sábado, 7 de abril de 2012

VIA SACRA

Josué desceu do ônibus dando graças a deus por afinal estar a quatro quarteirões de sua cama. Estava cada vez mais difícil ter paciência de aturar o cheiro de gente, as palavras vazias ou ásperas de todos em torno. Uma hora e dez, às vezes vinte deste convívio forçado e espremido era muito mais do que um cristão poderia aguentar para salvar sua alma. Às vezes ficava repetindo internamente “Vão para o inferno, desgraçados!” como uma espécie de mantra ou conta de ovelhinhas antes de dormir. Distraía e parava de ouvir a tagarelice de vizinhos desconhecidos aproximados apenas pelo mesmo penar dentro do coletivo.
- Vão para o inferno, desgraçados! – Vão para o inferno, uma vez. Vão para o inferno, duas vezes. Vão para o ...
O ar da rua refrescado pela garoa era uma espécie de batismo bendito que o aproximava da bem aventurança. Aquela tão suplicada nos cultos e prometida nos cultos do pastor Elias todos os domingos dedicados ao Senhor conforme recentemente recebera em sua vida. Esperança, esperança, esperança.
Gritos atravessaram as calçadas, gritos próximos e múltiplos. Tencionou-se. Eram prenúncio de perigo na favela, tiroteio dos traficantes ou invasão da polícia. Sempre perigosos para quem não tinha nada nem com um, nem com outro e procurava viver despercebido até o dia que fosse chamado a uma vida melhor que, tinha certeza, chegaria. Esperança prometida, regras cumpridas á risca para merecê-la, até o cigarro largara, baseado nem para refresco. Pelo menos era o que sua mãe de mãos esfoladas pelo tanque e sabão ininterruptos, falava de olhos postos no crucifixo pendurado meio capenga em cima da porta de entrada para abençoar a casa e aos que saíam ou chegavam. Não importava muito em qual dos casos, desde que tivessem sempre presente que eram filhos de deus e um dia, sabe-se lá quando, seriam resgatados da favela. Josué gostava dos amigos, da funk e das peladas, mas desde que os políticos resolveram perseguir o tráfico, as coisas ficaram pesadas e a vontade de ir embora bateu na porta com força.
Ouviu os tiros e se grudou na parede de cabeça baixa, correndo com a pasta de plástico cobrindo a cabeça como se fosse um escudo anti bala perdida, fazia de conta que era para a chuva miúda numa tentativa de diminuir o medo que podia paralisá-lo em vez de fazê-lo correr o mais que pudesse. Quando dobrou a esquina a movimentação era bem maior do que o esperado, todo mundo corria e um quase menino estava estendido no chão imóvel. Uma mulher desmaiava nos braços de alguém, ou fazia quê, já que gritava alucinada: meu filho! Meu filho!
Quatorze quadras para chegar em casa, estava acostumado a contar os passos, distraía a tensão e quem sabe impediria de ouvir os tiros e os gritos. Felizmente parece que estavam mais para cima e não à esquerda, direção que seguiria.
- Foi ele! Foi ele!
A voz berrou e em seguida alguém lhe passou uma rasteira fazendo com que caísse de cara no chão, um fio de sangue escorrendo do nariz que tinha batido de jeito no meio fio.
A partir daí tudo se transformou num grande pesadelo, uma leve visão de sacrifício passando rapidamente pela cabeça. “Te esconjuro!”
- Foi ele, eu vi! Reconheço o moletom e o capuz pretos. Foi ele que atirou.
A multidão enlouquecida pela sede de sangue, punição, esperança de centenas de anos, também reconheceu. Até os que nunca o tinham visto acusaram o reconhecimento e urravam: Também vi, foi ele. Deve ter a arma ainda. Está sempre armado este desinfeliz, eu vi!
A sorte se acabou ali. Que sorte? Esperança de sorte.
Meia dizia de homens suados, molhados pela chuva, cheirando a roupa suja, caíram sobre ele, amarrando-lhe os pulsos e os pés, mas de modo que ainda pudesse andar. Levantaram-no puxando pelos cabelos, rasgando o capuz e empurraram-no em direção à subida íngreme, sentido contrário e torto de sua casa. Pedras soltas na via o fizeram tropeçar, andava sem enxergar direito e não conseguia se lembrar das palavras do pastor embora procurasse febrilmente no cérebro entorpecido por xingamentos e impropérios. “Seu filho do diabo, filho de puta e outras verdades que tais”.
Caiu batendo os beiços que racharam e sangraram, uma dor aguda e estrondosa comprovou a perda do dente que não lembrou de cuspir e nem sabe se engoliu. Alguns chutes fizeram com que entendesse que era preciso levantar e que, talvez isso fosse sua salvação, já vira gente morrer pisoteada na estripulia de fugir dos alvoroços agora quase constantes na favela. As autoridades tinham se decidido a limpar o ambiente dando segurança aos moradores. Todos tiveram esperança e fé que isso seria uma bênção. Era uma questão de tempo, depois tudo seria paz e dias de sol, a alma renovada pela saída da bandidagem com seus atos demoníacos que visavam apenas o próprio umbigo. Um novo tempo, uma nova ideia de vida.
Compreendia a direção a seguir pela turba que abria caminho para ele, até parecia uma procissão. As ideias começavam a se organizar e ele pensava que era filho de deus e seria salvo deste inferno de loucos e desenfreados. Foi assim que resolveu anunciar:
- Não fui seu, sou filho de deus. Ele é meu pai assim como seu!
Alguma coisa deu errado por que choveram pedras e uma delas encontrou certo o caminho do olhos que fechou a meio.
Uma mulher abria caminho aos prantos, arrancando os cabelos e afinal reconheceu como sua mãe, ou talvez tenha ouvido seus chamados.
- Josué, meu filho. Que fizeste? Nada fizeste. Este é Josué. Estão enganados.
A esta altura estava estropiado e cego, entortava o caminho, pensava nos ovos de Páscoa que ainda precisava comprar para os primos e para neguinha Madalena de sorriso largo e branco. Madalena dos braços macios e colo exposto aos seus carinhos, jurando amor eterno que a ele se daria por toda a vida.
Viu que a mãe caía e alguém a recolheu nos braços. Seria o pastor? Levou-a do burburinho e pensou que talvez os pés balançando fosse a última coisa que visse da mãe. Lamentava em meio ao caos de conexão mental não ter ficado mais tempo com ela ao invés de ter corrido a soltar pipas. Sentar ao lado do tanque ouvindo as histórias de santos e anjos que ela gostava tanto de contar apesar do pastor dizer que não existiam. Mas eram apenas histórias e ela pecava no segredo da casa. Como menino era justo que quisesse mais sair com os amigos atrás de descobertas que repartiria com enlevo, do que ver mãe batendo roupa sob o sol.
Lá de trás veio um vozerio e todo mundo parou. Parece que o BOPE estava derramando mais polícia, alguns até se escafederam e seu amigo Jonas com um olhar que apertou o coração de ver, tanta piedade tinha, passou seu pano de mecânico pelo rosto dele, limpando ou sujando um pouco, mas pelo menos não correu mais sangue da testa o que abriu a visão e melhor não ter aberto já que se deu conta muito bem do que estava para acontecer. Já vira antes. Aonde mesmo?
O pessoal do BOPE tinha outras ocupações e os favelados desgranidos que cuidassem de suas turras, não era traficante e eles não se metiam na arruaça, essa era a regra: deixa o pessoal resolver suas pendengas, a missão é pegar bandido, o povo é trabalhador e do bem. Foi assim que o grupo continuou caminho inchado de gente a cada metro.
Josué não viu quando jogaram uma galinha morta retirada do ebó dos exus. Tropeçou na bicha e se enrolou em seus pés fazendo-o cair pela segunda vez. Bem de seu lado ouviu a saudação e teve certeza que estes nomes não se deve dizer, razão tinha o pastor, eram do demônio e traziam má sorte:
- Laroyê, Exu! "Exu, em ti confio. Leva meus medos embora, Compadre".
Continuou ouvindo como uma ladainha e no fundo nem achou tão dos infernos por que lhe deu uma impossível calma, parecia até que pediam por ele, tivesse fé e coragem que tudo terminaria em pizza com um olho roxo, sem um dente e um monte de escoriações dolorosas, mas passariam. Esperança, não morres nunca.
Ninguém o juntou, mas levantou assim mesmo, enxergava já o terreno baldio do alto da favela, quem sabe não quereriam se encher de pega-pega e apenas o largassem por lá aliviados dos pecados e felizes com a justiça.
Estavam bem na frente da casa de Sá Matilde com as meninas todas saindo meio peladas para assistir o desfile, até parecia cantor de funk chegando para a balada e isso não era fato de se perder. Quando viu Ritinha nem sabe bem como, no meio delas, com sua cara de vaca com sono sentiu um aperto no peito, até ontem brincava com sua irmã com as bonecas de trapos que a mãe costurava. Os olhos dela tinham um jeito estranho e parece até que corria água deles. As palavras saíram meio atropeladas ou bêbadas sem que pudesse brecá-las e não sabia que elas existiam dentro dele até ouvi-las:
- Não te preocupa, Ritinha, não chora. Um dia eu subirei até aqui de novo e te tirarei desta vida de pecados, és só uma guriazinha, teu coração é puro, mostra isso prá todo mundo, mesmo que tenhas que abrir as pernas todas as horas do teu dia.
Mal terminou de falar e alguém deu um passa pé que o desabou novamente. Estava tão pesado, devia ser cansaço do dia trabalhado, estava acostumado a dor no cangote, se parecia maior era por que não pudera se atirar na frente da TV como todos os dias enquanto mastigava o bom e conhecido sanduiche de mortadela.
Chegaram ao descampado e alguém o derrubou para lhe tirar os tênis quase novos e até as roupas todas, cada um carregando uma peça. O frio da chuva que se tornara gelada pela noite, arrepiou sua pele e então, só então se deu conta do pavor que o dominava.
Tinha que acontecer isso tudo, este pesadelo, bem na véspera dos feriados? Teria três dias para descansar até começar, no domingo a se preparar para a nova e eterna semana que sempre voltava.
Vacilou quando viu a árvore seca bem no meio do terreno, meio chamuscada pelo fogo, onde assaram o Nei das Trincas ao trair o Chefe embolsando alguns gramas de pó. Foi nela que o prenderam e parecia estarem enterrando alguma coisa em suas mãos para que não pudesse se soltar. Com o que seria que doía tanto? Precisavam também prender os pés? Ele não teria forças para caminhar nem dois passos, não fugiria, isso era desnecessário.
Já estava tudo turvo e mesmo que virassem as costas, deu-se conta que não conseguiria sair dali, queria mesmo era se atirar no chão, dormir com a chuva aliviando a dor que o queimava. O pastor era um desgraçado, tinha dito que ele era filho de deus. Onde estava o tal deus nessa hora? Por que não vinha com seus anjos salvá-lo daquele inferno? Melhor que não viesse, talvez morrer fosse não sentir nada, talvez a morte fosse a verdadeira salvação e foi assim que se entregou. Não estava sentindo mais nada quando Zé Pretinho o espetou com o canivete.
No dia seguinte saiu notícia no jornal com foto e tudo sobre o massacre da favela e o povo todo se persignou. Tinha isso que acontecer bem na Páscoa? E se... E se...
Povo é povo, houve até romaria por via das dúvidas, algumas mulheres levaram flores que puseram junto à árvore queimada. Muito tempo depois elas estavam lá como no dia em que foram depositadas e ele passou a ser chamado de santo milagroso já que a flores não morriam.
Eram sempre-vivas, tem a mesma aparência por todo o sempre até que virem pó.

Vana Comissoli

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

FILHOS DO PODER SUPERIOR

Aos parceiros da UDQ na lembrança
amigos, irmãos, camaradas
para sempre.

Patrick, André, Astréia e Míriam.
Conhecemo-nos aqui nessa casualidade imposta. Prisão disfarçada.
Somos adictos internados, cada um na sua, numa clínica para dependentes químicos.
Os dias se arrastam nos grupos terapêuticos, sessões com psiquiatras, seminários explicativos (prá lá de chatos), filmes patrolando nossa adicção.
Temos pela frente trinta dias iguais, convivendo numa panela de macarrão que cozinhou demais. Mole e emaranhado. Um barulho ensurdecedor dentro da cabeça. Noites fritando na cama até chegar o entorpecimento sonambúlico dos remédios forçando a desligarmo-nos do mundo.
Muitos momentos, horas ociosas. Fumamos loucamente. Não temos bebida, nem droga, nenhum embalo. Os cigarros como único escape, uma chaminé para os pensamentos esburacados.
Uma constante charada martelando sem resposta: Quem sou eu? Quem sou eu? Um cogumelo ou um elefante branco? Somos um pouco de tudo, até da interrogação. Tentando sair de um buraco negro e fundo que nós mesmos cavamos.
Cogumelos tentando se proteger com suas copas da chuva ácida, presos nas raízes que sobraram da gangrena de nossas desgraças.
Elefantes brancos no espelho dos olhos de quem nos observa.
Um monte de retalhos a serem costurados para, afinal, nos mostrarem o que somos e a que viemos.
Entramos esquivos, meio chapados ainda, meio bêbados. Estômago embrulhado, o medo nos olhos, a solidão na alma e a desconfiança como escudo. Alguns dão o último “teco”, a última fumada da pedra, a última cheirada, no banheiro da recepção, enquanto esperam a triagem. Só os alcoólicos não fazem isso: impossível esconder uma garrafa de vodka no rabo.
Logo estarão nus e se agachando para ver se não trazem nas entranhas algum suspiro de cocaína, crack ou maconha.
Arrancados de nossas referências, por vontade própria alguns, outros a fórceps. Pouco convencidos da lepra em que nossas vidas desembocaram.
Aos poucos, a exposição desnuda das terapias, nos mostra as afinidades dos desafins em tudo, menos com as drogas. Os pontos de toque e de choque em que esbarramos.
Encontramo-nos.
Patrick. Vinte e seis anos, cocainômano injetável. Lindo como Adônis, meio morto como Lázaro. Homo, bi e se pudesse, tri sexual. A sensibilidade jorrando pelos poros, pelas tatuagens, pelos piercings. Um espírito gritando, enquistado no desespero.
André. Ao passar pelas ruas, as pessoas se voltam: que cara de bom menino! Que translúcidos olhos azuis! Cabelos loiros, comportados. Suave e interrogador olhar. A inquietação enchendo sua boca de chocolate, balas e perguntas. Voraz, incerto, inseguro. A cocaína cheirada no escondido da madrugada, do filho e da mulher a quem se atracava com toda a força do coração torcido. Muitas internações, esta sua última esperança. Haverá a última? Ou será a última antes da próxima?
Astréia. Menina levada, quase criança. Estapeando o mundo com a raiva nos olhos turquesa, na aparência mais do que desleixada, nos palavrões que saúdam suas falas. Na homossexualidade escarrada na cara dos certinhos e estúpidos, no seu conceito. Um ET sem saber de que planeta caíra. Perdidaça, jurando que sabia tudo. Somelier de todas as drogas. Uma expert.
E eu. Mírian. Atravessada pelo álcool depois de ter sido atingida por um avião batendo nas torres gêmeas. Família, filhos, trabalho. Tédio aparentemente normal. Torcida igual pepino para se tornar o que jamais fora. Deixando-se domar por medo do mundo grande e ameaçador. De solidão já tinha prenhe a infância irreversível. Algumas fugas guerreiras para manter a identidade, mas que já prenunciavam a válvula de escape da vodka. Um barco desgovernado procurando bússola.
Quatro vidas, quatro desencontros, quatro carências absurdas.
Na encheção das terapias ou nas dores da cura, em meio às conversas sérias, mineradoras, a exaustão de lapidar-se.
Foi simples assim.
O fumódrofo mergulhado na fumaça dos incontáveis cigarros, os poros exalando nicotina, a boca feito cinzeiro.
Grupos reunidos no dominó, alguém sozinho num canto com olhos perdidos, um violão retinindo.
Nós quatro proprietários da mesa grande onde ninguém se atreve a chegar.
As palavras dos grupos de auto ajuda tilintando nos ouvidos:
“Acreditamos que um Poder Superior a nós mesmos pode devolver-nos o equilíbrio.” (Primeiro passo do A.A.)
“Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus na forma em que O concebemos.” (Terceiro passo do A.A.)
Poder Superior... Estrela longínqua no espaço sideral da adicção. Crença vazia de significados. Objeto de nossas orações desesperadas e jamais materializadas. Nada de milagre à vista. Só muita coragem e querer. Ponto de interrogação.
− Tive uma idéia espetacular! Não somos filhos do Poder Superior?
Eles me olharam.
− E daí? Grande merda. – retrucou Astréia.
− Ele existe. – Afirmou André convicto. Eu vi. No lustre de minha sala.
− No lustre... Ah, me poupe! Viajandão vê até Jesus Cristo descendo da cruz soltando fogos de artifício.
− Existe, mas não se importa. – vaticinou Patrick.
− Então vamos recriá-lo à nossa imagem e semelhança, conforme o concebemos. Não é isso que eles pregam?
A olhada de meus parceiros traz carradas de curiosidade. Alguma luz, eu acho.
− Vamos criar a Igreja dos Filhos do Poder Superior!
Uma lufada de ar baleiado. Fonte de inesperado desufoco. Brincadeira no meio do peso.
− Seremos os pastores.
− Isso dá grana, muita grana.
− Irmãos, ovelhas desgarradas, o Poder Superior abre seus braços sobre suas cabeças sofridas. Espera apenas a vossa aceitação. Materializem a entrega de suas almas, de suas vidas através da fé do dízimo. Doe e receba em dobro!
-- Em triplo! – Triplo é melhor. Pega bem.
Pastores precisam de nomes de impacto. Místicos. Força e fé.
− Patrick, serás Osiris, o deus egípcio julgador dos mortos, o que pesa os corações e portanto a validade da vida.
− André serás Thor, o deus nórdico. Representando a força da natureza, o trovão, fazendo justiça com seus raios, com o seu martelo.
− Astréia. Serás Perséfone, amada de Hades, deus das entranhas da terra e para lá a levou. Por pedido de sua mãe inconsolável volta para visitá-la e da alegria de Demeter, nasce a primavera. O renascimento. Renasceremos nas tuas mãos, pastora dos perdidos, dos abandonados.

Eu serei Kali. Kali tem um relacionamento ambíguo com o mundo. Por um lado destroe os espíritos malignos e estabelece a ordem. Entretanto também serve como representante das forças que ameaçam a ordem social e a estabilidade por sua embriaguez de sangue e subseqüente atividade frenética. A deusa da morte. Organizarei a mente dos desviados.

Já a mania tomava conta de nossos frágeis egos. O entusiasmo eleva as vozes.
Astréia brada:
--Roupas. Não podemos usar coisas comuns, banais. Nós somos os pastores, os fiéis devem nos temer e respeitar.
Era chegada na moda trash. Patrick transava jóias de prata, anéis, pulseiras.
− Branco, tem que ser branco. Pureza. A nossa pureza. – Baixa um pouco o tom. – Não descobrimos, mas existe.
Logo volta ao tom frenético:
− Com uma tremenda folha dourada no peito, a cor pode mudar de acordo com a graduação hierárquica. Dourado só para os fundadores.
− Folha de quê?
− Sou mais uma nota de dólar. Lembrar sempre o dízimo é fundamental. A gente vai precisar de iate para meditar no grande mar. – Esse é André, o prático da turma.
− Que dólar, que nada! O dízimo a gente berra no meio da colheita. Arranca os cabelos.
− Vou usar peruca, então. – Murcha Patrick.
− Tem que ser uma tremenda folha de maconha que é familiar a todos. – Andréia berra.
− Legal! Não podemos esquecer a desgraça que vivemos.
− Então precisaremos de avião para ir aos lugares sagrados: Colômbia, China, Afeganistão. Todos.
− Como assim?
− Produtores de coca, ópio, mescalina, haxixe, LSD...
− Sensacional!
A necessidade de um hino surge.
Astréia-Perséfone resolve a situação de empaque.
− Vamos usar a música do Paralamas do Sucesso, só mudamos a letra:

Tô segurando
Essa lanterna
Para os afogados
Sei que vou poder te salvar.

− Se é para pedir licença, a gente paga e usa a música toda:

Quando tá escuro
E ninguém te ouve
Quando chega a noite
E você pode chorar

Há uma luz no túnel dos desesperados
Há um cais de porto
Pra quem precisa chegar

Eu estou na lanterna dos afogados
Eu estou te esperando
Vê se não vai demorar

Uma noite longa
Pr'uma vida curta
Mas já não me importa
Basta poder te ajudar
E são tantas marcas
Que já fazem parte
Do que eu sou agora
Mais ainda sei me virar

Eu tô na lanterna dos afogados
Eu tô te esperando
Vê se não vai demorar

− As pias de água benta, de benzeção, devem resgatar a subjetividade. Por preferências, marcas indeléveis da individualidade, do eu soterrado dos fiéis: whiskey, vodka, cachaça e um licorzinho para arrematar.
− Bem, então as hóstias deverão ser de cocaína. – Berra André-Thor.
− E teremos confessionários privativos, onde os pecados serão dramatizados longe dos olhares críticos. Só na revivência poderão sentir o peso da injúria feita. – Profetiza Patrick-Osiris. – Cada um deve reviver sua droga de preferência. Penitência.
A cada risada os outros internos se aproximam. Novos companheiros já se abancam à mesa e logo são batizados com nomes para a nova vida.
A Igreja dos Filhos do Poder Superior cresce a galope. Dei-me conta da preponderância sobre o juízo que as drogas obtêm com facilidade. Elas seduzem. Qualquer caminho é rota de fuga do mundo que inverte valores e estarrece os mais sensíveis levando-os às rotas desenfreadas.
Ezequiel que a tudo assiste, aparentemente fechado em sua concha, isolado, grita:
− Panacas, vocês não estão criando nada! Não passam de crianças reproduzindo o que vêem. Irremediavelmente condicionados. Boiada de idiotas. Políticos, ladrões ou capachos: traficantes no poder das nações. A mentira maior do que a verdade e a manipulação é moeda corrente de livre trânsito.
Um suspiro tremente escapa de minha indignação:
− O quartel general está aqui dentro, mas o grosso da tropa está lá fora! O mundo está roto, a beleza enxovalhada e o ser humano virou ração para os bois gordos. Um trapo descartável.
Ezequiel se levanta:
− Fomos engolfados pela fraqueza. Entregamos nossas vidas de bandeja. Tentamos acertar errando. Tentamos sobreviver fugindo. Perdemos a guerra e nos tornamos presas fáceis, nos desumanizamos no imundo. Mergulhamos no mar estúpido da descartabilidade. Fomos invadidos, esquecemos de questionar e reivindicar o status de ser humano. Estúpidas e ruminantes vacas de presépio, onde na manjedoura vage a vulgarização dos sentidos. Em cada um de nós o mundo morre um pouco.
Silêncio total. Olhamo-nos perplexos. A consciência dói. É ferimento sem cura, estigma. O silêncio é uma mortalha.
A nova igreja aborta-se ao nascer. Jamais terá forças para driblar a igreja 666 que viceja pelos corredores do planeta.
Em vários cantos da Terra, em múltiplos idiomas, os crucificados elevam pensamentos enquanto são bombardeados pela mais mortífera artilharia que se tem notícia: a desesperança e a descrença que leva à desonra.
Alguém começa a cantar baixo, logo seguido por todos e o som aumenta, toma conta do espaço, das mentes:
“Vem, vamos embora
que esperar não é saber.
Quem sabe faz a hora
não espera acontecer.”

• De todos estes personagens reais apenas dois se mantém em recuperação. Alguns voltaram para a clínica, outros continuam absurdamente na ativa e algum está preso.
Os sobreviventes se engajaram em serviços beneficentes de auxílio aos dependentes na ativa e seus familiares. Os laços de irmandade jamais se desfizeram e embora distantes o contato é permanente e a felicidade partilhada a cada nova conquista de vida. Irmãos paridos na dor, irmãos unidos na recuperação.
Para sempre.

sábado, 22 de outubro de 2011

NE ME QUITTES PAS

Ne me quittes pas...
Não quero que sejas minha sombra
Nem eu a tua
Te quero luz fátua
Na distância próxima dos sentidos
Não quero viver à tua volta
Ou que vivas na minha
Quero a inteireza de estar presente
Na mente
Como forma viva
Incandescente
De sedução plena
Consciente
Permanente
E assim, totais
Sem metades
Sem partes
Inteiros em si mesmos
Dando-se e tomando
Sem pudores
Sem árduos amores
Simplesmente de mãos dadas
No infinito finito de nós dois
Absolutamente perfeito:
estar na mente, permanente,
inteiro, profundo, claro, real.
Façamos do encontro um romance
do instante uma fagulha de eternidade.
O resto é paisagem...
Vana Comissoli

URUBUSERVANDO

Uma sensação vaga, imprecisa, urubu adivinhando carniça pelo cheiro. Eu senti.
Ele era alto, moreno, de grandes e estarrecidos olhos negros. O cheiro de carniça estava soterrado sob um excitante Mont Blanc que devia custar quase, ou mais, do que um salário da plebe.
Eu sobrevoava os campos primaveris de minha fácil vida. Gostava de encantar, mais precisamente de seduzir, sem saber dos riscos servidos nos canapés de caviar com que me lambuzava nessa promessa de retornos jamais vindos.
Quando cheguei à festa o aroma me alcançou nos olhares famintos de minhas amigas, no ti ti ti que rapidamente foi confirmado ao enxergá-lo. Era ele, tive certeza. Vinha montado no cavalo branco e eu esperava seu beijo fingindo adormecida. Não era fingimento.
Envolvê-lo foi fácil, eu tinha todos os ingredientes necessários da receita de princesa. Flores, bombons, mimos... Princesas são tão bobas! Ouvem uma única melodia tocada em cravo secular onde a letra, canto-chão, repete: Felizes para sempre... Felizes para sempre...
Assim que pousei sobre ele a carniça exalou. Acontecia nas brincadeiras do amor. Amor, rosa vermelha, cálice de vinho tinto... Cálice de vinho tinto... Cálice de vinho tinto... branco, uísque, vodka, caipirinha caipira de cachaça, cálice... cálice,,, cálice. Copos... copos... copos... “Pai, afaste de mim esse cálice, de vinho tinto de sangue”.
No princípio culpei o vizinho que fedia e todos sabíamos, depois meu nariz osfrésico. Pulei para o alerta, deixei rastros de perfume de todos os tipos: reportagens, livros, avisos. Efeitos dos perfumes daninhos. Meu príncipe amava o odor afrodisíaco, hipnotizante, acostumara-se e não via mais a diferença, ou se a via enamorara-se por ele para sempre, acostumara os sentidos e se encharcava cada vez mais. Amor antigo, bem mais antigo do que eu, a rival.
Por fim decidi que meu amor soberano o envolveria se eu o exercesse à exaustão. Desenvolvi aromas de carinho, entusiastas, chorosos, lamentosos, impediriam que ele se inebriasse do cheiro de desespero e infâmia.
Fomos deixando os duques e duquesas de lado, tinham começado a respirar fundo quando chegávamos, embora disfarçando, para logo em seguida passarem a usar máscaras protetoras descaradamente na cara.
O príncipe já era quase um sapo disforme e coaxava noites a dentro transformando meu sono de pós prazer numa vigília de temor constante, numa guerra ímpia e injusta como ouço no hino de minha terra. Não mostrava valor, constância nenhuma.
Eu tinha que desistir. O urubu em mim crocitava não. Dizia que carniça tinha lá seu encanto, seu prazer. Quem sabe encontraria vida sob as carnes sanguinolentas, embaixo da aparência pútrida das olheiras. Quem sabe eu...
Não, por mais que ele me mostrasse as delícias de aspirar o odor branco das nuvens eu não podia, não conseguiria me habituar a ele.
Urubus comem carne morta, mas não apreciam se transformar em pasto de seus iguais, exatamente para manterem a sua, linda e fresca, ingerem a repugnante refeição. Eu fazia isso? Era isso que eu era? E a princesa, o castelo, o cavalo branco? Onde?
Eu voava, planava sobre tudo, além das nuvens e não me vinha coragem de abandonar a paisagem ruandense de 1994. Era a isso que assemelhava minha visão: facões cortando corpos, sonhos, planos. Cortando e estripando meu príncipe.
Os amigos dele tomaram o lugar daqueles que escolhem melhor seus perfumes e eu planava sobre eles também, cada vez mais alto e durante mais tempo, era a maneira de acreditar horizontes.
O príncipe tomou banho, sentou-se todo príncipe branco com o perfume nas mãos, acreditei em renascimento como uma entrega ao santo da devoção. Havia incenso queimando. Orei a ele que era meu tudo, meu deus particular:
- É tão importante? Mais importante que eu que te amo tanto? Te dou minha vida e meu ar? – Não mais chorosa perguntei amassada, minha própria pele se desfazendo.
Ele jogou aquele olhar comprido e doloroso que sempre fisgava o perdão dentro de mim. Vi alguma coisa verde dentro dele, muito rápido e logo branqueou.
Ronaldo abaixou a cabeça extremamente concentrado, fechou suas cortinas estendendo-me meu aviso de demissão e cheirou a primeira das cinco carreiras enfileiradas como soldados mercenários.

AO MESTRE, COM CARINHO

“ Um conto é um corte na vida. O que houve antes, ou virá depois não importa. A vida seguirá, mas aquele segmento será a polarização imutável trazida pelo antes e deslizando para o depois. Estímulo e retorno. Apenas isso e isso é muito.
O conto é como a fotografia: um instante capturado. Um reflexo do ímpeto.
A novela como a pintura: leva tempo para se terminar o quadro, mas sempre será duas dimensões.
O romance como a escultura: olhamos de todos os ângulos e temos a figura completa. A quarta dimensão, pois ao físico e palpável é acrescentada a alma.”
Eu bebia as palavras de Jorge Medina há muito tempo, ou toda a vida. Eu caminhara pelo deserto da busca cega e quase já desesperançava quando o conheci. Até então escrever era um passatempo, um alívio das tensões. A forma como as palavras se agitariam ou se descansariam no papel não tinha significado algum até encontrá-lo.
“Para que este corte, esta foto, tenha significado é necessário um conflito, sem conflito não há conto. Podemos criar uma rosca de açúcar ou um espinheiro agudo. A densidade terá o tom que escolhermos. Um conflito denso agregará mais valores e mais emoção.”
Eu desenhava mulheres nuas em meu caderno de notas e via que os olhos de Jorge volta e meia espiavam. Percebia uma nesga de sorriso? Não sei, mas quando eu lia meus contos temáticos sim, ele ria. Baixava a cabeça. Fechava os olhos, era um auditivo, e ria. Às vezes abertamente e isso me deliciava.
Era inevitável desenhar furiosamente, eu era auditiva ativa, meus olhos precisavam estar distraídos, ou melhor, minhas irrequietas mãos, para que eu capta-se aquela fala mansa carregada de preciosidades que transformariam minha vida.

“Maria entrou no quarto cheia de culpa. Eu também era culpado.
(O ruído rápido e quase ininterrupto do teclado, era música aos ouvidos de Jorge Medina e as idéias quebravam as paredes do quarto pondo-o em vôo livre.)
Nem por um momento deixei de ver meu irmão entrando na igreja, os olhos prendendo as lágrimas. Era o dia de desposar Maria e mostrar seu troféu até que a morte os separasse. Aceitei ser padrinho e lá estava com a gravata me enforcando, minha cabeça girando em cima dos ombros, prestes a cair. O perfume da noiva me alcançava como se ela ainda estivesse em meus braços. Maria, deliciosa, suave, rosada, agitada, urgente na chorosa e lamurienta despedida da véspera.
(Jorge bateu o cigarro e abanou a fumaça quase palpável. Ficaria bom, este conto ficaria bom, pensou com o velho sentimento de dominar o mundo, as pessoas, através das palavras.)

Na primeira aula mandou que nos apresentasse como se fôssemos nosso colega da frente. Algum tempo depois entendi que estava reconhecendo nosso feeling. Para compor um personagem precisamos aprender a captar as pessoas à nossa volta, isso não significa inventar o que nos der na cabeça. É preciso manter a coerência mesmo que incoerente do personagem, seu perfil, seus pensamentos íntimos que não serão descritos, mas percebidos através de seus atos.
Adequar a linguagem aos acontecimentos.
Ação? Escreva numa linguagem rápida, quase sem tempo do leitor respirar, mas não o sufoque.
Dor? Use palavras trágicas, que chorem nas letras. Observe o som das vogais, seu crescente, também falam, ou desmaiam no decrescente.
Saudade? Estique as palavras, deixe que elas relembrem os momentos que se foram.
Ler onde não está escrito. O segredo do conto: o subliminar, magistralmente atingido por Machado de Assis, na Missa do Galo. Perseguido quase sangrentamente por todos os outros, estrela de difícil encontro.

“Maria encontrara meu irmão Osório como uma luz, uma salvação, natural que se encantasse e visse nele possibilidades de amor. Acho mesmo que o amava sinceramente. Afinal o amor é correspondência e preenchimento de necessidades, apesar de deliciarmo-nos enfeitando-o com a aura que sobrou do romantismo.
O que ela não contava era com a paixão, a louca, súbita e irreverente paixão. Como gostamos de nos apaixonar! Vemos apenas a paixão. Enganamo-nos dizendo que é um rosto, um olhar... Não é nada disso, é uma emoção sedutora tique taqueando dentro de nós, acelerando o sangue, tirando o sono, tornando-nos escravos de um tilintar de voz.
Maria respirava paixão e tentava se livrar desta droga casando-se com Osório por amor plácido e rotineiro. Nada de frenesi. Dia de primavera sem o calor cáustico e excitante do verão.
Não podemos impedir o céu de chover, a noite de chegar, a planta de florescer, mesmo que isso, momentaneamente faça o sol adormecer, o dia descansar, a planta fenecer. Maria descobriria em meus braços.
Eu voltara para o casamento de meu meio irmão tão diferente de mim: calmo, de passos certos, colocando tijolo a tijolo as paredes de sua vida. Eu fora agraciado com um mestrado em Lisboa e, mesmo sem deixar de lado a importância de meu objetivo, resolvi que era uma oportunidade imperdível para virar do avesso a velha Europa. Livre de pai, mãe, casa, meias lavadas...
Entrei fundo nas tascas portuguesas onde aprendi a gostar de cerveja importada, terminar de quebrar minhas grades e rir com sonoridade retumbante. Retumbante era o que guardava de minha terra deitada em leito que eu renegava.
Sentávamo-nos descabelados e aéreos nos bares de Lisboa a debochar da cidade florida. Jovens insustentos a falar do que imaginávamos saber. A mesada, sempre escassa, chegando de todos os cantos do mundo para que pudéssemos divagar nas nuvens de nossos baseados, encontrando profundidade nas vidas de nossos escritores favoritos.
Citávamos Pessoa como se ele estivesse a sustentar Mário de Sá Carneiro na mesa ao lado e a sentíamos paixão pelos corpos que Miguel Esteves Cardoso possuiu.
Lá assim era e eu aprendera a ser inconsequente, estrangeiro tudo pode.
Tanta diferença entre eu e Osório devia-se ao fato termos de mães diferentes. A minha era uma jovem senhora de bem com a vida e a dele, uma chata, presa no ante ontem. Nesta escolha a minha ganhou meu pai que se tornou um cara menos sisudo e mais disposto a tomar um pilequinho nos churrascos familiares. Quem saiu perdendo ou ganhando? Não tenho a menor idéia, o fato é que éramos diferentes, cada um ganhou e perdeu um pouco. Infelizmente os dois ganharam Maria.”
- Não posso me esquecer da verossimilhança amanhã, na aula, devo reforçar este aspecto importante dos personagens. Se os alunos listarem todas as características, começando pelas físicas e terminando nas psíquicas, entenderão melhor.
A economia de palavras. Quantas já apaguei! Economia, limpeza: chô quês sujos e repetitivos, chô pronomes desnecessários, chô linguagem poética numa prosa. A menos que se deseje falar de flor, passarinho e borboleta. Eu quero isso? Preciso ter certeza dessa resposta.

- As qualidades físicas devem retratar as psíquicas.
Anotei a informação e criei mil personagens diferentes a partir daí. Antes de dormir os nomeava, via seus movimentos nos sonhos e meus cadernos se encheram de desenhos com fisionomias feitas a facão, mas expressando sentimentos cortantes.
Estou louca ou Jorge Medina me olha mais do que aos outros?
- Vamos imaginar dois personagens. Nossos personagens. Paulo e Márcia. Listem ações que se desenrolarão para um e para outro. Listem os verbos determinantes dessas ações, as dele e as dela, vejam a convergência. Não permitam que idéias se atravessem, mantenham o foco!
Como gostaria de ser estenógrafa! Não perder nem a respiração entre as palavras. Se eu seguisse à risca seria uma boa escritora? Nem me atrevia a pensar em romance.
- O conto é o gênero mais complexo de todos, não há espaço para vacilo, minúcias, palavras que não sejam absolutamente necessárias.
Mudei de idéia sobre tudo.

“Não foi intencional. Ela saía do banho e eu entrava. Meio nua? Não vi nada, só os olhos flamejantes que me examinaram. Ainda não tínhamos nos encontrado, embora minha vinda estivesse anunciada. Estava nos preparativos da cerimônia quando joguei as malas no quarto de hóspedes, furioso. Tinham dado o meu, o meu, para aquelazinha que aportara de pára-quedas na minha casa.
Dois pontos, luz azul, arco voltaico: Maria e eu.
Depois aquela coisa besta de apresentação, jantar incômodo das pernas se tocando por acidente e os olhos irrequietos e prometedores. Eu a despia junto com a pele dos tomates, a comia no filé à parmegiana e lambia na sobremesa de sorvete.
Foi simples e sem culpa. Uma noite, que mal faria? Depois... Impossível para sempre. Não era o recado que meu corpo passava durante a marcha nupcial féretra.”

No dia seguinte a aula foi sobre neologismos. A capacidade de criar palavras, a sagacidade de colocá-las no texto e a profunda coragem de fazê-lo.
“O mestre neste campo minado foi João Guimarães Rosa. Levou suas obras ao instigante mundo, onde recria a língua e faz com que os leitores tentem decifrar a todo momento os seus “achados” semântico, morfológico, e, até mesmo, sintático ou morfossintático, como se a literatura não fosse apenas algo sério, mas também algo criativo, artístico e misterioso.
E a literatura não é mesmo algo sério, é brincadeira do intelecto, liberdade de sentir, recriar a vida numa performance que nos deixe de queixo caído.”
Féretra mereceu a aula.

“Entrei na cozinha cantarolando, sou da paz de manhã, gosto do sol, ele esteja no céu ou não. Sabia que a lua-de-mel tinha sido adiada pelas cinzas do vulcão chileno que teimava em colocar uma sensação de fim-de-mundo. Apocalipse day.
Teria que parecer como sempre e fazer de conta que não tivera ouvidos de cão para captar ruídos que desejava meus e de Maria. O desgraçado quarto de hóspedes era no sótão e eu não ouvia nada naquela casa antiga de paredes camufladora dos segredos de alcova.
Fiquei mudo. Pavor.
Estavam os quatro na cozinha. Meus pais com as pistolas tremendo nas mãos, apontando-me. A de minha mãe, com belo cabo de madrepérola, teimando em mirar o chão. Meu pai segurando com as duas mãos para esconder o tremor e Osório direto nos meio de meus olhos. O tiro seria imbatível.
Maria chorava balançando o corpo e a cara marcada por hematomas se ergueu ao meu bom dia fingido.”

Jorge escrevia tramas tempestuosas e paixões escaldantes. Era a densidade, dizia ele, enquanto eu o copiava e punha ainda mais ardência. Excitaria sua curiosidade ao ponto de ebulição que a minha estava? Seus livros eram ambrosia que me açucarava.
Paixão, aquela mesma que Orlando sentira por Maria. Eu não queria amor algum! Queria Jorge e suas palavras mágicas. Queria pulsar como os personagens. Eu: Ana Karenina, Lady Godiva, Madame Bovari. É querer muito? É só literatura, me convencia.
Jorge escrevendo, Jorge falando, Jorge lendo, Jorge beijando, Jorge me chamando, Jorge, Orlando... Orlando, Jorge...

“Maria, a Louca. Pela Graça de Deus, Rainha de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhora da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, etc.
Pela Graça de Deus, Rainha do Reino Unido de Portugal, Brasil e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhora da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, etc.
Nada disso! Pela graça de uma trepada sensacional, a maluca resolveu não fazer amor com o marido na noite de núpcias e, ainda por cima, apontou com todas as letras o infrator.”

Os temas, as formas, a linguagem... Aula a aula compondo a trama do que viria a ser eu.
“Sobre o tapete, ou duro piso, a gente
compõe de corpo a corpo a úmida trama.”
Drummond saberia que isto também é amor? Que pode haver paixão entre o escritor e a escrita? Que posso ter mil Jorges, ser bígama, fiel, santa e puta?
Hoje, na frente do teclado onde as palavras aparentemente surgem sem uma nesga sequer de meu mestre, eu o relembro e devo a ele mais um livro editado e a entrevista que me espera para falar sobre o conto. O conto que foi o fruto deste amor incondicional.

Final aberto? Final fechado?
Qual se adéqua mais ao tema proposto?
Vamos deixar assim, ainda não parei de escrever...

Vana Comissoli

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

ARMADILHA

A discussão estava acirrada. As palavras se batiam e contorciam no ar como bolas de aço: um estrondo. Só não havia tapas na cara por consciente respeito às idéias alheias, mas a vontade era de ser um pouco mais autêntico e estraçalhar alguns sorrisos mofados.
Gabriela, sarcástica e ferina, bombardeava a paixão, o encontro sem sentido de corpos. O sexo pelo sexo. Coisa de animal, dizia com convicção. Defendia suas filosofias com unhas e dentes, se baseavam em longas leituras e mais longas meditações. Arranhava quando a contradiziam.
- Paixão causa dor, enlouquecemos, perdemos os parâmetros, não enxergamos a pessoa que a catalisa, na verdade ela se torna um meio e não um fim. Não é importante, embora nos pareça a pessoa mais importante do mundo, única e insubstituível. Por breve tempo, o tempo necessário de provarmos que a conquistamos, um souvenir na viagem dos sentidos.
Relacionar-se é muito mais profundo do que o breve mergulho na sensação. Sou racional, madura, posicionada. Não me apaixono, escolho. Recuso-me a ser um pedaço de carne pendurado no açougue.
Cícero colocou sobre a mesa, como sobremesa esperada, seu sorriso de escárnio. Há muito que desejava essa mulher, talvez por se tão teimosa e se valer, era excitante e o deixava ouriçado.
Ela empurrou o sorriso até que se estatelasse no chão.
- Não seja ridículo! Nem tenta dizer que sou sapatão. Se fosse não teria pejo algum em mostrar, mas que não me deito com qualquer enxovalhado que apareça, não me deito. Me respeito e não estou nem aí para o que possas pensar. Tu não passas de um saco de porra.
Talvez ela tivesse razão. Lembrou rápida e vagamente das tantas mulheres que tivera, tão efêmeras quando um aguaceiro de verão. Uma ou outra permaneceram em sua vida até se mostrarem diferentes do menu apresentado: nada de filé mignon, feijão com arroz insosso. Teria começado de forma errada? Se tivesse dado tempo será que...
Não houve tempo, talvez um breve latejar. Logo as vozes se perderam para o lado. Os dois fingiam discordar dizendo as mesmas coisas. A língua portuguesa possui desvãos que permitem se dizer a mesma coisa de ene maneiras. A verdade rondando sub-reptícia, pincelando de verde o que é amarelo e azul.
Ele estava encolhido, logo saberia que era uma boa estratégia embora tivesse começado espontaneamente, se sentira pequeno e retirava seu time de campo com delicadeza para não passar vergonha. Não via hora de se livrar dela que metralhava seu sexo físico e espiritual. Era uma intelectual chata e prepotente, carimbara assim dentro dele e quem quer saber de mulher metida a ter idéias? Se quer é uma boa mulher de cama. Parece que Gabriela tinha alguma razão. Ou todas?
- ... claro achas que estás diante de uma mulher frígida que cheira a absorvente higiênico, limpa e branca como uma propaganda deles. Morro de rir! O que és? Uma criança? Um éfebo?
Ele não coçaria a cabeça com ar de dúvida de forma alguma. Saco! Não podia falar mais fácil? Agora teria que fazer de conta o entendimento que não veio. Disfarçou, chamou o garçom, pediu outro chope, melhor sair cambaleando do que entregar os pontos. Era uma bruxa, a bandida.
-É antropológico. – arriscou na esperança de falar bonito.
Ela concordou e acrescentou que sim, era uma questão cultural, podia ser mudado se as mulheres não se preocupassem tanto com o batom e mais com a cabeça. Cabelos são bonitos e sedutores, mas cansam se não têm nada sob ele.
Cícero imaginou que se ela fosse nadadora, seria uma campeã, tinha um fôlego dos demônios. Não sabia por que ficava ali sentado, grudado nas palavras e quase não ouvindo nada. O perfume talvez? Qual seria? Um aroma exótico, vermelho. Uma sensualidade que o atava e fazia a vontade escorregar. Um jogo que o prendia sem esperar o final desejado ou já sabendo de antemão qual seria?
Ela jogou a carta sobre a mesa, sem aviso, quase bateu na cara dele. Segurou forte, tinha acabado de afirmar que mulheres cultas não têm tempo para sexo infantil, pensam demais e estão acima de tudo. A risada dela foi um ás de ouros:
- Cuidado, podes te enganar...
Foi a deixa para o assunto virar de ponta cabeça, rodopiar sobre si mesmo e se deitar nos olhares e nas pernas que se tocaram. Cícero sentiu os pelos dos braços levantarem como leões e bater em seu sexo igual sino de igreja avisando incêndio. Calma, sugeriu a si mesmo e arrastou a cadeira mudando as posições dos amigos, obrigando todos a um “chega prá lá”
Os olhos de Gabriela se divertiam, tinha fisgado um bobo e gostava desse brinquedo. Todo caçador um dia caça é.
Ele foi sinuoso, cobra mandada. Então quer dizer que também pensas em sexo? E como é? Precisa pedir com licença? Chegar de fraque?
Ela o puxou pela gola da camisa e passou a mão em seu peito, sussurrou ao ouvido: Gosto assim. Sentiu os mamilos enijecidos.
- Vou te beijar aqui, na frente de todo mundo. Um beijo longo e molhado, farei com que caias no chão.
Risada escarlate, já tinha lido isso em algum lugar, frase mais idiota, mas riu assim mesmo, já esquecida de Cortázar, Saramago e todos seus outros amantes que não podiam lhe passar a mão áspera. O riso terminou dentro da boca de Cícero. Quanto tempo? O suficiente para os amigos baterem palmas e cansarem de bater.
Algum disfarce ainda foi tentado, bolhas de sabão estourando no ar. Estavam presos aos olhos um do outro, às mãos, agora impacientes, e ao centro do corpo que latejava esquecendo o vernáculo, as palavras são tão simples no sexo! Ai! Vai! Fui! Hã! Precisa mais? Palavras mais sábias, descritivas e empolgantes não há.
Ele reafirmou sua masculinidade trazendo a mão de Gabriela sobre seu membro rijo, exigente. Esqueceu as diferenças, se impôs macho que era. A erudição liquefeita no espasmo do prazer cavalgando as torções dos corpos que procuravam abrigo.
Ele levantou puxando-a para um canto retirado. Todo mundo fez de conta que não entendeu, nem viu nada. O garçom ficou feliz com a gorjeta gorda e virou escudo.
Cícero viajava uma aventura em camelo, inusitada e desértica de experiência.
Cenas de sexo... Serão mesmo sempre as mesmas? Ou tem cheiro de novidade a cada vez? Perdi a racionalidade... Últimos pensamentos de Gabriela.
Agarrou-se ao homem, louca de fome e sede e ele não se negou a ser vinho e pão.
Vira e ela sentiu o corpo vibrando, o impossível acontecendo num chão de bar, na sem vergonhice da paz do sexo.
Dedos que destrincham caminhos, se tornam únicos e para sempre a primeira vez.
O bar falava alto para encobrir o que não deve ser partilhado em palco, mas vivido no escuso da coxia. O entusiasmo quebrando as barreiras e a liberdade abrindo suas divinas asas num pedido de entra, vai, vem, deixa, aqui, gosto, gozo, ai, juntos, mais. Descanso.
Uma conversa ao pé do ouvido lambido, penetração auditiva e o corpo dizendo que estava pronto, vamos, vem comigo, de que jeito? Na boca, nos seios, o sêmen, creme hidratante. O domínio. De quem sobre quem? Entrega, doação, margem, rio sem fundo, poço, mergulhos, retorno, onda, espasmo. Navegamos.
Afinal estão prontos. Gabriela puxa as palavras, as filosofias, se veste com elas e beija a boca que a pouco a desnudou de tudo. Ele se certifica que mulheres inteligentes têm vida no meio das pernas.
Encontro, pensa Cícero.
Armadilha, ela sussurra.

domingo, 7 de agosto de 2011

PROFETAS TÊM CABELOS BRANCOS




Anda por mundo branco, nem sombra há. Sombras são escuras e escuro não há. Árvores brancas com seus brancos galhos não se silhuetam no ocaso branco.
Lembra vagamente de pessoas. Houveram antes que esta nuvem sem embaço cobrisse o sol, o mal e quaisquer outras vidas, reais ou sonhadas.
É fácil e trágico caminhar sem passado neste branco que deveria ser luz e não é. Talvez seja um sumidouro, boca-de-lobo sugando a espuma de detergentes nitrogenados que escorregam plasticamente sobre as águas do Tietê. Pelo lado bom encobre o que foi um dia água e agora é algo que não se sabe o que é. Sob essa massa gelatinosa e fétida está o vagido de um menino de rua que nunca pode deixar de ser neném, não deu tempo, antes apodreceram os ouvidos.
Começa a rir à bandeiras despregadas ou pregadas em mastros brancos tremulando paz lá em cima, inatingível ou no chão, uma vez despregadas e caídas. Paz um dia houve? Alguns, ou muitos, ou todos, homens com estandartes vermelhos, amarelos, azuis ou todas cores em um só, divisória armada até os dentes contra tudo, ou Deus, podia ser a favor, pelo menos uma melodramática mentira de pregar a decência, o perdão, alforria ou prisão. Qualquer coisa serviria para flamejar a beleza dos estandartes coloridos sob o céu para dizer por que lado se morria.
Procura em herói solitário. Como? Apenas ele é. Resolve lavar o mundo encardido, fundo de panela grudado de gordura Mac Donald’s com sabão a fazer espuma que água nenhuma enxágua. Arranca a ponta dos dedos na tentativa até perceber que os seus não bastam precisariam todos que já tivessem vividos.
De dentro de um buraco com os olhos à superfície veria horizontes por todos os lados, assustadores 360º de nada. Um pensamento branco sussurrou que algo haveria depois, ou antes deles. Estava cansado, caíra neste limbo branco num sonho, era assim que acontecera, tão logo despertasse se reconheceria num sonho colorido.
No tempo que o tempo era, as pálpebras descidas ainda assim traziam algo em torno de claro e escuro, com flashs eventuais, até mesmo moscas luminosas passeavam trazendo notícias de brilhos. Talvez suas pálpebras tivessem caído na lata de leite condensado e não conseguissem se abrir, pesadas e inúteis, viera a noite sem lua e não havia possibilidade de outra coisa atravessar a firme e branca parede açucarada.
No antes do horizonte percebe movimentos em câmera lenta, ou seria apenas um teatro de sombras brancas? Parece que sim e guerras campesinas, campeiras, urbanas, corpo a corpo, teleguiadas mostravam suas esqueléticas sombras. Nem o sangue jorrado aos borbotões era vermelho, já esgotara o carmim dor.
Entre pausas de homens degolados caminha o profeta. Os longos cabelos brancos ao vento sem cor, anuncia novos tempos de fraternidade. Quando terão cabelos ruivos, ou verdes? Crêem tanto que cuidados esquecem e alguma discussão de alcova tórrida desenterra uma e outra e outra bela e sensual Helena por quem vale a pena lutar, morrer e matar.
As helenas se deitam na terra se transformando em estados, países, regiões, campos acres servindo ao mesmo mortal objetivo. Dominadora da arte da manha, manhã sempre vinda, se retraem em notas de dinheiro, muito mais valoroso que o mero papel que dizem não ser feito. Suas múltiplas formas retalham Osíris pelos campos alagadiços de nossos tantos Nilos. Em cada curva uma torneira de sangue e se luta por justa causa até que não sobre vontade de viver.
Petróleo, ouro, diamantes, sede, fome, todos os sobrenomes posteriores a primeira: Helena de Tróia. Tánatos se justificando para realizar à volta da vida, segundo visionários, o fim total de qualquer modo. Momento onde o homem, tomando na mão a foice, antecipa o trabalho para se igualar a um possível e desconhecido criador.
Dói o cotovelo, aperta o sapato no pé. Há algo sob o chão instável. Chama: alguém aí? Nenhuma resposta. É sobre cadáveres que caminha. Um gigantesco Museu do Holocausto, do homem para o homem.
Nunca chora? Por medo? Assombro? Solidão?
Intui que não está sozinho, apenas os mundos não se tocam, não compartilham, nem se abraçam. Nada, a distância é a salvação.
Está num deserto. É isso! Alucina. Cadê o Pequeno Príncipe e sua rosa? Cadê a raposa para responder que a jibóia tinha comido um elefante e chapéu é coisa para quem não sabe ver. Pelo menos uma vez a resposta certa. É essa a resposta? Esse branco sem fim? Armadilha.
O horizonte para trás não importa muito, logo tocará o da frente, haverá gente, vestígios de véus. Idade das Flores se avizinha, a Nova Era, é a hora e a vez de Aquário.
O branco é transição, tudo será paz e amor, maconhavam fugas os hippies felizes enquanto enterravam a pior arma, o dinheiro, em caixões de chumbo. Imagine, orava John Lenon: “Você pode dizer que eu sou um sonhador, mas eu não sou o único. Eu tenho a esperança de que um dia
você se juntará a nós e o mundo será como um só”.
Adeus necessidade de crack, oxi, haxixe, armas, bombas, governos, pele, roupa, insanidade! Não precisamos mais de vocês. Uma única religião, a dos homens, um único chão, a Terra. Prisões virarão estábulos onde vacas de ubres de torneira despejaram leite para todas as cores de fome. As favelas se tornaram belos condomínios de jardins horizontais. A nova rotação do planeta o porá na curva do clima ameno em todos os hemisférios e os ursos polares simplesmente tirarão seu casaco e os pinguins boiarão de barriga para cima em Búzios enquanto engolem raios de sol.
A revolução dos muros e das fechaduras farão com que se atirem das pontes numa água de PH 7.0, sorrindo para o futuro viveiro de peixes. Muito melhor destinos do que aprisionar homens em suas casamatas.
Se ouvia esbanjando para o horizonte além a alegria do sonho afinal possível. Era só atravessar o portal 11:11 e já ouvia a sinfonia das estrelas anãs.
Surgiram os 2 primeiros homens do horizonte tão próximo, preparou-se para comemorar:
“Distância de 40 passos, no sinal atirem ao mesmo tempo.”