava não. Dizia que carniça tinha lá seu encanto, seu prazer. Quem sabe encontraria vida sob as carnes sanguinolentas, embaixo da aparência pútrida das olheiras. Quem sabe eu...
Não, por mais que ele me mostrasse as delícias de aspirar o odor branco das nuvens eu não podia, não conseguiria me habituar a ele.
Urubus comem carne morta, mas não apreciam se transformar em pasto de seus iguais, exatamente para manterem a sua, linda e fresca, ingerem a repugnante refeição. Eu fazia isso? Era isso que eu era? E a princesa, o castelo, o cavalo branco? Onde?
Eu voava, planava sobre tudo, além das nuvens e não me vinha coragem de abandonar a paisagem ruandense de 1994. Era a isso que assemelhava minha visão: facões cortando corpos, sonhos, planos. Cortando e estripando meu príncipe.
Os amigos dele tomaram o lugar daqueles que escolhem melhor seus perfumes e eu planava sobre eles também, cada vez mais alto e durante mais tempo, era a maneira de acreditar horizontes.
O príncipe tomou banho, sentou-se todo príncipe branco com o perfume nas mãos, acreditei em renascimento como uma entrega ao santo da devoção. Havia incenso queimando. Orei a ele que era meu tudo, meu deus particular:
- É tão importante? Mais importante que eu que te amo tanto? Te dou minha vida e meu ar? – Não mais chorosa perguntei amassada, minha própria pele se desfazendo.
Ele jogou aquele olhar comprido e doloroso que sempre fisgava o perdão dentro de mim. Vi alguma coisa verde dentro dele, muito rápido e logo branqueou.
Ronaldo abaixou a cabeça extremamente concentrado, fechou suas cortinas estendendo-me meu aviso de demissão e cheirou a primeira das cinco carreiras enfileiradas como soldados mercenários.

AO MESTRE, COM CARINHO

“ Um conto é um corte na vida. O que houve antes, ou virá depois não importa. A vida seguirá, mas aquele segmento será a polarização imutável trazida pelo antes e deslizando para o depois. Estímulo e retorno. Apenas isso e isso é muito.
O conto é como a fotografia: um instante capturado. Um reflexo do ímpeto.
A novela como a pintura: leva tempo para se terminar o quadro, mas sempre será duas dimensões.
O romance como a escultura: olhamos de todos os ângulos e temos a figura completa. A quarta dimensão, pois ao físico e palpável é acrescentada a alma.”
Eu bebia as palavras de Jorge Medina há muito tempo, ou toda a vida. Eu caminhara pelo deserto da busca cega e quase já desesperançava quando o conheci. Até então escrever era um passatempo, um alívio das tensões. A forma como as palavras se agitariam ou se descansariam no papel não tinha significado algum até encontrá-lo.
“Para que este corte, esta foto, tenha significado é necessário um conflito, sem conflito não há conto. Podemos criar uma rosca de açúcar ou um espinheiro agudo. A densidade terá o tom que escolhermos. Um conflito denso agregará mais valores e mais emoção.”
Eu desenhava mulheres nuas em meu caderno de notas e via que os olhos de Jorge volta e meia espiavam. Percebia uma nesga de sorriso? Não sei, mas quando eu lia meus contos temáticos sim, ele ria. Baixava a cabeça. Fechava os olhos, era um auditivo, e ria. Às vezes abertamente e isso me deliciava.
Era inevitável desenhar furiosamente, eu era auditiva ativa, meus olhos precisavam estar distraídos, ou melhor, minhas irrequietas mãos, para que eu capta-se aquela fala mansa carregada de preciosidades que transformariam minha vida.

“Maria entrou no quarto cheia de culpa. Eu também era culpado.
(O ruído rápido e quase ininterrupto do teclado, era música aos ouvidos de Jorge Medina e as idéias quebravam as paredes do quarto pondo-o em vôo livre.)
Nem por um momento deixei de ver meu irmão entrando na igreja, os olhos prendendo as lágrimas. Era o dia de desposar Maria e mostrar seu troféu até que a morte os separasse. Aceitei ser padrinho e lá estava com a gravata me enforcando, minha cabeça girando em cima dos ombros, prestes a cair. O perfume da noiva me alcançava como se ela ainda estivesse em meus braços. Maria, deliciosa, suave, rosada, agitada, urgente na chorosa e lamurienta despedida da véspera.
(Jorge bateu o cigarro e abanou a fumaça quase palpável. Ficaria bom, este conto ficaria bom, pensou com o velho sentimento de dominar o mundo, as pessoas, através das palavras.)

Na primeira aula mandou que nos apresentasse como se fôssemos nosso colega da frente. Algum tempo depois entendi que estava reconhecendo nosso feeling. Para compor um personagem precisamos aprender a captar as pessoas à nossa volta, isso não significa inventar o que nos der na cabeça. É preciso manter a coerência mesmo que incoerente do personagem, seu perfil, seus pensamentos íntimos que não serão descritos, mas percebidos através de seus atos.
Adequar a linguagem aos acontecimentos.
Ação? Escreva numa linguagem rápida, quase sem tempo do leitor respirar, mas não o sufoque.
Dor? Use palavras trágicas, que chorem nas letras. Observe o som das vogais, seu crescente, também falam, ou desmaiam no decrescente.
Saudade? Estique as palavras, deixe que elas relembrem os momentos que se foram.
Ler onde não está escrito. O segredo do conto: o subliminar, magistralmente atingido por Machado de Assis, na Missa do Galo. Perseguido quase sangrentamente por todos os outros, estrela de difícil encontro.

“Maria encontrara meu irmão Osório como uma luz, uma salvação, natural que se encantasse e visse nele possibilidades de amor. Acho mesmo que o amava sinceramente. Afinal o amor é correspondência e preenchimento de necessidades, apesar de deliciarmo-nos enfeitando-o com a aura que sobrou do romantismo.
O que ela não contava era com a paixão, a louca, súbita e irreverente paixão. Como gostamos de nos apaixonar! Vemos apenas a paixão. Enganamo-nos dizendo que é um rosto, um olhar... Não é nada disso, é uma emoção sedutora tique taqueando dentro de nós, acelerando o sangue, tirando o sono, tornando-nos escravos de um tilintar de voz.
Maria respirava paixão e tentava se livrar desta droga casando-se com Osório por amor plácido e rotineiro. Nada de frenesi. Dia de primavera sem o calor cáustico e excitante do verão.
Não podemos impedir o céu de chover, a noite de chegar, a planta de florescer, mesmo que isso, momentaneamente faça o sol adormecer, o dia descansar, a planta fenecer. Maria descobriria em meus braços.
Eu voltara para o casamento de meu meio irmão tão diferente de mim: calmo, de passos certos, colocando tijolo a tijolo as paredes de sua vida. Eu fora agraciado com um mestrado em Lisboa e, mesmo sem deixar de lado a importância de meu objetivo, resolvi que era uma oportunidade imperdível para virar do avesso a velha Europa. Livre de pai, mãe, casa, meias lavadas...
Entrei fundo nas tascas portuguesas onde aprendi a gostar de cerveja importada, terminar de quebrar minhas grades e rir com sonoridade retumbante. Retumbante era o que guardava de minha terra deitada em leito que eu renegava.
Sentávamo-nos descabelados e aéreos nos bares de Lisboa a debochar da cidade florida. Jovens insustentos a falar do que imaginávamos saber. A mesada, sempre escassa, chegando de todos os cantos do mundo para que pudéssemos divagar nas nuvens de nossos baseados, encontrando profundidade nas vidas de nossos escritores favoritos.
Citávamos Pessoa como se ele estivesse a sustentar Mário de Sá Carneiro na mesa ao lado e a sentíamos paixão pelos corpos que Miguel Esteves Cardoso possuiu.
Lá assim era e eu aprendera a ser inconsequente, estrangeiro tudo pode.
Tanta diferença entre eu e Osório devia-se ao fato termos de mães diferentes. A minha era uma jovem senhora de bem com a vida e a dele, uma chata, presa no ante ontem. Nesta escolha a minha ganhou meu pai que se tornou um cara menos sisudo e mais disposto a tomar um pilequinho nos churrascos familiares. Quem saiu perdendo ou ganhando? Não tenho a menor idéia, o fato é que éramos diferentes, cada um ganhou e perdeu um pouco. Infelizmente os dois ganharam Maria.”
- Não posso me esquecer da verossimilhança amanhã, na aula, devo reforçar este aspecto importante dos personagens. Se os alunos listarem todas as características, começando pelas físicas e terminando nas psíquicas, entenderão melhor.
A economia de palavras. Quantas já apaguei! Economia, limpeza: chô quês sujos e repetitivos, chô pronomes desnecessários, chô linguagem poética numa prosa. A menos que se deseje falar de flor, passarinho e borboleta. Eu quero isso? Preciso ter certeza dessa resposta.

- As qualidades físicas devem retratar as psíquicas.
Anotei a informação e criei mil personagens diferentes a partir daí. Antes de dormir os nomeava, via seus movimentos nos sonhos e meus cadernos se encheram de desenhos com fisionomias feitas a facão, mas expressando sentimentos cortantes.
Estou louca ou Jorge Medina me olha mais do que aos outros?
- Vamos imaginar dois personagens. Nossos personagens. Paulo e Márcia. Listem ações que se desenrolarão para um e para outro. Listem os verbos determinantes dessas ações, as dele e as dela, vejam a convergência. Não permitam que idéias se atravessem, mantenham o foco!
Como gostaria de ser estenógrafa! Não perder nem a respiração entre as palavras. Se eu seguisse à risca seria uma boa escritora? Nem me atrevia a pensar em romance.
- O conto é o gênero mais complexo de todos, não há espaço para vacilo, minúcias, palavras que não sejam absolutamente necessárias.
Mudei de idéia sobre tudo.

“Não foi intencional. Ela saía do banho e eu entrava. Meio nua? Não vi nada, só os olhos flamejantes que me examinaram. Ainda não tínhamos nos encontrado, embora minha vinda estivesse anunciada. Estava nos preparativos da cerimônia quando joguei as malas no quarto de hóspedes, furioso. Tinham dado o meu, o meu, para aquelazinha que aportara de pára-quedas na minha casa.
Dois pontos, luz azul, arco voltaico: Maria e eu.
Depois aquela coisa besta de apresentação, jantar incômodo das pernas se tocando por acidente e os olhos irrequietos e prometedores. Eu a despia junto com a pele dos tomates, a comia no filé à parmegiana e lambia na sobremesa de sorvete.
Foi simples e sem culpa. Uma noite, que mal faria? Depois... Impossível para sempre. Não era o recado que meu corpo passava durante a marcha nupcial féretra.”

No dia seguinte a aula foi sobre neologismos. A capacidade de criar palavras, a sagacidade de colocá-las no texto e a profunda coragem de fazê-lo.
“O mestre neste campo minado foi João Guimarães Rosa. Levou suas obras ao instigante mundo, onde recria a língua e faz com que os leitores tentem decifrar a todo momento os seus “achados” semântico, morfológico, e, até mesmo, sintático ou morfossintático, como se a literatura não fosse apenas algo sério, mas também algo criativo, artístico e misterioso.
E a literatura não é mesmo algo sério, é brincadeira do intelecto, liberdade de sentir, recriar a vida numa performance que nos deixe de queixo caído.”
Féretra mereceu a aula.

“Entrei na cozinha cantarolando, sou da paz de manhã, gosto do sol, ele esteja no céu ou não. Sabia que a lua-de-mel tinha sido adiada pelas cinzas do vulcão chileno que teimava em colocar uma sensação de fim-de-mundo. Apocalipse day.
Teria que parecer como sempre e fazer de conta que não tivera ouvidos de cão para captar ruídos que desejava meus e de Maria. O desgraçado quarto de hóspedes era no sótão e eu não ouvia nada naquela casa antiga de paredes camufladora dos segredos de alcova.
Fiquei mudo. Pavor.
Estavam os quatro na cozinha. Meus pais com as pistolas tremendo nas mãos, apontando-me. A de minha mãe, com belo cabo de madrepérola, teimando em mirar o chão. Meu pai segurando com as duas mãos para esconder o tremor e Osório direto nos meio de meus olhos. O tiro seria imbatível.
Maria chorava balançando o corpo e a cara marcada por hematomas se ergueu ao meu bom dia fingido.”

Jorge escrevia tramas tempestuosas e paixões escaldantes. Era a densidade, dizia ele, enquanto eu o copiava e punha ainda mais ardência. Excitaria sua curiosidade ao ponto de ebulição que a minha estava? Seus livros eram ambrosia que me açucarava.
Paixão, aquela mesma que Orlando sentira por Maria. Eu não queria amor algum! Queria Jorge e suas palavras mágicas. Queria pulsar como os personagens. Eu: Ana Karenina, Lady Godiva, Madame Bovari. É querer muito? É só literatura, me convencia.
Jorge escrevendo, Jorge falando, Jorge lendo, Jorge beijando, Jorge me chamando, Jorge, Orlando... Orlando, Jorge...

“Maria, a Louca. Pela Graça de Deus, Rainha de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhora da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, etc.
Pela Graça de Deus, Rainha do Reino Unido de Portugal, Brasil e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhora da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, etc.
Nada disso! Pela graça de uma trepada sensacional, a maluca resolveu não fazer amor com o marido na noite de núpcias e, ainda por cima, apontou com todas as letras o infrator.”

Os temas, as formas, a linguagem... Aula a aula compondo a trama do que viria a ser eu.
“Sobre o tapete, ou duro piso, a gente
compõe de corpo a corpo a úmida trama.”
Drummond saberia que isto também é amor? Que pode haver paixão entre o escritor e a escrita? Que posso ter mil Jorges, ser bígama, fiel, santa e puta?
Hoje, na frente do teclado onde as palavras aparentemente surgem sem uma nesga sequer de meu mestre, eu o relembro e devo a ele mais um livro editado e a entrevista que me espera para falar sobre o conto. O conto que foi o fruto deste amor incondicional.

Final aberto? Final fechado?
Qual se adéqua mais ao tema proposto?
Vamos deixar assim, ainda não parei de escrever...

Vana Comissoli

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

ARMADILHA

A discussão estava acirrada. As palavras se batiam e contorciam no ar como bolas de aço: um estrondo. Só não havia tapas na cara por consciente respeito às idéias alheias, mas a vontade era de ser um pouco mais autêntico e estraçalhar alguns sorrisos mofados.
Gabriela, sarcástica e ferina, bombardeava a paixão, o encontro sem sentido de corpos. O sexo pelo sexo. Coisa de animal, dizia com convicção. Defendia suas filosofias com unhas e dentes, se baseavam em longas leituras e mais longas meditações. Arranhava quando a contradiziam.
- Paixão causa dor, enlouquecemos, perdemos os parâmetros, não enxergamos a pessoa que a catalisa, na verdade ela se torna um meio e não um fim. Não é importante, embora nos pareça a pessoa mais importante do mundo, única e insubstituível. Por breve tempo, o tempo necessário de provarmos que a conquistamos, um souvenir na viagem dos sentidos.
Relacionar-se é muito mais profundo do que o breve mergulho na sensação. Sou racional, madura, posicionada. Não me apaixono, escolho. Recuso-me a ser um pedaço de carne pendurado no açougue.
Cícero colocou sobre a mesa, como sobremesa esperada, seu sorriso de escárnio. Há muito que desejava essa mulher, talvez por se tão teimosa e se valer, era excitante e o deixava ouriçado.
Ela empurrou o sorriso até que se estatelasse no chão.
- Não seja ridículo! Nem tenta dizer que sou sapatão. Se fosse não teria pejo algum em mostrar, mas que não me deito com qualquer enxovalhado que apareça, não me deito. Me respeito e não estou nem aí para o que possas pensar. Tu não passas de um saco de porra.
Talvez ela tivesse razão. Lembrou rápida e vagamente das tantas mulheres que tivera, tão efêmeras quando um aguaceiro de verão. Uma ou outra permaneceram em sua vida até se mostrarem diferentes do menu apresentado: nada de filé mignon, feijão com arroz insosso. Teria começado de forma errada? Se tivesse dado tempo será que...
Não houve tempo, talvez um breve latejar. Logo as vozes se perderam para o lado. Os dois fingiam discordar dizendo as mesmas coisas. A língua portuguesa possui desvãos que permitem se dizer a mesma coisa de ene maneiras. A verdade rondando sub-reptícia, pincelando de verde o que é amarelo e azul.
Ele estava encolhido, logo saberia que era uma boa estratégia embora tivesse começado espontaneamente, se sentira pequeno e retirava seu time de campo com delicadeza para não passar vergonha. Não via hora de se livrar dela que metralhava seu sexo físico e espiritual. Era uma intelectual chata e prepotente, carimbara assim dentro dele e quem quer saber de mulher metida a ter idéias? Se quer é uma boa mulher de cama. Parece que Gabriela tinha alguma razão. Ou todas?
- ... claro achas que estás diante de uma mulher frígida que cheira a absorvente higiênico, limpa e branca como uma propaganda deles. Morro de rir! O que és? Uma criança? Um éfebo?
Ele não coçaria a cabeça com ar de dúvida de forma alguma. Saco! Não podia falar mais fácil? Agora teria que fazer de conta o entendimento que não veio. Disfarçou, chamou o garçom, pediu outro chope, melhor sair cambaleando do que entregar os pontos. Era uma bruxa, a bandida.
-É antropológico. – arriscou na esperança de falar bonito.
Ela concordou e acrescentou que sim, era uma questão cultural, podia ser mudado se as mulheres não se preocupassem tanto com o batom e mais com a cabeça. Cabelos são bonitos e sedutores, mas cansam se não têm nada sob ele.
Cícero imaginou que se ela fosse nadadora, seria uma campeã, tinha um fôlego dos demônios. Não sabia por que ficava ali sentado, grudado nas palavras e quase não ouvindo nada. O perfume talvez? Qual seria? Um aroma exótico, vermelho. Uma sensualidade que o atava e fazia a vontade escorregar. Um jogo que o prendia sem esperar o final desejado ou já sabendo de antemão qual seria?
Ela jogou a carta sobre a mesa, sem aviso, quase bateu na cara dele. Segurou forte, tinha acabado de afirmar que mulheres cultas não têm tempo para sexo infantil, pensam demais e estão acima de tudo. A risada dela foi um ás de ouros:
- Cuidado, podes te enganar...
Foi a deixa para o assunto virar de ponta cabeça, rodopiar sobre si mesmo e se deitar nos olhares e nas pernas que se tocaram. Cícero sentiu os pelos dos braços levantarem como leões e bater em seu sexo igual sino de igreja avisando incêndio. Calma, sugeriu a si mesmo e arrastou a cadeira mudando as posições dos amigos, obrigando todos a um “chega prá lá”
Os olhos de Gabriela se divertiam, tinha fisgado um bobo e gostava desse brinquedo. Todo caçador um dia caça é.
Ele foi sinuoso, cobra mandada. Então quer dizer que também pensas em sexo? E como é? Precisa pedir com licença? Chegar de fraque?
Ela o puxou pela gola da camisa e passou a mão em seu peito, sussurrou ao ouvido: Gosto assim. Sentiu os mamilos enijecidos.
- Vou te beijar aqui, na frente de todo mundo. Um beijo longo e molhado, farei com que caias no chão.
Risada escarlate, já tinha lido isso em algum lugar, frase mais idiota, mas riu assim mesmo, já esquecida de Cortázar, Saramago e todos seus outros amantes que não podiam lhe passar a mão áspera. O riso terminou dentro da boca de Cícero. Quanto tempo? O suficiente para os amigos baterem palmas e cansarem de bater.
Algum disfarce ainda foi tentado, bolhas de sabão estourando no ar. Estavam presos aos olhos um do outro, às mãos, agora impacientes, e ao centro do corpo que latejava esquecendo o vernáculo, as palavras são tão simples no sexo! Ai! Vai! Fui! Hã! Precisa mais? Palavras mais sábias, descritivas e empolgantes não há.
Ele reafirmou sua masculinidade trazendo a mão de Gabriela sobre seu membro rijo, exigente. Esqueceu as diferenças, se impôs macho que era. A erudição liquefeita no espasmo do prazer cavalgando as torções dos corpos que procuravam abrigo.
Ele levantou puxando-a para um canto retirado. Todo mundo fez de conta que não entendeu, nem viu nada. O garçom ficou feliz com a gorjeta gorda e virou escudo.
Cícero viajava uma aventura em camelo, inusitada e desértica de experiência.
Cenas de sexo... Serão mesmo sempre as mesmas? Ou tem cheiro de novidade a cada vez? Perdi a racionalidade... Últimos pensamentos de Gabriela.
Agarrou-se ao homem, louca de fome e sede e ele não se negou a ser vinho e pão.
Vira e ela sentiu o corpo vibrando, o impossível acontecendo num chão de bar, na sem vergonhice da paz do sexo.
Dedos que destrincham caminhos, se tornam únicos e para sempre a primeira vez.
O bar falava alto para encobrir o que não deve ser partilhado em palco, mas vivido no escuso da coxia. O entusiasmo quebrando as barreiras e a liberdade abrindo suas divinas asas num pedido de entra, vai, vem, deixa, aqui, gosto, gozo, ai, juntos, mais. Descanso.
Uma conversa ao pé do ouvido lambido, penetração auditiva e o corpo dizendo que estava pronto, vamos, vem comigo, de que jeito? Na boca, nos seios, o sêmen, creme hidratante. O domínio. De quem sobre quem? Entrega, doação, margem, rio sem fundo, poço, mergulhos, retorno, onda, espasmo. Navegamos.
Afinal estão prontos. Gabriela puxa as palavras, as filosofias, se veste com elas e beija a boca que a pouco a desnudou de tudo. Ele se certifica que mulheres inteligentes têm vida no meio das pernas.
Encontro, pensa Cícero.
Armadilha, ela sussurra.

sábado, 18 de junho de 2011

AGONIA

Ela estava completamente nua e branca à sua frente. Sem olhos, sem fala, sem convite para nenhum dos sentidos. Parecia que não tinha alma, nem sabor. Era o momento da agonia de Pedro Navarra.
Talvez se desenhasse hieróglifos houvesse alguma coisa a rotar na brancura sem frestas que fechava todas as possibilidades. Acontece que não era escritor, nem sequer esculpia e muito menos filmava. Era pintor.
A palheta ao lado dormitava tédio. Os pincéis desanimados sobravam todos inertes. De novo Pedro espremeu idéias, a cabeça tão branca quanto a tela à sua frente. Miséria - pensou miseravelmente condoído de si mesmo - pintor tem que pintar todos os dias. As idéias devem fervilhar como chaleira em ebulição, não faz mal que queime, o importante é cozinhar e não em banho-maria.
Ficou parado, a fome se esqueceu dele, os cigarros não, muito menos o vinho que dançava um tinto rock frenético. A inspiração escondida embaixo do sofá, ou queimando na lareira apagada dos pensamentos.
Olhou pelas janelas, o rio andava no passo moroso tão conhecido. Ele partia de si mesmo:
“Adeus, meu amor
Eu vou partir
e já estou saudades a sentir.”
Quem inventou esta bosta de letra para “Tristesse” de Chopin? Que merda! Não sou Chopin e nem sei diferenciar o dó do lá. Só tenho “lá” no fundo um “dó” danado de mim. Esculhambei tudo, perdi a musa, virei a mesa, rasguei a carta, risquei o nome!
Olhou a tela vestida de fantasma, só faltavam as correntes, nem essas ele conseguia enxergar. Talvez se a enchesse de correntes enosadas em si mesmas poderia sair alguma coisa. Bebeu outro copo de vinho como se toma água, a vertigem entrou no sangue, tremeu as bases, viajou na maionese.
A tela inchou, se contorceu, foi nascendo... Nasceu escultura. Monstro marinho de sete cabeças, enroscado e enroscando as pernas, os braço, pescoço, grito preso, socorro desmaiado.
Logo a peça uniu barro sobre barro e 20 000 léguas submarinas surgiram absurdamente possíveis quando tal mergulho é impossível quimera. Foi um festim de formas que nasciam e renasciam sem parar, criaram um Mágico de Oz voluptuoso e incansável, atravessando versos onde verso não tinha. Cala-te Gyl Ferrys, quem te chamou aqui? E o homem sofrendo seus poemas como se fosse Pedro o inspirador, soando na cabeça, fazendo revelações irreveláveis.

“Esse ser mecânico que sou,
Movido a paixão e de amor,
Anda enlaçado pelos punhos,
Desde o início do mês Junho,
Atado a uma penosa solidão...

Homem-de-lata-robô eu sou.
Ando à procura de um coração...

Atirou-se sobre a tela pronto a desmascará-la. Feito nulo, desejo esvoaçante. Ela voou sobre ele, prendeu-se no teto, encolheu o chão. Virou filme do avesso e era Benjamin Button, com sua cara sem tirar nem por, que saltou velho e permanentemente velho, a juventude sem chegar nem mesmo ao contrário. Canto chão: filme agora não. Agora não.
Quem ouve gemidos, batidos de vento, soando orvalho, se desfazendo lá dentro?
Dom Quixote de unha quebrada, cabeleira esvoaçando, descuidado tambor. Logo outro qualquer voltando ao futuro ou de onde quiser, que futuro não há em verso sem rima, vomitado e não parido como se nascer da boca fosse possível em uma sina.
Jogou-se no ar, pegou fios, machucou as mãos, arrebentou telas, todas já pintadas, o grande arista, pelo chão espalhadas. Coloridíssimas, espirrando tinta. Obras pollockianas com redes de linhas coloridos entrelaçados, transparências desviando a atenção para o fundo do quadro. Não podia ver o fundo do fundo, agora podia e não queria, feia cena de gritos e murros.
Monstros criados pelo viés da imaginação o levavam às profundezas desalmadas. Caiu mosca na sopa, entupiu o ralo, a azeitona da empada fez revoada no estômago, olhou para o lado e viu que a tela só falaria com ele se usasse palavras.
Amargou direto, buscou a forma, duas dimensões contidas, abriu a porta, soou sino, bateu na lata, criou tino que se perdeu na escada.
Dormiu no chão, sonhou cavalos montando ventos, cortou as asas, virou galo, quebrou a crista, ficou banguela, sofreu as dores, perdeu os amores, conchinhas emborcadas de nada, ficou absurdo, surtou maluco, saiu da fossa, respirou fundo.
Virou escritor.

domingo, 12 de junho de 2011

Alice... Quem foi que disse?


Alice não era do tipo que aparece, marca presença, pelo contrário, passava despercebida, ausente estando ali o tempo todo. Treino para quando virasse fantasma, ninguém vê, nem ouve, mas está ali. As pessoas comentando, fazendo de conta que ela não escutaria. Só ela sabia que escutava numa considerável distância, uma linguagem bem pouco conhecida e sem significado.
“Como a Alice é boazinha!”, “A Alice é um doce de pessoa”. Pontualmente a velha arrematava: “E é muito prendada.” Essa era a parte mais irritante. Ficava imaginando se dissessem: “A Alice é uma boba, dá palpite até no que não sabe”. A velha diria: “É, mas muito prendada”. Sabe-se lá por que ela fazia uma associação dos infernos, prendada era prenda atada. Ela era uma prenda atada a não sabia o que. Melhor treinar para fantasma. Distanciava-se do mundo brilhante demais, barulhento demais, incompreensível demais.
Será que fantasma, espírito, ou coisa que o valha também ouviria comentários? Os espíritas diziam que sim, mas não importava, ela via fantasmas de vez em quando, assustavam, se acostumou aos poucos, agora passavam e só. Luzes, brilhos, sons.
O que diriam dela? Uma folha morta? Um cogumelo de pernas? Se fosse surda em vida, talvez fosse surda depois da morte também, pelo menos não ouviria comentários nem que era muito prendada. Quais seriam as prendas de um fantasma? Teceria teias voláteis como os pensamentos? Vestidos de gaze tecidos com o orvalho da manhã que viram sonho ao sol? Essas elucubrações não preocupavam Alice, nem as tinha, mas enchiam de dúvidas a cabeça da mãe dela.
Vieram as férias, sabia que eram férias por que entraram no carro e andaram... Andaram... Não chegava nunca e é desassossegado ficar tanto tempo sentada sem uma linha nas mãos, sem espaço. As estradas são barulhentas e desconhecidas, um medo alucinado tomava conta dela obrigando-a a gritar, espernear a ponto de sua mãe prendê-la no banco, ou ampará-la no colo até que dormisse. Chegaram, após muitos cafés e pastéis. Essa era parte boa, ninguém tirava a comida de sua mão, podia brincar com ela jogando no chão e voltar a pegá-la engolindo sofregamente. A mãe olhava para o lado e fazia de conta que não via nada. Ficava mais complicado entender razões, no momento era bom.
Teve certeza que eram férias embora não entendesse o que deixava os pais tão sorridentes se tudo era igual, pelo menos para ela, nem sabia bem o que eram férias, coisa aérea e que não se pode tocar, nem por na boca. As linhas não muito coloridas estariam ao alcance da mão e podia, como sempre, fazer longas e frouxas tranças com elas. Depois a mãe inventava usos secundários como por na cintura ou prender os cabelos. Era quando a velha espiava e dizia: Como Alice é prendada! Não era bom vê-la revirando os olhos enquanto falava, podiam saltar e fugir chão a fora até trombarem com a porta..
Respirou fundo por que o cheiro do ar vinha volitando sal, gostava desse odor ardido embora no início machucasse um pouco. Olhou a casa abrindo primeiro um olho e depois o outro, não dava para fazer tanta coisa de uma só vez, amedrontava. A casa onde estacionaram tinha porta de sorriso e janelas tremendo, o portão grunhia, outro fantasma a enfrentar, até que se acostumasse.
Não saiu no dia seguinte, não podia e não esperavam isso dela. Tudo tem que ser aos poucos, a caixa de Pandora, se aberta abruptamente solta perigosos monstros, mas tem fadas e duendes se nos acostumarmos às frestas. Ela se acostuma aos poucos com tudo, na estrada se anda passo a passo.
Foram à praia, o mar é aquele engolidor terrível que ruge até na calmaria, o pai deu a mão e, lentamente foi aprendendo que não seria engolida de supetão. Cuidado, um pé, depois o outro e o mar se acalma, embala, refresca os temores.
Começou a sair sozinha, as férias criaram essa qualidade, podia ir para onde quisesse e não a barravam, foi assim...
O rapazinho estava sentado navegando o mar com os olhos. Não mexia nem um dedo, por isso Alice não teve medo, ia caminhando sem pressa e tiquetaqueou vontade de compartilhar a silenciosa espera dele. Esperaria a coragem chegar como ela esperava ou estava se acostumando com o mar? Não tinha respostas por não ter perguntas. Tampouco sabia se podia sentar ao lado dele ajudando na espera, então sentou. O rapazinho não se incomodou, não disse o nome, nem perguntou nada, a velha estava longe, sem observações sobre como Alice era prendada. Provavelmente o jovem não se encantaria com isso, tornou-o mais próximo.
Ia todas as tardes sentar-se ao lado dele, na convivência calada de navegar o mar, acostumar-se com a imensidão do céu, sabiam as mesmas coisas e por isso as palavras eram confetes desnecessários. No silêncio não há medo, o sorriso do rapaz dava certeza de que ele também sabia disso. Com ele aprendeu a defender-se do sol: a mão em aba olhando as águas sem que o movimento a perturbasse.
Nunca estivera tão confortavelmente próxima de alguém, alguma parte adormecida de sua alma acordou e ela balbuciou a primeira palavra. Já ouvira tantas vezes, mas ninguém entenderia se tentasse dizê-la: mar. Todas as formas muito grandes passaram a ser mar. Ninguém compreendeu de onde saíra, mas aprenderam que era enorme. O que parecia grande diminuiu e seu mundo se ampliou com isso.
Logo aprendeu outras coisas no silêncio tão fácil de se aprender. Um estranho prazer no peito que fazia sorrir. O rapazinho sorria e ela também. Segredos foram ditos alheios de sons. O primeiro amor desabrochou na areia desenhada pelas águas em ondas suaves.
No recôndito do peito, sem que nem por que uma vez desnecessário, bateu emoção que cavalgou sentimento. Os dias se tornaram um só sentada ao lado daquele que tomara o espaço de todos em sua vida. Quando o sol procurava casaco para a brisa da noite não se acomodar nos ombros, ela se despedia gentilmente: mar e ia embora navegando por dentro na grande descoberta.
Chegou à casa e assustou-se com os barulhos e movimentos, mexiam em tudo, trouxeram para o meio da sala as mesmas caixas de guardar que antes tinham desguardado. No dia seguinte, entre fúria e arrastos embarcaram no carro. Andaram... Andaram. Desta vez os pastéis não aliviaram a cansativa e desnorteante prisão, de alguma forma sabia que o menino não se afastaria do mar para segui-la. Como poderia encontrá-lo depois que o caminho do mar se tornasse desconhecido?
Esperou nos dias, sonhou nas noites, mas ele não veio lhe dizer que esperava pelo encontro. Se esquece tudo, Alice também esqueceu. Novamente houve aquela quebra na calmaria conhecida e novamente, roupas e tralhas foram escondidas nas malas. Novamente veio a estrada longa, cheia de pastéis. Deu-se conta que iam ao mar, ficou quieta, esperou. Voltaria ao encontro marcado de todos os dias, nem sequer titubeou na dúvida que ele não estaria sentado a navegar o mar. Era o destino do rapaz e ninguém foge ao seu destino.
Não esperou por nada, fugiu com força da mão que a segurava, correu para a praia, seu pensamente não se esquecer do lugar e nem de como chegar. Lá estava ele sorrindo, navegando sem barco, sonhando estrelas, a mão resguardando os olhos da luz e do rocio. Tem momentos que cumprimentos se tornam vazios de sentido, sabemos que não houve ausência, apenas saudade.
Queria ficar ali, sentada ao lado do rapaz, cuidando que a água não os levasse para aquele ponto onde tudo deixa de ser visto. Teve coragem mar e passou o braço pelas costas dele que não se furtou. A decisão foi tomada sem pensar sobre ela, pensamento não existem quando a gente quer de verdade. Como faria para permanecer também não se questionou, ficaria e era assim.
Os pais se preocuparam, foi um corre-corre e vizinhos ajudando. Caíra a noite e Alice com seu medo do escuro não aparecia. Espanto, grave preocupação. Foi Gabriel, o velho pescador que conhecia aquelas paragens desde garoto que encontrou. Como contar? Melhor no ligeirão antes das lágrimas fazerem rios na sua cara.
- Ela está lá... Fria e sorrindo, abraçada na estátua do menino do mar.

domingo, 29 de maio de 2011

RESVALANDO NAS PONTES




Saiu do buraco de cobras pintassilgando a terra de vermelho. Um vermelho velho e escuro igual aos buracos da saudade que marcavam seus braços gangrenados. Já gritara tanto por socorro que agora demorava a fazer eco dentro do coração que nem gemeu quando viu a luz do lá fora. Era pardacenta e tênue, mais uma teia de aranha que rompe fácil na ponta dos dedos, qualquer ai desfaria tudo e novo buraco com as cobras lúgubres de estranhos e sarcásticos risos se abriria à sua frente. Não haveria ponte que pudesse atravessar. Bastava cair e uma garganta famélica o engoliria sem opção de vomitar, quando muito o regurgitaria para voltar a mastigar no furor da fome insaciável.
Andava na ponta dos pés dos sentimentos atrevidos e permanentes, a ingenuidade ou esperteza demais, o faziam não calar os arroubos, mais e mais, assim permanecia vivo. Fingia aqui e ali que era normal apesar de acordar quando a tarde ia a meio. Fazia de conta que trabalhava enquanto emails desesperados eram enviados de todas as partes do mundo circular onde andava pedindo dinheiro que acabara anteontem. Urgência de tudo e incompreensão de todos. Como alguém poderia entender a alma que buscava amplos campos chafurdando em atoleiros pegajosos, infinitamente cinzentos? De vez em quando uma luz, fogo fátuo a morrer logo ali.
Julgava que caminhava andando em círculos concêntricos cada vez mais apertados, como anda o cachorro atrás do rabo, parte deliciosa de si mesmo. As agulhas poderosas poderiam tirá-lo deste andar cuidadoso onde o medo acompanhava a gargalhada que deveria ser baixa e controlada para pensarem que ria de uma piada vulgar e não da notória falsidade que trazia no bolso. “Você acreditou no que eu disse? É bom, nunca se deve acreditar num homem que não mente”. E ia assim mentindo de grão em grão para encher o próprio papo, o olhar crente do outro a fazê-lo acreditar que era de verdade e não feito de confete e batom que manchavam a camisa e outros escorriam mofados na chuva ácida de suas lágrimas que pensava não existirem mais.
Estava na paz. O fio da navalha de seus sapatos não o incomodava tanto e enchia a boca de comprimidos que engasgavam, mas desciam arranhando a garganta, manietando os buracos cheios de agulhas espetando seu sangue. A crueza era assim mesmo, podia jurar que se sentia bem e lentamente os furos nos braços só deixavam manchas escuras que se pode esconder. Marca indelével do passado que não passa nunca.
Fazia grandes programações onde até caminhadas matinais existiam, sabendo que não existiriam nunca. As saídas noturnas estavam dentro do baú que não abriria. Aqui fora era atravancado e estrategicamente contornado, indo pelos canteiros de flores em vez de caminhar entre o mato que se acumulava nas bordas. Lá dentro acoitavam os insetos gigantes com cabeças humanas espreitando nas esquinas para levá-lo prisioneiro eterno dos buracos fatais.
Ia cobrejando a esmo sem definir o caminho, se mimetizando conforme o interlocutor. Alguns tinham cores surpreendentemente belas e outros, apesar do ouro fosco e por isso mesmo, o encantavam ainda mais. Estava sempre há alguns centímetros do abismo onde os sentimentos seduziam e perdia-se neles num contato atroado, os momentos sem eles se tornavam vazios e descoloridos. Ficava um sapo sem príncipe dentro, coaxar não era seu forte e arrancou o piercing da língua para ver se aprendia, um frio na espinha correu e puxou num safanão para enxergar o sangue que o seduzia ao infinito. Imediatamente viu seus parceiros de cama com os braços lacerados pelas lâminas que produziam os riscos vermelhos que levavam a gritos de orgasmo inigualável.
Cada um é o que é, pensava em momentos de lucidez, se aceitando tal qual era: Um estorvo permanente a si mesmo e não tinha coragem de matar. Deste jeito fugia das noites de becos e ruelas, de festas selvagens cheias de suores e fantasias seminuas por onde andara, lhe dando cada vez mais a sensação que não estava em lugar algum.
Em torno os olhares eram de alívio, embora sempre atentos aos seus gestos como se escravo fosse da vontade dos demais. Era uma estupidez satisfazer aos outros, mas tinham lhe dito que seria o paraíso viver em paz das alfinetadas da mente. Pelo menos para provar que estavam todos errados, se impôs experimentar este novo tipo de tortura, tão acostumado a elas que não deveria ser muito diferente e uma pela outra quem sabe pudesse dormir.
Foi quando o menino desprevenido e puro apareceu vestido de comum lugar virtual. Vinha com aquele sorriso que só se encontra nas crianças bem nascidas de saúde mental, acarinhadas por outra coisa que não a febre que seu pai lhe ofertou numa noite de loucura branca em forma de pó enfileirado.
Poderia se apaixonar por esta visão. Se esforçou bastante, conseguindo afinal encher todos os minutos com ela até que a ansiedade voltou a entupir suas veias de adrenalinemia, deixando-o de sorriso espetado com olhos de segundeiro de relógio.
O menino estava tão distante! Precisava superar várias dificuldades para enraizar este encontro útil e derradeiro em sua vida até então mesquinha, mas daqui para frente gloriosa. Era o que seus instintos metafísicos diziam em cochichados altos brados. O desgraçado do mundo muito caro de atravessar, alguma coisa milagrosa precisava acontecer e o tarô lhe dizia que sim, afinal o definitivo tinha chegado.
Tornou-se urgente e suplicativo aos ouvidos possíveis de levá-lo para tão longe num passe de mágica de cartão de crédito. A interdição imposta por seus atos enlouquecidos o tinha deixado incomensuravelmente longe de qualquer bandeira endinheirada de caixa eletrônico. Foi assim que os dias retornaram ao inferno do “me dá e quero”, derrubando até a muralha da China. Como esta muralha era feita de vime frouxo de mãe quase tão quanto, pronta para ser derrubada por lobo vagabundo. Logo conseguiu seu intento, mas o miserável cartão estava num fundo sem fundo algum e nova peleja se impôs sem solução a menos que...
Remorso e olhar o passado não são coisas que toque a vida para frente, quem quer se estraçalhar faz isso de qualquer maneira, com a ajuda dele ou sem. Tinha sido assim com ele por que outros também não poderiam enfrentar a onça com vara curtíssima? Se há dor, isso não significava nada diante do arsenal bélico do aprendizado. Era por uma causa acima de todas as causas, conforme uma estrela cadente lhe tinha falado sobre este amor que redimia, afinal ali, a um vôo. Precisava alguém ou alguma coisa ser sacrificada, como os sacrifícios eram oferecidos ao deus furioso que aplacava as ondas enormes e engolidoras em priscas eras. O que não acontece se faz acontecer. “Vamos embora que esperar não é saber”.
No dia seguinte estavam na frente do dragão que cuspia fogo lacerante pelas mãos, poros, boca e principalmente pelas intenções reais e executadas. No peito havia um medo, mas um medo banal de pessoas vividas para dentro, com suas próprias agulhadas na iminência de agulhar outra pessoa pelo nariz ou pelas veias, tanto faz.
O Senhor dominante da área cocainômana fazia de conta que era íntimo, isso dá uma segurança bastarda muito elegante e tão falsa quanto um brilhante na bijuteria da atriz. Logo os acertos estavam feitos sem perceber que o buraco desta vez não tinha cobras vulgares, eram todas najas e víboras da melhor espécie, daquele tipo que espreitam antes do bote arguto e envenenador para todo o sempre.
Quem poderá desconfiar de uma camaradagem entre mãe e filho voejando de uma cidade para outra, indo se refrescar no Mediterrâneo como prêmio de férias por amor indissolúvel que vem do ventre e alimenta até a morte? Na bagagem há de ter alguns pertences uma vez que sem roupas íntimas ninguém pode viajar. No meio delas, pacotes muito bem embalados, tão bem que nem um odor vicioso e fugaz haveria de escapar. Não é possível que os cachorros sejam tão cretinos que vão se deixar engambelar por esta quirera, tendo a bolsa uma lingüiça de primeira qualidade, daquelas que, a quilômetros, qualquer cão deseja ardentemente.
Estes Cérberos do inferno!
Logo homens muito grandes, parece até que suas cabeças batem no teto, ou cresceram de repente diante dos olhos atônitos. Também muito fortes, ou fortificados por insígnias federais imensas e duras algemando a consciência dos pulsos.
Grades não são coisas boas de nos defenderem dos buracos e atrás delas se chora um choro longínquo de quem este buraco faltava conhecer.

domingo, 22 de maio de 2011

HISTÓRIA SEM FADAS

Eram 6 horas da tarde quando Amarelo acordou. Tivera uma boa noite invertida, era assim desde que começaram a reforma da Praça da República no centro do centro de São Paulo. Os homi não incomodavam mais e o barulho diurno das máquinas e do trânsito era cantiga de ninar para seus ouvidos zoados. Tinha que descolar algum para comer, a larica estava das pesadas, estava na urgência, sem tempo de encontrar uma velhinha distraída da bolsa para fazer uma parceria imposta de grana. O mais legal seria ir direto para a pequena rua que serpenteava em torno do Copam, aquele prédio batuta que aparece todas as manhãs nas notícias de trânsito encrencado. Sabia das coisas porque sempre parava diante da vitrine 24 horas de TV quando ia dormir. Bem certinho como quem bate ponto depois de descer na estação República do metrô apinhado de gente. São Paulo é assim, quando uns dormem, outros acordam. Não sossega esta cidade?
A turma do comércio diurno estava saindo da labuta, os do turno da noite prontos para entrar em ação. Logo encontrou o Zé do Pinho encapuzado como ela, a cabeça enfiada até os olhos no moletom que um dia foi preto e agora era meio “onde está a cor”. Chapéu não era uma vagabunda qualquer, dava duro, antes de fumar a primeira pedra vendia umas quatro ou cinco, era o trato a cada R$25,00 ganhava uma. Tinha que se puxar, a concorrência era braba. Bem que poderia trabalhar no dia era mais calmo, mas sabe como é, uns são do dia e outros são da noite. O Professor que sabia das coisas tinha ensinado isso e entendia da tal Psicologia. Quem vai duvidar, ele viera da Vieira Couto, tinha casa e tudo, um estudado.
Chapéu não sabia o que estava escrito nas estrela para ela, ora quem vai ler estrelas? Só os babacas que ficam caídos de boca prá cima olhando o céu. Esses eram da pesada mesmo e até espumavam pela boca. Ela não, era sabida e não atolava demais na pedra. Tinha que ter olho vivo para ver se os homi não tinham decidido dar uma de moral para repórter que gosta de ver o nome no jornal nacional. De vez em quando acontecia, ela até já tinha sido atriz, se reconheceu pelo capuz amarelo, ainda bem que a cara não apareceu, era de menor e não gostava da FEBEM. Os camaradas tinham contado que lá era foda, se apanhava igual cachorro sarnento.
Pois é... Sem saber ler estrelas e muito menos o que estava escrito no Tarô que nunca tinha ouvido falar, ela não imaginava que este dia era marcado pelo diabo. Este conhecia bastante bem, digamos que fosse seu amigo íntimo. Pelo menos já se deitaram juntos umas 30 vezes, era dono do pedaço o Diabo Mico, foi com ele que perdeu os tampos aos 13 anos. Isso é apenas detalhe, tampo é para ser perdido mesmo. Refri a gente não tem que abrir para tomar o gostoso? Burrice esperar, a vida é curta. Nesta zona ela é bem curta, ou se morre embaixo de carro vendo preto Audi onde é apenas Fiat velho, ou se morre de tiro perdido por polícia zoado, ou se morre de morte morrida de tanto crack na cabeça. Já estava uma velha de 16 anos, daqui a pouco começava a contar ao contrário e a vida ia encurtando, mais fácil assim e a gente ia pensando que vivia bem mais.
Depois de pegar a trempa procurou a clientela segura, os de fé que eram fáceis e sempre tinham dinheiro, o cara do mercadinho, a guria do sebo e outros deste naipe burguês. Não sabia o que era burguês, mas diziam que eram os bacanas que davam um jeito de ficar no invisível e por a turma na cadeia de vez em quando assim limpavam a própria barra. Isso era chato porque para sair na boa tinha que dar para os guardas e eles reclamavam do cheiro. Ora, estavam pensando que banho era fácil? Tinha que ir ao albergue, coisa filha da puta de chata, eles ficavam na fiscalização para ver se não tinha pedra escondida e quem pode dormir direito de cara limpa deste jeito? Só otário.
O Lobo vinha se balançando todo com aquele ar de Bredi Piti. Adorava o Bredi, tinha visto um filme inteiro onde o cara aparecia peladão o que lhe valeu belas e boas horas de suruba com os três moleques mais legais do pedaço. Dava até para agüentar rodada esticada, mas a pedra rolou solta e desabou. No dia seguinte procurou os malandros, eles estavam em outra e não deu para repetir a dose. Melhor, esse negócio de sexo tinha perdido a graça, a pedra fica com tudo, até a com coceira no meio das pernas.
Pois é, lá vinha o Lobo e ela se ouriçou toda, diziam que o cara era mau e ela estava louca para ver a maldade. Ouvira que ele comia pesado e às vezes até queria comer a avó da gente. Não dava para arriscar porque nem sabia onde andava a velha, nunca tinha visto as fuças dela.
Resolveu parar na lanchonete e choramingar um sanduba, o português quando estava de bom humor e tinha comido bem a mulher de noite, dava um bom demais, com mortadela e tudo. Até passava manteiga. Era um desses dias e se fartou, a sorte é que o estômago não agüentava muito e era uma pena perder iguaria jogando revolta no chão da rua. Ficou ali no hora veja até sentir que a mortadela caía bem e a disposição ficava punck, legal para enfrentar o lobo.
A floresta de concreto estava naquela movimentação, era bicho de todo lado, alguns veados balouçantes, várias hienas, muitas onça tigradas saindo da Boca do Lixo e toneladas de cachorros amestrados. Flores de plástico, coloridas e aveludadas, recheadas de pó se apertavam na mesa do camelô, sempre desejara uma daquelas rosas fosforescentes, ia ficar bem legal enfeitar o chapéu amarelo, a grana nunca chegava nela. Um dia... Quem sabe?
Nem percebera que o relógio batia nas 7 da manhã, seu “dia” passara voando, nem queimara tanta pedra e estava legal.
Atravessou a São João no acostumado da corrida, o Lobo resolvera se movimentar e já descia a avenida. Será que daria um giro pela Vinte e Cinco? Fazer o que? Lá tinha guarda de todo lado, de olho nos rapa para avisar os camelôs sem licença. Os pobres diabos ganhavam uma merreca como polícia e eram obrigados a um trabalhinho extra. Morria de medo, ao mesmo tempo os revólveres presos à cintura a excitavam, devia dar um barato transar com o cano deles, até arrepiou só de pensar.
Se chegou no Lobo como quem não quer nada, perguntou o endereço de uma rua qualquer, ele era entendido da floresta. Foi um cá lá e se amigaram bem legal, o cara estava na falta e topou dar um trato nela, até prá cama de verdade levou a mina.
Chapéu entrou meio desconfiada no quarto, esse negócio de 4 paredes era meio chato porque não tinha para onde fugir se pintasse sujeira, mas o Lobo... Valia a pena o risco. Tomou banho, dizem que perfumosa é mais chamativo e vá que o cara fosse do tipo tarado e enfiasse o nariz lá dentro. Uma tara é bom, os caras da crokô eram bate e volta e não se pode exigir na hora de ganhar uma pedra pelo serviço. Pensando nisso esfregou o sabão com vontade na pechereca que reluziu.
Foi toda se fazendo para a cama onde o Lobo já estava a postos e viu que estava completamente a postos, se assustou um pouco, nunca tinha visto uma disposição daquele tamanho. Tudo bem, a gente tá na roda e tem que deixar rolar.
O cara começou manso, até desanuviou a cabeça e a fumaça foi embora. Ficou bom demais embora batesse doído, tá na chuva é prá se molhar, pensou quando deu o primeiro grito.O Lobo riu alto e disse um monte de palavrão que nem se lembra quais foram, só ficou o “tu ainda não viu nada”. Era nordestino, o desgraçado. Tinha vindo atrás de trabalho e pegou pesado na construção ficando com uns braços que eram umas toras, ou tomava bola, vá lá saber. Virar ela de costas era um assopro e foi assim que Chapéu começou a aprender a ler estrelas. Já tinha feito este negócio de vira-vira, mas não com alguém tão apessoado e sem planejamento.
As tripas se revoltaram porque o Lobo dançava forró em seu corpo quase desfalecido. Ouvia os gritos de “caga, caga” e o riso subindo cada vez mais alto, “quero gozar, vamo lá vagabunda, “não te faz”. Antes de se arriar toda lembrou que tinha estado ali há muito tempo e que o porteiro era o Caçador Verde, não vacilou, berrou por ele. Na lembrança, a voz de Margarida retiniu: O Caçador é de fé, salva a gente se a gente gritar por socorrimento.
A porta abriu num baque se estonteando no chão e nem deu tempo de ver direito o cassetete improvisado abrir a cabeça do homem que brochou na hora com um mundéu de sangue esguichando nas costas dela.
Estrebuchada na cama do Clínicas contava a história toda para o polícia, nem quis saber se o Lobo estava morto ou estrabuchado, balbuciava entremeando cada frase com a lembrança desconexa:
- Moço, salva a minha avozinha que esta ela não aguenta.