Foi apenas um filme, falava de morte e de vida, esta bruxa ou fada que nos carrega pela mão nos fazendo rir ou chorar, brincar ou pecar, amar e nem tanto. Isso tudo sem pedir licença e sem aviso prévio. Mas foi lindo, suave e leve como não dá para imaginar num filme deste teor.
Maria Clara saiu do cinema rindo sozinha, meio sem ver nada, ou quem sabe vendo mais do que poderia um dia imaginar ver. Não se incomodou com o calor sufocante da rua como não tinha se incomodado com o ar condicionado enregelante do shopping.
Fora uma noite surpreendente, isto por que, por traumas passados odiava ir ao cinema sozinha, aliás como odiava qualquer coisa sozinha e agora não mais, nem se dera conta que fazia quase tudo acompanhada dela mesma e isso não perturbava, pelo contrário, abria espaço para ser cada vez mais ela mesma. Ninguém para implicar com restaurante onde comera degustando cada pedaço do wraps acompanhado daquela fantástica coca zero com gelo e limão. Caminhara por entre as lojas, shopping ela também odiava, achando bom o colorido caótico das vitrines misturadas e sob a luz branca e constante.
Fazia tempo que a leveza não a pegava assim desprevenida, deixando-a sem nenhuma resistência para se sentir bem. Não se pusera a cantarolar como é lugar comum nas novelas, tampouco endoidara os transeuntes com sorrisos sem quê nem por que. Nem ficara boba cumprimentando as pessoas e distribuindo amendoim. Quem a visse não desconfiaria de seu estado de espírito. Continuava senhora pelo lado de fora, apenas perturbava um pouco o vestido cheio de cores e a postura sem idade. Perturbava os bobos da corte que anseiam agradar ao rei de plantão e estipulam comportamentos adequados e outros fora de quadro, com isso enquadrando todo mundo num estereotipado bem longe da realidade.
O filme despertara não sei o que, uma mágica esquecida que lhe dava a certeza de poder tocar o pote no fim do arco-íris onde as moedas de ouro nem de ouro eram, mas de sorrisos e carícias compridas como nunca tivera. E assim acreditou que João ou José, ou o sem nome caminhava ao seu encontro com chapéu de plumas.
Não se espantou ao ver o homem fazer mesura à sua frente e tirar o chapéu emplumado num gesto mais cabível no reino da Dinamarca. Vestia calças bufantes de veludo e a camisa branca tinha detalhes de renda com uma vistosa gravata de laço em azul profundo. Retribuiu o cumprimento, dobrando um pouco a perna e arrebanhado as saias de cetim numa proeza a lá 1500.
Logo se deram os braços e para escândalo geral dançaram uma valsinha suave como a música de Chico Buarque, ou talvez não fosse dele? Não sabe como as luzes diminuíram e um tom alilazado cobriu de sensualidade o espaço em que estavam deixando os demais de fora e gelados de bom comportamento.
Não pensou nem por um momento que fosse alucinação ou toque de mágica, se deixou levar pelo desaviso, ou descabido como se tudo estivesse dentro da maior normalidade e que Miguel era mesmo verdadeiro ao seu lado apesar do cheiro de pizza que exalava como um bom e plausível homem do século XXI. A peruca de cachos e bucles encobriam os cabelos levemente grisalhos apesar do tempo que já andara por eles o que era absolutamente normal na corte francesa de onde surgira. Inglês não era, não tinha aquele nariz de quem sente mal odor em todas as coisas e tampouco norueguês ou sueco por que a fala era em bom português brasileiro, marcada por algumas gírias e alguns palavrões apropriados, nenhum deles dirigido a ela. Para ela só tinha minha deusa, ou minha princesa e era assim mesmo que se sentia, por menos não deixaria nesta hora de tão pouco escândalo e tanta seda.
Saiu à rua rindo disso tudo e sem entender como aquele filme gostoso que assistira apertada entre gente desconhecida e precisando cuidar para não descansar o braço em cima de braço alheio, pusera este tique surreal em seus olhos e uma fascinação dentro do peito.
Já era tarde e estava sem carro, emprestado para o filho, nem ligou de esperar o ônibus e ouvir o reclame das moças do shopping cansadas do trabalho e loucas para chegar em casa fugidas da matéria plástica do shopping que aguentavam todos os dias com um sorriso também de plástico.
Até fumou um cigarro para encompridar a sensação de eminente encontro com o príncipe encantado ou nem tanto que, com certeza, aconteceria ali na esquina apesar do pipoqueiro não deixar muita margem a encontros românticos em meio a cheiro de manteiga e chocolate quente de milho estourado.
Não lembrava o nome da Bela Adormecida pelo qual certamente mudaria o seu, mas estava certa que alguma coisa bela acordara nela nesta noite que não é de filme, mas feita da mais pura vontade.
Se deu conta de repente que ontem a noite era de lua cheia o que a pusera na janela a espiar e para seu assombro que nunca via, uma estrela riscou o céu e nem era estrela de verdade, mas um meteoro ou meteorito, o tamanho não importava, só importava que fez aquele pedido bem do jeito que tudo acontecera hoje no faz de conta de sua alma.
Vana Comissoli
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
domingo, 23 de janeiro de 2011
A VISITANTE
Saiu do estado de letargia mantido durante os últimos três nyens. Alphonsus estava debruçado sobre ela, os olhos brilhantes de euforia. Ajudou-a a levantar e, com um gesto rápido, convidou-a a observar.
O grande visor abriu-se. Boiando no intenso negror estava o planeta azul imerso em sua fantasiosa harmonia, ainda assim belo e convidativo. Impossível deixar de sentir sua atração.
― É Gaia!
― É linda!
Uma emoção forte e primitiva tomou conta de Astene. Num segundo, milhares de vidas passaram por seus sensores e uma palavra estranha, sonora, tomou forma: Saudades. Virou-se para o companheiro perguntando:
― O que é saudades?
Alphonsus arregalou os olhos galácticos e profundos numa negação surpresa. Apertou um botão sobre a mesa de informações, uma tela se iluminou e desenhou em caracteres angulosos:
“Lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas dis-tantes ou extintas acompanhadas do desejo de tornar a vê-las.”
Uma imagem desconhecida, ou guardada no fundo da psique, nebulosa, veio à mente de Astene, com ela a nostalgia suave daquilo que se deseja novamente, já tocado e perdido.
A nave pousou com serenidade, tudo funcionava a contento.
Não foi a primeira a desembarcar, havia hierarquia, ela era apenas uma estudiosa aplicada que recebera como prêmio, a oportunidade de acompanhar a expedição.
A terra era verde e selvagem. Um fogo de vida e indisciplina brotava numa inquietante magnitude. Cacto vicejante, pleno de seiva alimentadora, para quem saiba escolher, senão... A morte.
Pequenos seres escuros e sorridentes os recepcionaram em festa. Todos se incorporaram à beatitude do momento. Apenas Astene continha dentro do peito um terror mágico. Uma premonição. Tentava fechar os olhos oblíquos para que não pudessem ler através deles o desvario e a ansiedade, tão desconectados com a rígida disciplina aprendida.
Escreveu em seu diário de experiências:
“Sou Astene, faço minha primeira missão, pensei encontrar mundos externos a serem desbravados, catalogados e transmitidos. Encontro o fervilhar de meu sangue e a impossibilidade de reportar-me aos tranqüilos sítios da meditação, como se tudo não passasse de uma viagem para dentro de mim. Perco minhas referências e percebo que... Não é possível que eu tenha sonhado. Sei de onde vim e onde estou. Não há psique forte assim, as coisas estão realmente acontecendo. Não é alucinação".
Tudo foi muito rápido. O reconhecimento da área, o encontro camuflado com os habitantes. A serenidade sendo retomada e a sensação de iminência se diluindo, até que todo sentimento parecesse um pesadelo.
“Hoje faremos contato direto. Estejam equilibrados e protegidos das violen-tas ondas emocionais que os terráqueos transmitem.” O instrutor foi incisivo en-quanto lançava olhares perscrutadores, nos punha transparentes. Abaixei-me para fechar a bota absolutamente composta.
Chegamos a uma sala apertada, as paredes oprimiam e eram tão densas que mal e mal podíamos vislumbrar o céu através delas. Reunidos em torno de mesa rude, ainda de madeira, encontramos seis terráqueos absorvidos em visões infantis e diluídas. Brincavam com suas energias tentando despertá-las e manterem-se organizados com elas. Volta e meia um deslizava e perdia a suave luz azul alaranjada.
Eu demorei a enxergá-los como individualidade, ao restringir meu campo de percepção eu o vi.
As mãos rebeldes postas sobre o colo, a testa ampla revelando sua procedência evidente, os olhos inquietos sob as pálpebras cerradas. Imediatamente percebeu-me. O coração disparou e um arrepio de premonição rompeu a possibilidade de concentrar-se. Os lábios moveram-se no enunciar de nome perdido e logo a luz violácea da nostalgia se consolidou em torno dele.
Voltei muitas vezes, meus mestres sorriam, compreensivos. Afinal toquei as cordas afinadas de sua percepção e ele tornou-se brilho rosa-fogo. Entrei cambaleante, em seu chakra básico e perdi as referências e os parâmetros. Enlouqueci. Nossos corpos rolaram no etéreo, bruxos e resplandecentes.
Conheci a nudez e jatos róseos avermelhados fulgiam em minhas pernas. O ventre, incandescente, dominava minha vontade. Ele também nu, os braços abertos e o peito como cama macia. Consciente sobre o estado de nudez soube que era apenas parte neste momento.
Abraços, beijos, sempre e sempre mais internos, me levaram, devagar, por mundos nunca cavalgados. Não fui sozinha, ele me acompanhava.
Meu corpo, novamente na velha dimensão, foi buscado. Um contato lento. Um roçar de lábios, uma mão na pélvis, encostar de peitos e depois a expansão. Viajei nas galáxias, vi sóis e mares, reconheci-me no Universo e de dentro de mim um jorro de luz. Fiquei em paz e olhei meu companheiro de viagem, entendendo no seu cansaço o mesmo encontro. Descobri a outra parte, unindo-as senti o Todo.
A nave subiu sem ruído. Eu, no dorso da terra, observava meus irmãos que partiam. Encolhi-me. Perdia muito e ganhava outro tanto, fugi da consciência. Tor-nei-me parte que busca parte.
Vana Comis-soli
O grande visor abriu-se. Boiando no intenso negror estava o planeta azul imerso em sua fantasiosa harmonia, ainda assim belo e convidativo. Impossível deixar de sentir sua atração.
― É Gaia!
― É linda!
Uma emoção forte e primitiva tomou conta de Astene. Num segundo, milhares de vidas passaram por seus sensores e uma palavra estranha, sonora, tomou forma: Saudades. Virou-se para o companheiro perguntando:
― O que é saudades?
Alphonsus arregalou os olhos galácticos e profundos numa negação surpresa. Apertou um botão sobre a mesa de informações, uma tela se iluminou e desenhou em caracteres angulosos:
“Lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas dis-tantes ou extintas acompanhadas do desejo de tornar a vê-las.”
Uma imagem desconhecida, ou guardada no fundo da psique, nebulosa, veio à mente de Astene, com ela a nostalgia suave daquilo que se deseja novamente, já tocado e perdido.
A nave pousou com serenidade, tudo funcionava a contento.
Não foi a primeira a desembarcar, havia hierarquia, ela era apenas uma estudiosa aplicada que recebera como prêmio, a oportunidade de acompanhar a expedição.
A terra era verde e selvagem. Um fogo de vida e indisciplina brotava numa inquietante magnitude. Cacto vicejante, pleno de seiva alimentadora, para quem saiba escolher, senão... A morte.
Pequenos seres escuros e sorridentes os recepcionaram em festa. Todos se incorporaram à beatitude do momento. Apenas Astene continha dentro do peito um terror mágico. Uma premonição. Tentava fechar os olhos oblíquos para que não pudessem ler através deles o desvario e a ansiedade, tão desconectados com a rígida disciplina aprendida.
Escreveu em seu diário de experiências:
“Sou Astene, faço minha primeira missão, pensei encontrar mundos externos a serem desbravados, catalogados e transmitidos. Encontro o fervilhar de meu sangue e a impossibilidade de reportar-me aos tranqüilos sítios da meditação, como se tudo não passasse de uma viagem para dentro de mim. Perco minhas referências e percebo que... Não é possível que eu tenha sonhado. Sei de onde vim e onde estou. Não há psique forte assim, as coisas estão realmente acontecendo. Não é alucinação".
Tudo foi muito rápido. O reconhecimento da área, o encontro camuflado com os habitantes. A serenidade sendo retomada e a sensação de iminência se diluindo, até que todo sentimento parecesse um pesadelo.
“Hoje faremos contato direto. Estejam equilibrados e protegidos das violen-tas ondas emocionais que os terráqueos transmitem.” O instrutor foi incisivo en-quanto lançava olhares perscrutadores, nos punha transparentes. Abaixei-me para fechar a bota absolutamente composta.
Chegamos a uma sala apertada, as paredes oprimiam e eram tão densas que mal e mal podíamos vislumbrar o céu através delas. Reunidos em torno de mesa rude, ainda de madeira, encontramos seis terráqueos absorvidos em visões infantis e diluídas. Brincavam com suas energias tentando despertá-las e manterem-se organizados com elas. Volta e meia um deslizava e perdia a suave luz azul alaranjada.
Eu demorei a enxergá-los como individualidade, ao restringir meu campo de percepção eu o vi.
As mãos rebeldes postas sobre o colo, a testa ampla revelando sua procedência evidente, os olhos inquietos sob as pálpebras cerradas. Imediatamente percebeu-me. O coração disparou e um arrepio de premonição rompeu a possibilidade de concentrar-se. Os lábios moveram-se no enunciar de nome perdido e logo a luz violácea da nostalgia se consolidou em torno dele.
Voltei muitas vezes, meus mestres sorriam, compreensivos. Afinal toquei as cordas afinadas de sua percepção e ele tornou-se brilho rosa-fogo. Entrei cambaleante, em seu chakra básico e perdi as referências e os parâmetros. Enlouqueci. Nossos corpos rolaram no etéreo, bruxos e resplandecentes.
Conheci a nudez e jatos róseos avermelhados fulgiam em minhas pernas. O ventre, incandescente, dominava minha vontade. Ele também nu, os braços abertos e o peito como cama macia. Consciente sobre o estado de nudez soube que era apenas parte neste momento.
Abraços, beijos, sempre e sempre mais internos, me levaram, devagar, por mundos nunca cavalgados. Não fui sozinha, ele me acompanhava.
Meu corpo, novamente na velha dimensão, foi buscado. Um contato lento. Um roçar de lábios, uma mão na pélvis, encostar de peitos e depois a expansão. Viajei nas galáxias, vi sóis e mares, reconheci-me no Universo e de dentro de mim um jorro de luz. Fiquei em paz e olhei meu companheiro de viagem, entendendo no seu cansaço o mesmo encontro. Descobri a outra parte, unindo-as senti o Todo.
A nave subiu sem ruído. Eu, no dorso da terra, observava meus irmãos que partiam. Encolhi-me. Perdia muito e ganhava outro tanto, fugi da consciência. Tor-nei-me parte que busca parte.
Vana Comis-soli
O HOMEM DE MEUS SONHOS
Tudo que desejo é encontrar um desses homens maduros e gostosos, que não desejam um instante, mas tantos passos quanto a harmonia permita.
Não desejo uma barriga tanquinho, sim uma barriga que saiba balançar alegremente de riso.
Não busco uma performance sexual, mas um beijo carinhoso depois.
Não quero que pinte os cabelos por que grisalho tem um charme artístico que me fascina.
Não anseio um homem que carregue um peitão siliconado pelo braço para provar que ainda seduz, quando na verdade foi seduzido pela ilusão de que um jovem amor pode voltar o relógio do tempo.
Quero um homem que saiba validar as estradas por onde andou, a sabedoria que absorveu e me fale, num jantarzinho em casa ou num restaurante discreto que toque MPB e tenha velas na mesa.
Quero a emoção que só um homem vivido sabe ter e que reconhece sua importância.
Quero um homem que não tenha vergonha de se emocionar numa passagem dolorosa de filme e que aperte minha mão neste momento como quem diz: pode chorar, eu entendo e também deixei correr meu sentimento pelos olhos.
Não quero um homem para me deixar de língua de fora na cama, mas que saiba prolongar um gozo só por nós vividos neste momento.
Não quero um homem que só saiba dizer adeus, mas que tenha aprendido a validade de um volto logo.
Quero um homem que já tenha lido poesia e ache lindo. Que conheça Fernando Pessoa e me deixe ler em voz alta, mesmo me achando um pouco criança e não rindo por eu ser isso mesmo.
Quero um homem que assista sem culpa ou cobrança o seu jogo de domingo e não faça polêmica por que saí com uma amiga já que não sou fissurada por futebol.
Quero este homem que conhece os caminhos das praças e não me dê dinheiro para eu comprar um presente, mas me traga este presente sem muita certeza se acertará.
Quero um homem que acredite em sonhos em todas as idades sabendo que eles mudam de teor e forma
Quero aquele se descobriu a delícia de ser naturalmente elegante e não seja fanático por Hugo Boss e nem pense que uma etiqueta possa lhe conferir charme.
Quero que seja espontâneo e não faça cara de mau para impressionar. Que sinta um pouco de medo já que é um sentimento comum a todos nós em alguns momentos.
Quero um homem que não me ate achando que voarei, mas tenha a certeza que é meu pouso.
Quero este cinqüentão, ou sessentão que sabe que o menino dentro dele é o mesmo de sempre.
Quero um homem que saiba rir alto e chorar também, que dê e saiba receber. Um homem que traga flores e não se aflija por que esqueceu.
Não precisa cozinhar, mas, se souber, não faça disso mais trunfo para dizer que se basta e é o cara.
Quero que leve café na cama e adore receber fingindo que está dormindo
Quero que se sinta maravilhoso de terno e gravata e não menos de bermuda e camiseta.
Quero um homem que saiba ficar calado e também fale animado quando tiver vontade.
Não quero um professor me ensinando o tempo todo, mas discípulo tanto quanto eu.
Que dirija bem e não se ache o Ayrton Sena, que não diga que mulher é terrível na direção quando eu der alguma rateada que provavelmente ele também já deu
Quero um homem com agá maiúsculo e não um boneco estereotipado pela novela das oito.
Quero enfim, um homem que já tenha aprendido que a vida é preciosa em qualquer idade e que todas elas são tempo de amor.
Não desejo uma barriga tanquinho, sim uma barriga que saiba balançar alegremente de riso.
Não busco uma performance sexual, mas um beijo carinhoso depois.
Não quero que pinte os cabelos por que grisalho tem um charme artístico que me fascina.
Não anseio um homem que carregue um peitão siliconado pelo braço para provar que ainda seduz, quando na verdade foi seduzido pela ilusão de que um jovem amor pode voltar o relógio do tempo.
Quero um homem que saiba validar as estradas por onde andou, a sabedoria que absorveu e me fale, num jantarzinho em casa ou num restaurante discreto que toque MPB e tenha velas na mesa.
Quero a emoção que só um homem vivido sabe ter e que reconhece sua importância.
Quero um homem que não tenha vergonha de se emocionar numa passagem dolorosa de filme e que aperte minha mão neste momento como quem diz: pode chorar, eu entendo e também deixei correr meu sentimento pelos olhos.
Não quero um homem para me deixar de língua de fora na cama, mas que saiba prolongar um gozo só por nós vividos neste momento.
Não quero um homem que só saiba dizer adeus, mas que tenha aprendido a validade de um volto logo.
Quero um homem que já tenha lido poesia e ache lindo. Que conheça Fernando Pessoa e me deixe ler em voz alta, mesmo me achando um pouco criança e não rindo por eu ser isso mesmo.
Quero um homem que assista sem culpa ou cobrança o seu jogo de domingo e não faça polêmica por que saí com uma amiga já que não sou fissurada por futebol.
Quero este homem que conhece os caminhos das praças e não me dê dinheiro para eu comprar um presente, mas me traga este presente sem muita certeza se acertará.
Quero um homem que acredite em sonhos em todas as idades sabendo que eles mudam de teor e forma
Quero aquele se descobriu a delícia de ser naturalmente elegante e não seja fanático por Hugo Boss e nem pense que uma etiqueta possa lhe conferir charme.
Quero que seja espontâneo e não faça cara de mau para impressionar. Que sinta um pouco de medo já que é um sentimento comum a todos nós em alguns momentos.
Quero um homem que não me ate achando que voarei, mas tenha a certeza que é meu pouso.
Quero este cinqüentão, ou sessentão que sabe que o menino dentro dele é o mesmo de sempre.
Quero um homem que saiba rir alto e chorar também, que dê e saiba receber. Um homem que traga flores e não se aflija por que esqueceu.
Não precisa cozinhar, mas, se souber, não faça disso mais trunfo para dizer que se basta e é o cara.
Quero que leve café na cama e adore receber fingindo que está dormindo
Quero que se sinta maravilhoso de terno e gravata e não menos de bermuda e camiseta.
Quero um homem que saiba ficar calado e também fale animado quando tiver vontade.
Não quero um professor me ensinando o tempo todo, mas discípulo tanto quanto eu.
Que dirija bem e não se ache o Ayrton Sena, que não diga que mulher é terrível na direção quando eu der alguma rateada que provavelmente ele também já deu
Quero um homem com agá maiúsculo e não um boneco estereotipado pela novela das oito.
Quero enfim, um homem que já tenha aprendido que a vida é preciosa em qualquer idade e que todas elas são tempo de amor.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
ESCRITOR NOVATO
Escritor, ao contrário da magnífica aura que se criou em torno da atividade, é um bicho chato paca. Escreve tudo que passa pela cabeça e filosofa. Como filosofa!! Depois manda para todo mundo.
A muitos ele enche a paciência por que não estão nem aí para questionamentos, divagações e críticas, ou estão soterrados de trabalho e de saco cheio de estar na frente do computer.
As escrevinhações são de todas as etiologias, pode crer. Desde o cosmo até o mais ínfimo grão de areia. Política e Brasil é o que mais gostamos, incluindo claro, religião e Deus. Serve-nos também assuntos sérios ou humorísticos, relacionamentos e sua dinâmica. Traquitana antiga ou antevisões futurísticas. Tudo serve. Tudo são letras em movimento.
Eu incomodo especialmente escrevendo sobre todas as Dependências. As dos outros principalmente. Olhar o sufoco alheio é bem mais fácil. Espelho torto onde fantasio que não sou passível de escorregões estratosféricos.
Quem gosta de escritor é outro escritor. Normalmente são as pessoas que mais lêem por isso se amam, animais estranhos no paraíso da imbecilidade chamado Terra.
Quem gosta de escritor é outro maluco com a diferença que não escreve com letras legíveis, escreve, reescreve no bulício de seus pensamentos, nas indagações intermináveis de seus questionamentos e na busca do que é quase sem resposta.
No Brasil quem gosta de escritor é mimoseado com o título de rato de biblioteca. Rato, esse bichinho repugnante que ninguém deseja por perto. No Brasil ler é perder o BBB não sei que número para afofar mentalmente bundas, peitos e picas duras dos outros já que provavelmente não funcione bem com nenhum desses elementos vitais.
Uni-vos, escritores brasileiros, cheios de garra e com tão pouca valorização nas terras tupiniquins. Bons são os de fora, das terras civilizadas, onde se escreve qualquer bobagem, se edita e se é lido. Brasileiro reclama, mas gosta de se menosprezar. Nada daqui é bom, só o que vem de fora merece atenção. Ou um que outro Paulo Coelho falando de mágicas pseudo-reais e outras plagiadas como sabemos.
A onda dos vampiros parece um tsunami e penso se estamos tão perdidos que só a ficção total aguentamos por que a realidade é dura e não queremos olhar para ela de frente. Isso dá trabalho, teríamos que fazer alguma coisa, no mínimo pensar no mundo que criamos.
Alguns dizem que o livro desaparecerá, o computador, mais fácil, deletável o substituirá e fico feliz em lembrar a declaração de Humberto Eco: “Tudo que eu quiser dizer seriamente colocarei no papel.”
Talvez venha uma nova “queima às bruxas” e veremos nossos amados filhos de papel torrando no meio da rua. Não é ficção, vêem-se movimentos do governo que desembocarão nisso. Melhor não esperar para ver e gritar antes:
QUERO FALAR! QUERO EXISTIR EM MINHAS PALAVRAS!
Grande Fernando Pessoa dizendo:
“Quem não entende uma palavra, não pode entender uma alma.”
Está na hora de escritor brasileiro deixar de se encolher, não permitir que apenas as traças leiam suas letras santas.
Está na hora do Brasil se alfabetizar e aprender o beabá não que sejam apenas três letras: N Ã O!
Vana Comissoli
A muitos ele enche a paciência por que não estão nem aí para questionamentos, divagações e críticas, ou estão soterrados de trabalho e de saco cheio de estar na frente do computer.
As escrevinhações são de todas as etiologias, pode crer. Desde o cosmo até o mais ínfimo grão de areia. Política e Brasil é o que mais gostamos, incluindo claro, religião e Deus. Serve-nos também assuntos sérios ou humorísticos, relacionamentos e sua dinâmica. Traquitana antiga ou antevisões futurísticas. Tudo serve. Tudo são letras em movimento.
Eu incomodo especialmente escrevendo sobre todas as Dependências. As dos outros principalmente. Olhar o sufoco alheio é bem mais fácil. Espelho torto onde fantasio que não sou passível de escorregões estratosféricos.
Quem gosta de escritor é outro escritor. Normalmente são as pessoas que mais lêem por isso se amam, animais estranhos no paraíso da imbecilidade chamado Terra.
Quem gosta de escritor é outro maluco com a diferença que não escreve com letras legíveis, escreve, reescreve no bulício de seus pensamentos, nas indagações intermináveis de seus questionamentos e na busca do que é quase sem resposta.
No Brasil quem gosta de escritor é mimoseado com o título de rato de biblioteca. Rato, esse bichinho repugnante que ninguém deseja por perto. No Brasil ler é perder o BBB não sei que número para afofar mentalmente bundas, peitos e picas duras dos outros já que provavelmente não funcione bem com nenhum desses elementos vitais.
Uni-vos, escritores brasileiros, cheios de garra e com tão pouca valorização nas terras tupiniquins. Bons são os de fora, das terras civilizadas, onde se escreve qualquer bobagem, se edita e se é lido. Brasileiro reclama, mas gosta de se menosprezar. Nada daqui é bom, só o que vem de fora merece atenção. Ou um que outro Paulo Coelho falando de mágicas pseudo-reais e outras plagiadas como sabemos.
A onda dos vampiros parece um tsunami e penso se estamos tão perdidos que só a ficção total aguentamos por que a realidade é dura e não queremos olhar para ela de frente. Isso dá trabalho, teríamos que fazer alguma coisa, no mínimo pensar no mundo que criamos.
Alguns dizem que o livro desaparecerá, o computador, mais fácil, deletável o substituirá e fico feliz em lembrar a declaração de Humberto Eco: “Tudo que eu quiser dizer seriamente colocarei no papel.”
Talvez venha uma nova “queima às bruxas” e veremos nossos amados filhos de papel torrando no meio da rua. Não é ficção, vêem-se movimentos do governo que desembocarão nisso. Melhor não esperar para ver e gritar antes:
QUERO FALAR! QUERO EXISTIR EM MINHAS PALAVRAS!
Grande Fernando Pessoa dizendo:
“Quem não entende uma palavra, não pode entender uma alma.”
Está na hora de escritor brasileiro deixar de se encolher, não permitir que apenas as traças leiam suas letras santas.
Está na hora do Brasil se alfabetizar e aprender o beabá não que sejam apenas três letras: N Ã O!
Vana Comissoli
DIVAGANDO RUBEM ALVES
Leio o Rubem devagar, é preciso sorvê-lo, ler não basta.
Às vezes preciso voltar atrás quando alguma coisa me fere demais e entristeço de ver minhas concepções infantis se desmanchando: amo a mim através do outro.
Que chato! Eu queria amar o outro diferente de mim! Mas talvez fosse uma invasão e assim é que está certo. Já escrevi que amamos o outro porque não podemos amar direto a Deus, ao nosso espírito imortal. Ou qualquer outra coisa externa e grande
Também volto a reler ao ficar feliz de reconhecer já ter feito tantas dessas sabedorias, se é que servem para alguma coisa.
Lembro-me do texto que escrevi quando abateram o guapuruvu que enxergava da minha janela e com quem conversava todas as manhãs. O consolei na morte iminente a cada galho tombado. Ele que era tão orgulhoso e feliz com sua beleza e elegância.
Depois chorei a perda de meu amigo árvore e para sempre reconheci suas sementes quando as encontrava. Recebi uma qualquer de presente e fiz de conta que eram dele. Afinal, todas as sementes de guapuruvu pertencem a mesma espécie porque suas almas de planta são unas e indivisíveis e, se morrem, não sentem a dor que sentimos sabendo que continuarão vivas em suas iguais.
Lembro que imitava o Chiquinho (o de Assis que amo incondicionalmente, como ele ensinou) dando bom dia céu, bom dia sol, ou chuva até mesmo antes de escovar os dentes.
Lembro que arrancava capim-navalha do meio da grama pensando que ele era muito ardiloso, pois escorregava as raízes por baixo das outras para brotar logo adiante e sobreviver do meu arrancar e matar. Ele enganava a famigerada morte.
Deveria por datas no que escrevo senão sempre parecerá que escrevi depois que aprendi e muito pelo contrário, o aprender é absolutamente atual. Diário.
Foi assim que lembrei de um conto escrito em Bombas quando tinha onze bebedores para beija-flor e ficava sentada olhando sua guerra. Os beija-flores são muito belicosos, sabias? Lutam defendendo seu território. Descobri nesse belo tempo, onde não existia tempo e sobrava tempo para aprender as coisas imensamente sérias da vida: dos pequenos animais, do lindo jardim que eu tinha.
Existiu outro, perdido, se é que se pode perder algum texto já que ficaram escritos dentro de mim e talvez de algumas pessoas que leram, onde eu acompanhava formigas lá em Canela, no Rio Grande do Sul e me sentia uma delas e as compreendia.
Houve também aquela experiência no Beira-Mar Shopping, de Floripa, quando nem sonhava em morar na Ilha da Magia. Olhei as pessoas com um sentimento estranho e forte de que todas eram uma individualidade fantástica e pulsavam igual a mim, sendo também eu. Um sentimento de unidade tão grande que nem eu, amante das letrinhas, consigo descrever. Um paradoxo: uma unidade absolutamente cabível na individualidade.
Por causa dessas coisas todas foi que comecei a pensar que era maluca e agora, parte delas, o Rubens diz que também malucou. Encontro então, outro maluco e não me sinto tão deslocada nesse mundo que é de Deus.
Não é porque Ele está tão esquecido, perdido dentro das garrafas de Coca-cola e outras tantas coisas inúteis. Se é que Ele existe, não o tenho visto ultimamente.
Ontem eu pensei muito tempo que não estava me importando com a opinião de ninguém porque eu podia ser eu em paz e dar uma banana para as opiniões.
Pensei no meu amigo que se esforça para me convencer dos caminhos a percorrer, quando sei que já trilhei tantos. Agora desejo o meu próprio que seguirá outras marcas, mas provavelmente não as seguirá de forma inexorável e mais pularei amarelinha entre eles.
Até quis escrever, mas estava com sono. Escrevi mais tarde, não saiu do jeito que pensei no travesseiro. Outro amigo colocou no site mesmo assim. Ainda riu de mim quando desejei que o conto passasse na triagem e me respondeu que os meus sempre passam e isso também é estranho. Acho que só eu posso sentir realmente o que escrevo, são bons apenas aos meus olhos. No entanto, tive um amigo que chorara me lendo, ou se identificara. Então é uma tremenda pretensão imaginar que só eu sinto as coisas, tenho apenas a capacidade de transcrevê-las e foi o pessoal lá de cima que me deu isso, não fui eu que criei nada.
Acaba que isso é quase uma crônica e talvez eu possa arrumar a forma e jogar no espaço da Internet.
Tenha um lindo dia nublado porque eles também são lindos com seu alívio ao calor e, às vezes penso que sou meio sapo, pois sinto saudades desses dias quando demoram a voltar.
Vana Comissoli 01/2008
Às vezes preciso voltar atrás quando alguma coisa me fere demais e entristeço de ver minhas concepções infantis se desmanchando: amo a mim através do outro.
Que chato! Eu queria amar o outro diferente de mim! Mas talvez fosse uma invasão e assim é que está certo. Já escrevi que amamos o outro porque não podemos amar direto a Deus, ao nosso espírito imortal. Ou qualquer outra coisa externa e grande
Também volto a reler ao ficar feliz de reconhecer já ter feito tantas dessas sabedorias, se é que servem para alguma coisa.
Lembro-me do texto que escrevi quando abateram o guapuruvu que enxergava da minha janela e com quem conversava todas as manhãs. O consolei na morte iminente a cada galho tombado. Ele que era tão orgulhoso e feliz com sua beleza e elegância.
Depois chorei a perda de meu amigo árvore e para sempre reconheci suas sementes quando as encontrava. Recebi uma qualquer de presente e fiz de conta que eram dele. Afinal, todas as sementes de guapuruvu pertencem a mesma espécie porque suas almas de planta são unas e indivisíveis e, se morrem, não sentem a dor que sentimos sabendo que continuarão vivas em suas iguais.
Lembro que imitava o Chiquinho (o de Assis que amo incondicionalmente, como ele ensinou) dando bom dia céu, bom dia sol, ou chuva até mesmo antes de escovar os dentes.
Lembro que arrancava capim-navalha do meio da grama pensando que ele era muito ardiloso, pois escorregava as raízes por baixo das outras para brotar logo adiante e sobreviver do meu arrancar e matar. Ele enganava a famigerada morte.
Deveria por datas no que escrevo senão sempre parecerá que escrevi depois que aprendi e muito pelo contrário, o aprender é absolutamente atual. Diário.
Foi assim que lembrei de um conto escrito em Bombas quando tinha onze bebedores para beija-flor e ficava sentada olhando sua guerra. Os beija-flores são muito belicosos, sabias? Lutam defendendo seu território. Descobri nesse belo tempo, onde não existia tempo e sobrava tempo para aprender as coisas imensamente sérias da vida: dos pequenos animais, do lindo jardim que eu tinha.
Existiu outro, perdido, se é que se pode perder algum texto já que ficaram escritos dentro de mim e talvez de algumas pessoas que leram, onde eu acompanhava formigas lá em Canela, no Rio Grande do Sul e me sentia uma delas e as compreendia.
Houve também aquela experiência no Beira-Mar Shopping, de Floripa, quando nem sonhava em morar na Ilha da Magia. Olhei as pessoas com um sentimento estranho e forte de que todas eram uma individualidade fantástica e pulsavam igual a mim, sendo também eu. Um sentimento de unidade tão grande que nem eu, amante das letrinhas, consigo descrever. Um paradoxo: uma unidade absolutamente cabível na individualidade.
Por causa dessas coisas todas foi que comecei a pensar que era maluca e agora, parte delas, o Rubens diz que também malucou. Encontro então, outro maluco e não me sinto tão deslocada nesse mundo que é de Deus.
Não é porque Ele está tão esquecido, perdido dentro das garrafas de Coca-cola e outras tantas coisas inúteis. Se é que Ele existe, não o tenho visto ultimamente.
Ontem eu pensei muito tempo que não estava me importando com a opinião de ninguém porque eu podia ser eu em paz e dar uma banana para as opiniões.
Pensei no meu amigo que se esforça para me convencer dos caminhos a percorrer, quando sei que já trilhei tantos. Agora desejo o meu próprio que seguirá outras marcas, mas provavelmente não as seguirá de forma inexorável e mais pularei amarelinha entre eles.
Até quis escrever, mas estava com sono. Escrevi mais tarde, não saiu do jeito que pensei no travesseiro. Outro amigo colocou no site mesmo assim. Ainda riu de mim quando desejei que o conto passasse na triagem e me respondeu que os meus sempre passam e isso também é estranho. Acho que só eu posso sentir realmente o que escrevo, são bons apenas aos meus olhos. No entanto, tive um amigo que chorara me lendo, ou se identificara. Então é uma tremenda pretensão imaginar que só eu sinto as coisas, tenho apenas a capacidade de transcrevê-las e foi o pessoal lá de cima que me deu isso, não fui eu que criei nada.
Acaba que isso é quase uma crônica e talvez eu possa arrumar a forma e jogar no espaço da Internet.
Tenha um lindo dia nublado porque eles também são lindos com seu alívio ao calor e, às vezes penso que sou meio sapo, pois sinto saudades desses dias quando demoram a voltar.
Vana Comissoli 01/2008
BALÕES SOBRE SÃO PAULO
Lindo, não é mesmo?
Logo estourarão igualzinho promessa de político brasileiro: lindas, estouram assim que eles se elegem.
Estão cheios de gás, mais nada.
Brancos: vamos acabar com a violência! Paz nas cidades brasileiras!
Vermelhos: os hospitais brasileiros não verão mais o sangue dos brasileiros pelos corredores!
Pretos: Acabaremos com toda a roubalheira encoberta por cargos políticos!
Amarelos: O dinheiro do governo é do povo e deve voltar ao povo sob a forma de benefícios em todas as áreas: educação, habitação, saúde, segurança, saneamento, etc... etc... etc... etc... até o último de nossos problemas: o Lula.
Azuis: as águas brasileiras serão purificadas e não mais serão jogados sem tratamento os esgotos nos rios, lagos, lagoas, riachos, riachinhos, riachões, mares e buracos no fundo dos quintais que nem banheiro têm.
Enquanto isso acontece, olhem para cima, brasileiros! É bonito! E amanhã, tem futebol!
Logo estourarão igualzinho promessa de político brasileiro: lindas, estouram assim que eles se elegem.
Estão cheios de gás, mais nada.
Brancos: vamos acabar com a violência! Paz nas cidades brasileiras!
Vermelhos: os hospitais brasileiros não verão mais o sangue dos brasileiros pelos corredores!
Pretos: Acabaremos com toda a roubalheira encoberta por cargos políticos!
Amarelos: O dinheiro do governo é do povo e deve voltar ao povo sob a forma de benefícios em todas as áreas: educação, habitação, saúde, segurança, saneamento, etc... etc... etc... etc... até o último de nossos problemas: o Lula.
Azuis: as águas brasileiras serão purificadas e não mais serão jogados sem tratamento os esgotos nos rios, lagos, lagoas, riachos, riachinhos, riachões, mares e buracos no fundo dos quintais que nem banheiro têm.
Enquanto isso acontece, olhem para cima, brasileiros! É bonito! E amanhã, tem futebol!
quarta-feira, 2 de junho de 2010
A DANÇA DO LESTE

O corpo começou a inchar. Ficou um balão. Depois disseram que era efeito Balloné. Vai saber... Tem cada louco por aí!
Na hora não pareceu loucura nenhuma.
Não conseguia se mexer. Era um balão engraçado por que pesava. Mil quilos avaliou.
A cabeça foi esvaziando e os pensamentos diminuindo até sumirem. Branco total. Uma tela deu-se conta quando o filme começou.
É jovem, talvez dezoito ou dezenove anos, se tanto. O deserto espuma calor e as areias perdem-se no horizonte longínquo. Veste branco e não é sujo, é realmente imaculado, menos o turbante da cabeça no típico azul usado por sua raça tuaregue e que serve para cobrir o rosto nas tempestades de areia. Aparecendo, só os olhos negros, tão negros que não se podem esconder.
A cabra bali os estertores da morte provocada pelo gume afiado e rápido do punhal.
É exímia no feito, participa das recepções de boas vindas aos homens, em grandes comemorações pela venda do sal encarregando-se do abate de animais. Nem todas detêm a magia, ela é a mais conhecedora.
Nestes eventos é costume as mulheres pintarem os olhos com Kohl, o conhecido pó negro de sulfato antimônio, por isso os dela estão mais negros do que o habitual.
A longa cabeleira está presa em tranças. O rosto, pintado de vermelho e amarelo e os lábios de azul, forma uma espécie de máscara que serve de enfeite e símbolo mágico. A música usada para expulsar maus agouros soa dentro da tenda enquanto os amuletos protetores dos espíritos solitários que assombram o deserto são reverenciados por suas irmãs.
Preparam-se para descansar seus homens com massagem, fonte de magia e amor e sinal de agradecimento e alegria pelo sucesso do retorno ao lar.
A moça começou os rituais mais secretos enquanto as outras estão nas tendas numa algaravia. É uma Imrad, ou seja, pertence aos “homens livres, o povo das cabras". Lhe cabe ver nas tripas dos animais o futuro das próximas caravanas que partirão tão logo os homens se refaçam.
Jorra sangue do pescoço da sacrificada manchando a limpidez da areia endurecida. Abre a barriga num golpe certo e contínuo até expor as vísceras. O futuro da tribo está em suas mãos. O que as tripas quentes revelariam? Nunca soube.
Uma ordem e um puxão. Está em pé e olhando o homem. Não escapa submissa do olhar dele. O oficial britânico repete frases difíceis de entender com sua pronúncia horrível. Áspera aos ouvidos da pequena adivinha. Pessoa santa para seus iguais que mantinham crenças pré-islâmicas animísticas, como a presença dos espíritos Kel Asuf e a divinização do Qur'an.
Amarra as mãos de Abir Bint Adira com uma corda grosseira. Irrita-se o que o torna mais bruto. Esses malditos árabes não sabem que está proibido matar cabras para bruxarias? Xinga em sua língua de origem, despreocupado se ela entende inglês ou não. Importa apenas punir a transgressão. Desta vez não deixará passar. Foram avisados e teimam em descumprir a vontade de Sua Majestade representada por ele. Uma falta de respeito imperdoável.
Abir ferve de indignação.
Entre o povo nômade, auto intitulados homens livres, Imashagen, a família é composta pelo chefe da tenda, sua mulher e filhos. A sociedade berbere era nas suas origens matriarcal. A mulher tuaregue herdou o costume, sempre desempenhou e desempenha ainda um papel privilegiado na vida social e política. Ela pode escolher seu marido e divorciar-se, libertando-se de qualquer ligação. Desempenha todo o trabalho doméstico, torna-se culta e descansa. É detentora do segredo de todos os medicamentos tradicionais, confiando-o unicamente às suas filhas. É depositária da língua antiga (o tamasheq), é a melhor professora da escrita Tifinagh, e a melhor executante de Imzad, instrumento de cordas que afasta a solidão e os maus espíritos do acampamento. É ela que canta e toca acompanhada pelo tambor de tende, feito da pele das cabras que usam para seus rituais e sobrevivência. Ela é.
Abir Adira, perfeita descendente da ancestral Tin Hinan, a princesa geradora de toda a etnia tuaregue, não poderia admitir tal afronta.
O inglês, respaldado por estirpe superior, segundo sua visão, não é delicado. Ata os pulsos de Abir e monta seu belo cavalo tratado com esmero nas estribarias do quartel.
Ela se debate e cospe, não acerta o alvo. Olha angustiada para as tendas. As falas agudas e o som de um anzade encobrem qualquer possibilidade de ser ouvida.
O sol se põe no deserto. Uma mulher elegante canta com voz aguda. A melodia é estranhamente bela como a noite no Saara. Tais canções datam de longas eras, de séculos atrás quando os tuaregues reinavam nesta terra inóspita. Agora como então, as mulheres transmitem as tradições ensinando poesia e música às filhas. Logo todos estarão sentados em volta da fogueira escutando respeitosamente. Ela não estará.
O oficial monta. Abir não teve oportunidade de observá-lo, apenas olhara o que chama de sua sombra, é indigno olhar o rosto de um déspota. Seu mal poderá entrar na alma contaminando-a para sempre. Só o olhará na hora em que estiver morrendo. Isso ela faria com prazer e a hora haveria de chegar.
O cavalo começa a andar. A moça cerra os dentes de fúria. É indigno ser arrastada como uma cabra. Quase obrigada a ser grata ao cavaleiro por não estar indo a galope. Não é hábito em seu povo o suicídio, mas o assassinato por vingança é. Por isso sente raiva poderosa, raiva mortal.
O frio do deserto à noite começa com o encolher do sol. O inglês parou por minutos para colocar o capote. Nem olhou para ela, como se puxasse um bicho, ou um cadáver. A pele arrepia-se, os dentes logo baterão e sentirá mais do que nunca o valor da fogueira.
Sua esperança é que tenham dado por sua ausência, com certeza virão atrás dela. Não temem os malditos cristãos e suas armas. Já roubaram bastante e estão quase em igualdade de condições e são silenciosos como as cobras que espreitam. Darão o bote certeiro em defesa dela. Este inglês não terá nem tempo de ver de onde veio a lâmina larga de dois gumes com um friso longitudinal e não verá o punho guarnecido por uma peça retangular, que lembra uma cruz. A cruz que ele deve adorar bastardamente. Não é um filho de Alá.
A sede marca presença. O soldado puxa as rédeas e o cavalo estanca. Desce e tira o cantil preso à sela. Bebe deixando a água correr pelo queixo. Abir sente a língua grossa, talvez ele não divida o líquido e a raiva aumenta se é que ainda tem tanto peito para mais.
O homem aproxima-se e estende o cantil. A sobrevivência é o mandamento primeiro do povo das areias escaldantes. Abir aceita, antes faz um estranho gesto místico com a mão. Não abocanha o cantil imediatamente, olha o horizonte que vai perdendo os contornos para a noite.
Alguma coisa brilha no chão. Uma pedra preciosa caída de alguma caravana? O oficial abaixa-se para verificar. É seu bruxuleio de perdição.
A mulher tuaregue levanta a adaga escondida pelo Ichar, a longa e larga túnica que esconde seu corpo e impede a visão do que carrega por baixo. Basta um golpe, é matadora, sabe aonde acertar. Ele apenas tem tempo de virar-se para a moça.
Cai de costas, os olhos abertos, surpresa e raiva dentro deles mesmo assim, já quase vítreos. São verdes e adentram a alma de Abir para sempre.
O estado de sonambulismo, ou fosse o que fosse começou a ceder. Conseguiu mexer as mãos e sente o sangue circulando normalmente. Foi como voltar de um sonho real.
As lágrimas correm sem pejo e uma dor visceral toma conta dela.
Os olhos verdes do marido foram reencontrados na face de um oficial britânico morto.
Imaginação? Brincadeira do inconsciente?
A lei do retorno, do karma, até que haja perdão.
Vana Comissoli
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