segunda-feira, 30 de maio de 2011

SE SOUBESSES

Quanto amor tenho guardado
num cofre chaveado
palavras doces
quentes gestos
esperando...
já meio desarrumados
um pouco mofados
antigos
silenciados.

Se soubesses como espero
vê-los ao sol
ressuscitados
brilhar no escuro da cama
chamar em gemidos teu nome
trocar beijos
ofertar abraços
do esperar já cansados

Se soubesses que longas horas
intermináveis minutos
pousam sobre o telefone calado

Se pudesses ver
meu olhar perdido
de esperança adormecido
Se pudesses sentir minhas mãos vazias
meu peito esfomeado
meu ventre manietado

Talvez soubesses
quanto tempo tardasses.
Vana Comissoli

domingo, 29 de maio de 2011

SORTE GRANDE

Uma em um milhão!
Sabe aquilo que tem tudo pra dar errado, aquele premio que voce nunca vai ganhar, aquela oportunidade que não vai aparecer, a viagem que voce nao vai realizar, o cara certo que você não vai conhecer?
Pois é, todo mundo tem uma chance de ser exatamente o oposto disso tudo que descrevi. E outras coisinhas mais que ninguém acredita que possa acontecer com sua vida.
De repente você pra ajudar o ceguinho compra o bilhete premiado da loteria.
De repente você esta na hora certa e lugar certo.
De repente a sua frase foi a mais criativa no concurso da Maggi e vc ate o fim do mes estará embarcando para Bora-Bora. (E ainda ganha um ano de supermercado pago!) De repente o cara da sua vida eh exatamente o piloto que vai te levar ate a magnífica Polinésia Francesa. (Ah!¬ além do homem certo você ganha um fetiche ambulante, afinal nada como um piloto).
A probabilidade de tudo se encaixar e pequena, mas pode acontecer.
Necessita um mínimo esforço da parte interessada e um punhado de sorte!
Tá, um caminhão de sorte!
Mas o que acontece na real?! Você não vai aquele evento porque esta cansada, você não compra o bilhete porque não tinha trocado, não manda três códigos de barras com sua frase porque acha que todo concurso é marmelada... Nem preciso falar do piloto, afinal você nem embarcou.

Juliana Comissoli

RESVALANDO NAS PONTES




Saiu do buraco de cobras pintassilgando a terra de vermelho. Um vermelho velho e escuro igual aos buracos da saudade que marcavam seus braços gangrenados. Já gritara tanto por socorro que agora demorava a fazer eco dentro do coração que nem gemeu quando viu a luz do lá fora. Era pardacenta e tênue, mais uma teia de aranha que rompe fácil na ponta dos dedos, qualquer ai desfaria tudo e novo buraco com as cobras lúgubres de estranhos e sarcásticos risos se abriria à sua frente. Não haveria ponte que pudesse atravessar. Bastava cair e uma garganta famélica o engoliria sem opção de vomitar, quando muito o regurgitaria para voltar a mastigar no furor da fome insaciável.
Andava na ponta dos pés dos sentimentos atrevidos e permanentes, a ingenuidade ou esperteza demais, o faziam não calar os arroubos, mais e mais, assim permanecia vivo. Fingia aqui e ali que era normal apesar de acordar quando a tarde ia a meio. Fazia de conta que trabalhava enquanto emails desesperados eram enviados de todas as partes do mundo circular onde andava pedindo dinheiro que acabara anteontem. Urgência de tudo e incompreensão de todos. Como alguém poderia entender a alma que buscava amplos campos chafurdando em atoleiros pegajosos, infinitamente cinzentos? De vez em quando uma luz, fogo fátuo a morrer logo ali.
Julgava que caminhava andando em círculos concêntricos cada vez mais apertados, como anda o cachorro atrás do rabo, parte deliciosa de si mesmo. As agulhas poderosas poderiam tirá-lo deste andar cuidadoso onde o medo acompanhava a gargalhada que deveria ser baixa e controlada para pensarem que ria de uma piada vulgar e não da notória falsidade que trazia no bolso. “Você acreditou no que eu disse? É bom, nunca se deve acreditar num homem que não mente”. E ia assim mentindo de grão em grão para encher o próprio papo, o olhar crente do outro a fazê-lo acreditar que era de verdade e não feito de confete e batom que manchavam a camisa e outros escorriam mofados na chuva ácida de suas lágrimas que pensava não existirem mais.
Estava na paz. O fio da navalha de seus sapatos não o incomodava tanto e enchia a boca de comprimidos que engasgavam, mas desciam arranhando a garganta, manietando os buracos cheios de agulhas espetando seu sangue. A crueza era assim mesmo, podia jurar que se sentia bem e lentamente os furos nos braços só deixavam manchas escuras que se pode esconder. Marca indelével do passado que não passa nunca.
Fazia grandes programações onde até caminhadas matinais existiam, sabendo que não existiriam nunca. As saídas noturnas estavam dentro do baú que não abriria. Aqui fora era atravancado e estrategicamente contornado, indo pelos canteiros de flores em vez de caminhar entre o mato que se acumulava nas bordas. Lá dentro acoitavam os insetos gigantes com cabeças humanas espreitando nas esquinas para levá-lo prisioneiro eterno dos buracos fatais.
Ia cobrejando a esmo sem definir o caminho, se mimetizando conforme o interlocutor. Alguns tinham cores surpreendentemente belas e outros, apesar do ouro fosco e por isso mesmo, o encantavam ainda mais. Estava sempre há alguns centímetros do abismo onde os sentimentos seduziam e perdia-se neles num contato atroado, os momentos sem eles se tornavam vazios e descoloridos. Ficava um sapo sem príncipe dentro, coaxar não era seu forte e arrancou o piercing da língua para ver se aprendia, um frio na espinha correu e puxou num safanão para enxergar o sangue que o seduzia ao infinito. Imediatamente viu seus parceiros de cama com os braços lacerados pelas lâminas que produziam os riscos vermelhos que levavam a gritos de orgasmo inigualável.
Cada um é o que é, pensava em momentos de lucidez, se aceitando tal qual era: Um estorvo permanente a si mesmo e não tinha coragem de matar. Deste jeito fugia das noites de becos e ruelas, de festas selvagens cheias de suores e fantasias seminuas por onde andara, lhe dando cada vez mais a sensação que não estava em lugar algum.
Em torno os olhares eram de alívio, embora sempre atentos aos seus gestos como se escravo fosse da vontade dos demais. Era uma estupidez satisfazer aos outros, mas tinham lhe dito que seria o paraíso viver em paz das alfinetadas da mente. Pelo menos para provar que estavam todos errados, se impôs experimentar este novo tipo de tortura, tão acostumado a elas que não deveria ser muito diferente e uma pela outra quem sabe pudesse dormir.
Foi quando o menino desprevenido e puro apareceu vestido de comum lugar virtual. Vinha com aquele sorriso que só se encontra nas crianças bem nascidas de saúde mental, acarinhadas por outra coisa que não a febre que seu pai lhe ofertou numa noite de loucura branca em forma de pó enfileirado.
Poderia se apaixonar por esta visão. Se esforçou bastante, conseguindo afinal encher todos os minutos com ela até que a ansiedade voltou a entupir suas veias de adrenalinemia, deixando-o de sorriso espetado com olhos de segundeiro de relógio.
O menino estava tão distante! Precisava superar várias dificuldades para enraizar este encontro útil e derradeiro em sua vida até então mesquinha, mas daqui para frente gloriosa. Era o que seus instintos metafísicos diziam em cochichados altos brados. O desgraçado do mundo muito caro de atravessar, alguma coisa milagrosa precisava acontecer e o tarô lhe dizia que sim, afinal o definitivo tinha chegado.
Tornou-se urgente e suplicativo aos ouvidos possíveis de levá-lo para tão longe num passe de mágica de cartão de crédito. A interdição imposta por seus atos enlouquecidos o tinha deixado incomensuravelmente longe de qualquer bandeira endinheirada de caixa eletrônico. Foi assim que os dias retornaram ao inferno do “me dá e quero”, derrubando até a muralha da China. Como esta muralha era feita de vime frouxo de mãe quase tão quanto, pronta para ser derrubada por lobo vagabundo. Logo conseguiu seu intento, mas o miserável cartão estava num fundo sem fundo algum e nova peleja se impôs sem solução a menos que...
Remorso e olhar o passado não são coisas que toque a vida para frente, quem quer se estraçalhar faz isso de qualquer maneira, com a ajuda dele ou sem. Tinha sido assim com ele por que outros também não poderiam enfrentar a onça com vara curtíssima? Se há dor, isso não significava nada diante do arsenal bélico do aprendizado. Era por uma causa acima de todas as causas, conforme uma estrela cadente lhe tinha falado sobre este amor que redimia, afinal ali, a um vôo. Precisava alguém ou alguma coisa ser sacrificada, como os sacrifícios eram oferecidos ao deus furioso que aplacava as ondas enormes e engolidoras em priscas eras. O que não acontece se faz acontecer. “Vamos embora que esperar não é saber”.
No dia seguinte estavam na frente do dragão que cuspia fogo lacerante pelas mãos, poros, boca e principalmente pelas intenções reais e executadas. No peito havia um medo, mas um medo banal de pessoas vividas para dentro, com suas próprias agulhadas na iminência de agulhar outra pessoa pelo nariz ou pelas veias, tanto faz.
O Senhor dominante da área cocainômana fazia de conta que era íntimo, isso dá uma segurança bastarda muito elegante e tão falsa quanto um brilhante na bijuteria da atriz. Logo os acertos estavam feitos sem perceber que o buraco desta vez não tinha cobras vulgares, eram todas najas e víboras da melhor espécie, daquele tipo que espreitam antes do bote arguto e envenenador para todo o sempre.
Quem poderá desconfiar de uma camaradagem entre mãe e filho voejando de uma cidade para outra, indo se refrescar no Mediterrâneo como prêmio de férias por amor indissolúvel que vem do ventre e alimenta até a morte? Na bagagem há de ter alguns pertences uma vez que sem roupas íntimas ninguém pode viajar. No meio delas, pacotes muito bem embalados, tão bem que nem um odor vicioso e fugaz haveria de escapar. Não é possível que os cachorros sejam tão cretinos que vão se deixar engambelar por esta quirera, tendo a bolsa uma lingüiça de primeira qualidade, daquelas que, a quilômetros, qualquer cão deseja ardentemente.
Estes Cérberos do inferno!
Logo homens muito grandes, parece até que suas cabeças batem no teto, ou cresceram de repente diante dos olhos atônitos. Também muito fortes, ou fortificados por insígnias federais imensas e duras algemando a consciência dos pulsos.
Grades não são coisas boas de nos defenderem dos buracos e atrás delas se chora um choro longínquo de quem este buraco faltava conhecer.

domingo, 22 de maio de 2011

HISTÓRIA SEM FADAS

Eram 6 horas da tarde quando Amarelo acordou. Tivera uma boa noite invertida, era assim desde que começaram a reforma da Praça da República no centro do centro de São Paulo. Os homi não incomodavam mais e o barulho diurno das máquinas e do trânsito era cantiga de ninar para seus ouvidos zoados. Tinha que descolar algum para comer, a larica estava das pesadas, estava na urgência, sem tempo de encontrar uma velhinha distraída da bolsa para fazer uma parceria imposta de grana. O mais legal seria ir direto para a pequena rua que serpenteava em torno do Copam, aquele prédio batuta que aparece todas as manhãs nas notícias de trânsito encrencado. Sabia das coisas porque sempre parava diante da vitrine 24 horas de TV quando ia dormir. Bem certinho como quem bate ponto depois de descer na estação República do metrô apinhado de gente. São Paulo é assim, quando uns dormem, outros acordam. Não sossega esta cidade?
A turma do comércio diurno estava saindo da labuta, os do turno da noite prontos para entrar em ação. Logo encontrou o Zé do Pinho encapuzado como ela, a cabeça enfiada até os olhos no moletom que um dia foi preto e agora era meio “onde está a cor”. Chapéu não era uma vagabunda qualquer, dava duro, antes de fumar a primeira pedra vendia umas quatro ou cinco, era o trato a cada R$25,00 ganhava uma. Tinha que se puxar, a concorrência era braba. Bem que poderia trabalhar no dia era mais calmo, mas sabe como é, uns são do dia e outros são da noite. O Professor que sabia das coisas tinha ensinado isso e entendia da tal Psicologia. Quem vai duvidar, ele viera da Vieira Couto, tinha casa e tudo, um estudado.
Chapéu não sabia o que estava escrito nas estrela para ela, ora quem vai ler estrelas? Só os babacas que ficam caídos de boca prá cima olhando o céu. Esses eram da pesada mesmo e até espumavam pela boca. Ela não, era sabida e não atolava demais na pedra. Tinha que ter olho vivo para ver se os homi não tinham decidido dar uma de moral para repórter que gosta de ver o nome no jornal nacional. De vez em quando acontecia, ela até já tinha sido atriz, se reconheceu pelo capuz amarelo, ainda bem que a cara não apareceu, era de menor e não gostava da FEBEM. Os camaradas tinham contado que lá era foda, se apanhava igual cachorro sarnento.
Pois é... Sem saber ler estrelas e muito menos o que estava escrito no Tarô que nunca tinha ouvido falar, ela não imaginava que este dia era marcado pelo diabo. Este conhecia bastante bem, digamos que fosse seu amigo íntimo. Pelo menos já se deitaram juntos umas 30 vezes, era dono do pedaço o Diabo Mico, foi com ele que perdeu os tampos aos 13 anos. Isso é apenas detalhe, tampo é para ser perdido mesmo. Refri a gente não tem que abrir para tomar o gostoso? Burrice esperar, a vida é curta. Nesta zona ela é bem curta, ou se morre embaixo de carro vendo preto Audi onde é apenas Fiat velho, ou se morre de tiro perdido por polícia zoado, ou se morre de morte morrida de tanto crack na cabeça. Já estava uma velha de 16 anos, daqui a pouco começava a contar ao contrário e a vida ia encurtando, mais fácil assim e a gente ia pensando que vivia bem mais.
Depois de pegar a trempa procurou a clientela segura, os de fé que eram fáceis e sempre tinham dinheiro, o cara do mercadinho, a guria do sebo e outros deste naipe burguês. Não sabia o que era burguês, mas diziam que eram os bacanas que davam um jeito de ficar no invisível e por a turma na cadeia de vez em quando assim limpavam a própria barra. Isso era chato porque para sair na boa tinha que dar para os guardas e eles reclamavam do cheiro. Ora, estavam pensando que banho era fácil? Tinha que ir ao albergue, coisa filha da puta de chata, eles ficavam na fiscalização para ver se não tinha pedra escondida e quem pode dormir direito de cara limpa deste jeito? Só otário.
O Lobo vinha se balançando todo com aquele ar de Bredi Piti. Adorava o Bredi, tinha visto um filme inteiro onde o cara aparecia peladão o que lhe valeu belas e boas horas de suruba com os três moleques mais legais do pedaço. Dava até para agüentar rodada esticada, mas a pedra rolou solta e desabou. No dia seguinte procurou os malandros, eles estavam em outra e não deu para repetir a dose. Melhor, esse negócio de sexo tinha perdido a graça, a pedra fica com tudo, até a com coceira no meio das pernas.
Pois é, lá vinha o Lobo e ela se ouriçou toda, diziam que o cara era mau e ela estava louca para ver a maldade. Ouvira que ele comia pesado e às vezes até queria comer a avó da gente. Não dava para arriscar porque nem sabia onde andava a velha, nunca tinha visto as fuças dela.
Resolveu parar na lanchonete e choramingar um sanduba, o português quando estava de bom humor e tinha comido bem a mulher de noite, dava um bom demais, com mortadela e tudo. Até passava manteiga. Era um desses dias e se fartou, a sorte é que o estômago não agüentava muito e era uma pena perder iguaria jogando revolta no chão da rua. Ficou ali no hora veja até sentir que a mortadela caía bem e a disposição ficava punck, legal para enfrentar o lobo.
A floresta de concreto estava naquela movimentação, era bicho de todo lado, alguns veados balouçantes, várias hienas, muitas onça tigradas saindo da Boca do Lixo e toneladas de cachorros amestrados. Flores de plástico, coloridas e aveludadas, recheadas de pó se apertavam na mesa do camelô, sempre desejara uma daquelas rosas fosforescentes, ia ficar bem legal enfeitar o chapéu amarelo, a grana nunca chegava nela. Um dia... Quem sabe?
Nem percebera que o relógio batia nas 7 da manhã, seu “dia” passara voando, nem queimara tanta pedra e estava legal.
Atravessou a São João no acostumado da corrida, o Lobo resolvera se movimentar e já descia a avenida. Será que daria um giro pela Vinte e Cinco? Fazer o que? Lá tinha guarda de todo lado, de olho nos rapa para avisar os camelôs sem licença. Os pobres diabos ganhavam uma merreca como polícia e eram obrigados a um trabalhinho extra. Morria de medo, ao mesmo tempo os revólveres presos à cintura a excitavam, devia dar um barato transar com o cano deles, até arrepiou só de pensar.
Se chegou no Lobo como quem não quer nada, perguntou o endereço de uma rua qualquer, ele era entendido da floresta. Foi um cá lá e se amigaram bem legal, o cara estava na falta e topou dar um trato nela, até prá cama de verdade levou a mina.
Chapéu entrou meio desconfiada no quarto, esse negócio de 4 paredes era meio chato porque não tinha para onde fugir se pintasse sujeira, mas o Lobo... Valia a pena o risco. Tomou banho, dizem que perfumosa é mais chamativo e vá que o cara fosse do tipo tarado e enfiasse o nariz lá dentro. Uma tara é bom, os caras da crokô eram bate e volta e não se pode exigir na hora de ganhar uma pedra pelo serviço. Pensando nisso esfregou o sabão com vontade na pechereca que reluziu.
Foi toda se fazendo para a cama onde o Lobo já estava a postos e viu que estava completamente a postos, se assustou um pouco, nunca tinha visto uma disposição daquele tamanho. Tudo bem, a gente tá na roda e tem que deixar rolar.
O cara começou manso, até desanuviou a cabeça e a fumaça foi embora. Ficou bom demais embora batesse doído, tá na chuva é prá se molhar, pensou quando deu o primeiro grito.O Lobo riu alto e disse um monte de palavrão que nem se lembra quais foram, só ficou o “tu ainda não viu nada”. Era nordestino, o desgraçado. Tinha vindo atrás de trabalho e pegou pesado na construção ficando com uns braços que eram umas toras, ou tomava bola, vá lá saber. Virar ela de costas era um assopro e foi assim que Chapéu começou a aprender a ler estrelas. Já tinha feito este negócio de vira-vira, mas não com alguém tão apessoado e sem planejamento.
As tripas se revoltaram porque o Lobo dançava forró em seu corpo quase desfalecido. Ouvia os gritos de “caga, caga” e o riso subindo cada vez mais alto, “quero gozar, vamo lá vagabunda, “não te faz”. Antes de se arriar toda lembrou que tinha estado ali há muito tempo e que o porteiro era o Caçador Verde, não vacilou, berrou por ele. Na lembrança, a voz de Margarida retiniu: O Caçador é de fé, salva a gente se a gente gritar por socorrimento.
A porta abriu num baque se estonteando no chão e nem deu tempo de ver direito o cassetete improvisado abrir a cabeça do homem que brochou na hora com um mundéu de sangue esguichando nas costas dela.
Estrebuchada na cama do Clínicas contava a história toda para o polícia, nem quis saber se o Lobo estava morto ou estrabuchado, balbuciava entremeando cada frase com a lembrança desconexa:
- Moço, salva a minha avozinha que esta ela não aguenta.

sábado, 30 de abril de 2011

A ESMO

Todo mundo tem um mau dia, é o que ouço nas línguas falazes, ninguém sabe o que é um dia escabroso de verdade. Saberão.
Levantei com a cabeça explodindo, se é que levantei de uma noite insone. Melhor assim, pelo menos os pesadelos não me pegariam desarmado no sono dos justos porque sou justo, aos bons o bem, aos maus o castigo a ferro e fogo. E a vara desce no meu lombo depois de ter derramado o único café na toalha de papel. Minha mãe era dessas imbecis que mesmo não tendo toalha alguma, botava folhas de jornal recortadas com corações vazados e chamava de toalha. Sei que na casa dela tinha estas frescuras, depois que casou com o cretino do meu pai de quem nem vi a cor do cabelo já que se escafedeu assim que a barriga apontou.
A barra pesa sozinha com um berrão nos braços, de fome, mas berra do mesmo jeito e o estrondo irrita. Posso compreender porque já apertei um travesseiro na cara de meu irmão que botou o pé na vida chorando que nem eu. Gritou mais o desgraçado e por isso desisti do aperto, naquela época ainda não tinha o conhecimento que tenho hoje. Bobalhão! Seria uma sorte para ele ter se finado antes das surras intermináveis e da fome sem fim, do buraco que a gente morava e não via hora de se mandar.
Se eu tivesse esta história seria bem legal, tenho certeza que os cretinos de plantão que andam à solta por aí ficariam satisfeitos e até chorariam uma ou duas lágrimas de pedra. “Uma vítima da sociedade”, adoro essa frase, cairia como uma luva de pelica, daquelas macias e gostosas. Nem sempre se tem esta sorte, há coisas que não possuem a explicação simplista que as pessoas adoram e se satisfazem. Mingau podre comido pelas beiras, no microondas fica frio no meio, era só esquentar nele. To falando que tem burro prá tudo. É difícil ser diferente, é dureza ser lúcido, depois o cara fica doido e acham ruim.
Não sei muito bem como fazer a coisa direito, não pode ter erro e o final deve ser feliz. Eu mereço que seja, a tarefa que Deus me deu não é mole, mereço as hosanas do dever cumprido. Quem mais Ele escolheria? Poucos, muito poucos são os que Ele pode confiar integralmente, bons o bastante para obedecê-Lo sem covardia. Devo ficar lisonjeado com isso, mais ainda, gratificado. Eu, o Escolhido. Me sacrificarei pela humanidade, embora ela não mereça. Ele sabe das coisas, deve estar consciente que sou o indicado para este trabalho, sou o Jesus desses tempos de perdição. Tempos de Humanidade desconexa e assassina do verdadeiro caminho do Senhor.
Sou um cara de boa aparência, bonitão, diria, ninguém deixará de abrir as portas. Ingênuos, ridículos! Não adianta ficar preso no que eles são, isso já sei desde que me conheço por gente, o negócio é resolver, uma pequena parte, mas resolver. Uma lição a rigor pode despertá-los, tem que sacudir alguma coisa, impossível que não. Já estou escapando de novo. Divergindo, diriam e me chamariam de louco por isso, não sei me objetivar. Quanto já ouvi! Nada de dar pano prá manga, Alberto. Aos planos... Aos planos.
O grande problema será entrar. Jesus entrando na cidade e as pessoas abanando folhas de ramos... “Sou a Verdade e a Vida...” Conseguirei, também trago a mensagem, a minha é de alerta, Sodoma e Gomorra se aproximam do fim, acautelai vos! Será um espetáculo, se eu tivesse chance de chamar os repórteres, mas posso por tudo a perder, farei no silêncio do sacrifício.
Entro procurando informação, ninguém me negará, trarei a chama nos olhos, todos se curvarão. Nada de dúvidas ou temores. Aonde levarei as ferramentas? Numa maleta dá muito na vista, vão querer me interrogar. Guardas, vigilantes... Não posso me expor. Sou cuidadoso, meticuloso... Quantas lacunas! Planejar não é fácil. A roupa... preciso escolher a melhor, não, uma bem comum é o certo, embora eu ache que o ideal seria terno. Preto, nele apareceria meu sacrifício. Acho que na roupa clara, aparece mais. Claro! Experimentar, este é X da questão. Pesquisa de mercado. Derramo catchup na camiseta e vejo o resultado, não faz que manche, será seu último uso. Onde pus a planta? Que distraído. Dizem que sou tenso. Imagina... sou distraído, desligado das quireras do dia a dia. Que me importa se enchem a cara de cocaína? Que assaltam e se matam nas estradas? Eu não dirijo. Mas um dia o castigo vem, ah, se vem.
Preciso pensar no plano.Como sou bom nisso, nem sabia que era, eu não me valorizava. Ninguém me valorizava. Imbecis, vou mostrar para vocês desta vez. Vamos ver quem é o burro, o estranho. Jesus era estranho, falava coisas jamais ouvidas. Os santos sempre são um pouco diferentes da boiada. Quem não sabe disso? O pior cego é aquele que não quer ver.
Já estou fugindo do assunto principal. A roupa está resolvida: calça jeans, camiseta branca. Carrego tudo numa mochila, todo mundo usa mochila. Digo que quero conhecer o lugar para matricular meu filho. Ah, ah, ah... Essa é boa! Eu com filho. Imagina se traria um anjinho para sofrer neste mundo desgarrado. Felizmente a Hora, está soando e logo Ele volta e acaba com tudo. Vamos ver quem tem razão. Pensei em todos os detalhes? Acho que sim, melhor escrever para não escapar nada, estou tão empolgado que posso passar batido por algum ponto nevrálgico.
Os preparativos estão todos prontos, estes 3 dias que faltam se arrastarão. Vou jogar uma bola, tomar um chopp, sentirei saudades dessas coisas. Não posso pensar em mim, é momento de doação, grandiosa, soberba, magnífica. Onde jogarei um futebol? Ninguém me aceita no time, nunca mostrei minha capacidade total, perna de pau, dizem... Vou num clube qualquer, onde não me conheçam, até fica melhor, não verão minha expectativa, claro que aparecerá nos olhos e estarei inquieto. Olho para o chão e faço cara de bobo. Eles adoram alguém desse tipo para achincalhar.
Que ansiedade! Normal, é normal. Não fica ouvindo médico de doidos dizendo que és um deles. Desgraçados, quase que minha mãe acreditou e me trancou numa clínica. Tive que dar um “pára-te quieto” nela, senão obedeceria ao infiel. Que Deus a tenha. Viajou para Curitiba. Vizinhas xeretas, forçam a gente a inventar histórias ridículas. Quem mora em Curitiba? Minha tia que há muitos anos ela não via, saudades, sabe como é.
Este domingo está mais chato do que todos os outros, menos vazio está, os anjos batem asas na sala. É que o relógio não anda, a pilha deve estar velha, estas porcarias que fazem e custa um dinheirão.Se o maligno aparecer para me tentar, não cederei, igual Jesus fez, não esquecerei que descendo Dele. Sou o Deus vivo do século XXI. Nem os vizinhos vêem isso, calmo, dizem que sou, quieto também. Herdou o salário do pai militar, por isso não trabalha, mas lê e escreve o dia todo, cuida do apartamento que tem cheiro de limpeza. Um vizinho dos bons.
Os aromatizantes de ambiente estão caros, mas funcionam bem, encobrem todos os cheiros. Moro sozinho, não preciso me preocupar com estas bobagens de limpa aqui lambe ali e a comida congelada é deliciosa, prática, vai tudo para o lixo depois sem problema nenhum. Talheres descartáveis, guardanapos de papel. A vida moderna simplificou bastante, pelo menos uma coisa boa.
A segunda-feira está chegando. O grande dia. Preciso segurar as mãos que tremem, sou Jesus, Ele não tremeu, pediu que afastassem o cálice, posso tremer um pouco, sei que na hora serei uma rocha. Nem dormi de noite, não tenho cansaço, estou alimentado pelo espírito. Pela Luz.

Foi caminhando calmamente os 3 quilômetros que o afastavam da escola, pela primeira vez cumprimentou as pessoas pelas quais passava. Um sorriso parado nos olhos parados. Algumas se desviaram, talvez sentissem o cheiro de desgraçada frieza que o envolvia.
Entrou de passo firme, sabia o caminho, já treinara várias vezes, o guarda até o cumprimentou, se fez de surdo, esgotara sua cota de gentilezas. A secretária atendeu e ouviu atentamente, nem percebeu que tirava a mochila das costas e abria o zíper. Prontificou-se facilmente a levá-lo numa visita às salas de aula. As crianças estão no recreio? Não, ainda estão na classe é hora da merenda. Talvez tenha pensado que seus cálculos estavam perfeitos. Tudo estava perfeito. Talvez tenha rezado, ou nem precisasse disso, devia sentir a Força na mão, dura e fria. Os dedos brancos do aperto, a ânsia de não falhar, não podia se preocupar em olhar rostos, são todos iguais, não seria ele a escolher, estavam de antemão escolhidos.
Por acaso os anjos foram na frente para decidir quem ficaria em Sodoma? Uns pagam pelos outros, é assim que funciona. Esse pensamento varreu qualquer possível dúvida.
A porta foi aberta e a secretária, bobinha e mal educada, entrou na frente. Foi a primeira.
O som de tiros e tiros, arma jogada ao chão alguns puderam ouvir e contar. O homem saiu correndo depois, deixando um medo insano e a única vontade era sair do inferno, mas quem passasse por ele tombava. Entrou na sala da diretora que não teve tempo de perguntar sobre o que estava acontecendo, caiu em cima dos papéis manchando-os de sangue. Ele sentou-se no pequeno sofá de forma confortável e atirou. Um ponto privilegiado, enxerga-se o pátio onde os menores já estão.
Como se consegue fácil uma submetralhadora? Pergunta tardia. Atirou a esmo até a penúltima bala que mirou a têmpora e o levou embora emborcado sobre si mesmo.

NISSEI...NÃO SEI...

A onda gigantesca se levantou como um braço irado de Netuno, um jogar longe por desacato, tudo que estivesse pela frente. O tridente netuniano ferindo, cortando, estraçalhando revoltado. Nesta hora não tem etnia, capacidade, sexo, nada, o mundo se solidariza com os afrontados.
Uma catástrofe. As vozes apocalípticas se levantaram e cavalgaram os quatro cavalos, aos quatro ventos por todos os meridianos e paralelos. Reforçaram a previsão de que a ensandecida vontade de Deus quicaria na nossa cara a bola de descalabros que fizemos com o planeta. Todo mundo se benzeu como pode ou crê. Se não acredita passou a acreditar e tome sinal da cruz, arruda na orelha, ferradura da sorte e, se facilitar, até algum silício rolou, purgação pelos pecados.
Acompanhou-se o numero de vítimas, as cidades atingidas, o epicentro do fenômeno devastador. Lemos e ouvimos: “... um vagalhão colossal, enegrecido pelos destroços que já carregava, avançou pela cidade de Sendai”... O maior terremoto do Japão trazendo em seu bojo aquele vaga vadia, vadiando de olhos negros. O noticiário atraiu até os jovens de fones enfiados nas orelhas que trocaram a música da pesada. Não se sabia mais qual a importância do fenômeno uma vez que os números de vítimas e as caras desesperadas atraíam tanto a atenção. Riscos no cabo do revólver.
Mais surpresos ainda, chocados?, admirados?, vimos no dia seguinte o povo começar a reconstrução.
Concordo que é de ficar estupefato com os dois acontecimentos. O antes e o depois. Que será que surpreende mais a nós brasileiros? A visão da calamidade ou a incrível e mais surpreendente disposição deste povo acostumado às tragédias, arregaçar as mangas e se por a trabalhar. Um senhor com setenta anos e alguns, voltou ao terreno aonde sua empresa de construção repousava inerte e sonâmbula, começou a limpeza. Cada tijolo uma lágrima, sem dúvida, uma ferida nas mãos, embora japoneses tenham as melhores e preparadas luvas do mundo, mas sangra por dentro, como todos nós, mesmo que não tenhamos olhos puxados e fibra de aço.
Passou uma semana. As capas das revistas a cada dia colocando mães, filhos, e arraso em destaque, as reportagens da mídia gritando o descalabro em todas as cores.
Algum tempo antes o Haiti foi arrasado por um terremoto de menor magnitude, mas o número de mortos foi assombrosamente maior, 300 000 pessoas. No Japão cerca de 1 000. O país miserável tornou-se mais miserável ainda, se é possível. Baby Doc saiu das sombras como cavaleiro quixotesco e se refestelou a comandar ação nenhuma. Trabalhar de pensador é desgastante então traz do bom e do melhor para que as idéias do homem engordem enquanto ele também.
O Haiti jaz na miséria e na fome até hoje. Não existe no horizonte nem o bruxulear de um sol fraco. O Japão sabe quanto tempo levará para se reconstruir. Nenhum japonês pensou em sair de sua terra, há haitianos mendigando um olhar do governo brasileiro, meio acampados em Brasília, pedintes de documentos para trabalhar. Sem comida e sem perspectiva. Ruim aqui, pior lá.
O Haiti é pobre e negro, então...
As calamidades são mel para os sérios e os ridículos, cada um lida com elas à sua maneira. Uns tomam providências para minorá-las da próxima vez e criam mecanismos para que, de alguma forma, possam preveni-las. Os ridículos fazem escarcéu e secam lágrimas, olho atento na TV para assistir a próxima, melhor que novela das 8.
Mas... Espera um pouco,
“No dia seis de Abril de 2010 o Rio de Janeiro presenciou um dos maiores temporais de sua história. O temporal que atingiu o Estado teve início no fim da tarde de segunda-feira, dia 05/04/10 e deixou mais de 100 mortos. As regiões que se encontram próximas ao Centro da capital carioca, e a cidade de Niterói, na Região Metropolitana, foram as mais atingidas, segundo o Instituto de Geotécnica do Município do Rio de Janeiro.”
Durante a madrugada o Rio começou a sofrer com a força da natureza. No município de São Gonçalo, os moradores sofreram muito com os barrancos e com os deslizamentos de terra. Muitos deles tiveram que abandonar suas casas com todos os seus pertences, pois o risco da situação era muito alto.”
As vozes sorumbáticas gritaram aqui também, os quatro cavalos balançaram as crinas de fogo. A morte aproveitou o festim e se esbaldou. O povo todo tremeu e ajudou, caminhões, aviões, carros, de qualquer lado translado do Brasil.
No Japão soou avisos e houve uma calma busca de abrigo. Já sabem que estão sobre uma falha geológica, o Anel de Fogo do Pacífico.
O Haiti, coitado, o aviso da fome de todo dia é soado dentro dos estômagos vazios. Para terremotos, catástrofes, só têm as mãos servindo de escudo.
O Brasil sabe em música, verso e ciência que nas águas de março rolarão cabeças.

Águas de Março
Tom Jobim

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol

Agora se fala, da boca para fora? “Rio terá centro de prevenção a temporais ainda este ano.”
Que beleza! Estamos nos tornando de primeiro mundo, agora já saberemos das mortes anunciadas desde sempre todos os anos. Algum político de olho nas próximas enchentes? Não, nas próximas eleições. Disse:
- Todas as obras de contenção ficarão prontas até dezembro, inclusive a estrada que liga a Prainha a Grumari.
Que piada! Vamos subir a serra fluminense e dar uma espiada? Não dá para subir calmamente, meu amigo, a prefeitura não tem máquinas adequadas para tirar o barro agora ressecado, o povo que ajudava foi ajudar o Japão que sabe se virar sozinho, o Haiti nem pensar em ajudar, é uma bagunça mesmo.
A lama seca cobre as ruas todas, as plantações, que plantações? Estão ao Deus dará. Mas os jornais estão cansados, a TV tem coisa muito mais atual para noticiar e o olho está mais no IBOPE do que em coisas tão antigas e sem graça.
As orações vão direto via Embratel Astral para o Japão. O Haiti ninguém sabe onde fica, se confunde o nome com Taiti e se torna uma beleza paradisíaca. O Brasil é povo divertido, com o pessoal do “jeitinho” nem precisamos nos preocupar.
Deus é brasileiro, dizem, mas parece que os brasileiros são cidadãos do mundo.
Os quatro cavalos troteiam todos os dias sobre nossas cabeças.

domingo, 17 de abril de 2011

PÊSSACH ESPECIAL

Estava intranqüila. A vida era um turbilhão de erros desconformes. Para aumentar ainda mais a pressão, perdera o emprego. Não havia luz. As janelas da alma estavam trancafiadas e não sentia vontade de coisa alguma, muito menos enfrentar a família cobrando uma felicidade inexistente. Sucesso inatingível.
O telefone assustou-a, a sensação de estar sozinha no mundo fazia com que imaginasse que ninguém poderia procurá-la.
Não, pensou rejeitando, era a mãe lembrando-a do Pêssach que reuniria irmãos, primos, primas e tios. A última coisa que desejava neste momento. Arrumar-se, fazer caras e bocas era uma tarefa hercúlea que não queria enfrentar. E não podia negar-se, seria um caos a sua ausência. Famílias judias têm este apego que às vezes pesa, definiu.
Sentia-se oprimida, presa das circunstâncias, a última coisa que desejava era comemorar. Ainda mais um evento que louvava a liberdade e o abandono da escravidão, fosse ela no Egito ou em qualquer lugar do mundo. O mundo estava pequeno e a aprisionava. Ou grande demais?
Chegou o dia fatídico. Contra a vontade preparou a roupa e os acessórios totalmente desmotivada e sem nenhum capricho.
Mal adentrou a casa dos pais e um enxame de alegres familiares a recolheram nos braços. Sacrifício é sorrir sem vontade, dizer que está ótima sentindo-se um lixo. Enfim... “Noblesse oblige”.
Livrou-se das boas-vindas e resolveu se distrair dando uma espiada no Sêder, a ceia do Pêssach. Ao ver sobre a mesa tudo arrumado com esmero e fé, alguma coisa aconteceu. Num instante, como um filme visto muitas e muitas vezes.
Seu povo, ela entre eles, oprimido e escravizado no Egito, sofrendo todas as dores da humilhação e da falta de tudo. Gente sendo tratada como animais. Uma dor muito maior do que seu momento apertou o coração.
As dez pragas que obrigariam o faraó por fim dobrar-se à evidência de que este povo escolhido não seria avassalado por vontade de Deus, passaram com seu rastro de sofrimento e destruição. Deus acima da vontade dos homens castigando a inveja e a cobiça egípcia até a morte de seus primogênitos. Pragas que a ciência explica como fenômenos naturais, mas a fé compreende que Deus não quebra Suas próprias regras e sim usa a Natureza para exprimir Sua vontade.
A garganta secou na longa e penosa travessia do deserto e compreendeu que seu pequeno instante reproduzia essa marcha forçada em busca da redenção em si mesma, terra prometida. E que só a maturidade construída através de 40 simbólicos anos de provação consegue atingir.
Viu sua vida repartindo-se como o Mar Vermelho se abriu dando passagem aos filhos de Davi. Indo ao encontro da Libertação.
No centro da mesa a bandeja com os três matzot, o pão ázimo tão significativo representando as três tribos originais, Cohanim, os sacerdotes, Leviim, os estudiosos e Israel, o povo. Eram suas raízes mais profundas.
Os olhos redimensionaram os símbolos ali dispostos como se em verdade tivesse vivido aquelas antigas histórias e em verdade as vivera.
O pedaço mais obscuro do corpo do frango, simbolizando o poder de Deus retirando os judeus do Egito. Zeroá é seu nome e Iahweh seu pastor. Perdidas na imensidão do inconsciente as vozes vieram à tona e ela sentiu o poder de Adonai dentro de si, libertando-a dos pesados laços de injunção que a manietavam.
Betsá - Ovo cozido, colocado na parte superior à esquerda da bandeja, simbolizando a lembrança do sacrifício que se oferecia em cada festividade. Uma das inúmeras idéias relacionadas com o ovo colocado como símbolo na travessa do sêder é de que, normalmente, um alimento quanto mais é cozido, mais macio se torna. No caso do ovo é o contrário; quanto mais se coze, mais duro se torna.
Assim é o povo judeu: quanto mais é oprimido ou afligido, como ocorreu no Egito e ao longo da história humana, mais fortalecido e numeroso se torna.
Se Israel tivera a coragem de reagir ela também poderia fazê-lo. Fortalecer-se na fé e tornar-se numerosa em sua força. Essa era mensagem que recebia.
Pela primeira vez a ressonância do Pêssach era muito mais que uma tradição milenar e um momento de cânticos de hosanas, era uma onda de movimentos intensos dentro dela. Rompendo diques e libertando as águas aprisionadas de seus impedimentos.
Marór era sua própria escravidão aos embates da psique. Erva amarga. No entanto, ao comê-la, estaria revivendo a força de seus antepassados quando lutaram contra a dor e a venceram.
A mistura de nozes, amêndoas, tâmaras, canela e vinho, Charósset, colocada na parte inferior à direita da bandeja, representando a argamassa com a qual os judeus trabalharam na construção das edificações do faraó. A argamassa com as quais os tijolos de si mesma foram se ajustando até chegar neste momento de iluminação diante da mesa do Pêssach. Era a mesma etimologia egípcia, isto é “golpe”, agora interpretada como “Iahweh que salta, ultrapassa, poupa protege” as casas dos israelitas marcadas com o sangue da vítima pascal.
Ela era uma vítima das ciladas psíquicas e Deus a impulsionava a saltar sobre elas, protegendo-se delas e renascendo para a Libertação.
Mistérios de Deus.
O Povo de Israel recebeu e aceitou a Toráh no Monte Sinai, com fidelidade e lealdade, dizendo:
- “Faremos e ouviremos”.
Ela também faria e ouviria.
Seguiu a peregrinação do Sêder como o único caminho possível para a salvação de ser.
À volta o mundo tinha emudecido. Todos a observavam enquanto seus lábios se moviam em devota oração a Deus. Um toque de extrema santidade envolvia sua contrição e permeava a família. Uma reverência, um reconhecimento da Presença Divina.
Karpás - O salsão, colocado embaixo, à esquerda. Essa verdura, molhada em vinagre ou água salgada, serve para dar o “sabor” do Êxodo. Lembra o hissopo (Ezov) com o qual os israelitas aspergiram um pouco de sangue nos batentes de suas casas, antes da praga dos primogênitos
- Lave-se de meu sangue a minha dor e nasça de mim o primogênito da nova geração dos Libertos. – As palavras vinham como que sopradas pelo anjo que os desviara da morte há milênios atrás.
Chazéret - A escarola colocada sob o Marór para ser mergulhada na água salgada, referência às lágrimas vertidas. Ao mar do inconsciente que se abria dentro dela trazendo a paz e a segurança. Dique rompido.
Estava purificada, podia agora começar o ritual sagrado do Pêssach. Levantou o vinho kosher reverencialmente. Praticou a Urhas não apenas na ablução das mãos, mas do espírito. Cada hino de louvor, um louvor interno de gratidão pela presença inesgotável de Deus, o Impronunciável, dentro de seu coração. Cada passo ritualístico, um degrau vencido.
Enfim, Haliel. Então agradeceu ao Senhor Deus pela ceia pascal através da qual reviveu o milagre da liberdade. Encheu um copo de vinho (o quarto), e bebeu depois de ter recitado os salmos chamados de hallel.
No fim de tudo abriu a porta, para favorecer a entrada de Elihau Hanavi, o mensageiro e fez a Nirsah, aceitação total.
Anunciou o término da ceia pascal e pediu a Deus que seja sempre o libertador de Israel. O Israel que mora dentro de cada um de nós.
Chegara à Terra Prometida de seu Eu maior.
Vana Comissoli