Escritor, ao contrário da magnífica aura que se criou em torno da atividade, é um bicho chato paca. Escreve tudo que passa pela cabeça e filosofa. Como filosofa!! Depois manda para todo mundo.
A muitos ele enche a paciência por que não estão nem aí para questionamentos, divagações e críticas, ou estão soterrados de trabalho e de saco cheio de estar na frente do computer.
As escrevinhações são de todas as etiologias, pode crer. Desde o cosmo até o mais ínfimo grão de areia. Política e Brasil é o que mais gostamos, incluindo claro, religião e Deus. Serve-nos também assuntos sérios ou humorísticos, relacionamentos e sua dinâmica. Traquitana antiga ou antevisões futurísticas. Tudo serve. Tudo são letras em movimento.
Eu incomodo especialmente escrevendo sobre todas as Dependências. As dos outros principalmente. Olhar o sufoco alheio é bem mais fácil. Espelho torto onde fantasio que não sou passível de escorregões estratosféricos.
Quem gosta de escritor é outro escritor. Normalmente são as pessoas que mais lêem por isso se amam, animais estranhos no paraíso da imbecilidade chamado Terra.
Quem gosta de escritor é outro maluco com a diferença que não escreve com letras legíveis, escreve, reescreve no bulício de seus pensamentos, nas indagações intermináveis de seus questionamentos e na busca do que é quase sem resposta.
No Brasil quem gosta de escritor é mimoseado com o título de rato de biblioteca. Rato, esse bichinho repugnante que ninguém deseja por perto. No Brasil ler é perder o BBB não sei que número para afofar mentalmente bundas, peitos e picas duras dos outros já que provavelmente não funcione bem com nenhum desses elementos vitais.
Uni-vos, escritores brasileiros, cheios de garra e com tão pouca valorização nas terras tupiniquins. Bons são os de fora, das terras civilizadas, onde se escreve qualquer bobagem, se edita e se é lido. Brasileiro reclama, mas gosta de se menosprezar. Nada daqui é bom, só o que vem de fora merece atenção. Ou um que outro Paulo Coelho falando de mágicas pseudo-reais e outras plagiadas como sabemos.
A onda dos vampiros parece um tsunami e penso se estamos tão perdidos que só a ficção total aguentamos por que a realidade é dura e não queremos olhar para ela de frente. Isso dá trabalho, teríamos que fazer alguma coisa, no mínimo pensar no mundo que criamos.
Alguns dizem que o livro desaparecerá, o computador, mais fácil, deletável o substituirá e fico feliz em lembrar a declaração de Humberto Eco: “Tudo que eu quiser dizer seriamente colocarei no papel.”
Talvez venha uma nova “queima às bruxas” e veremos nossos amados filhos de papel torrando no meio da rua. Não é ficção, vêem-se movimentos do governo que desembocarão nisso. Melhor não esperar para ver e gritar antes:
QUERO FALAR! QUERO EXISTIR EM MINHAS PALAVRAS!
Grande Fernando Pessoa dizendo:
“Quem não entende uma palavra, não pode entender uma alma.”
Está na hora de escritor brasileiro deixar de se encolher, não permitir que apenas as traças leiam suas letras santas.
Está na hora do Brasil se alfabetizar e aprender o beabá não que sejam apenas três letras: N Ã O!
Vana Comissoli
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
DIVAGANDO RUBEM ALVES
Leio o Rubem devagar, é preciso sorvê-lo, ler não basta.
Às vezes preciso voltar atrás quando alguma coisa me fere demais e entristeço de ver minhas concepções infantis se desmanchando: amo a mim através do outro.
Que chato! Eu queria amar o outro diferente de mim! Mas talvez fosse uma invasão e assim é que está certo. Já escrevi que amamos o outro porque não podemos amar direto a Deus, ao nosso espírito imortal. Ou qualquer outra coisa externa e grande
Também volto a reler ao ficar feliz de reconhecer já ter feito tantas dessas sabedorias, se é que servem para alguma coisa.
Lembro-me do texto que escrevi quando abateram o guapuruvu que enxergava da minha janela e com quem conversava todas as manhãs. O consolei na morte iminente a cada galho tombado. Ele que era tão orgulhoso e feliz com sua beleza e elegância.
Depois chorei a perda de meu amigo árvore e para sempre reconheci suas sementes quando as encontrava. Recebi uma qualquer de presente e fiz de conta que eram dele. Afinal, todas as sementes de guapuruvu pertencem a mesma espécie porque suas almas de planta são unas e indivisíveis e, se morrem, não sentem a dor que sentimos sabendo que continuarão vivas em suas iguais.
Lembro que imitava o Chiquinho (o de Assis que amo incondicionalmente, como ele ensinou) dando bom dia céu, bom dia sol, ou chuva até mesmo antes de escovar os dentes.
Lembro que arrancava capim-navalha do meio da grama pensando que ele era muito ardiloso, pois escorregava as raízes por baixo das outras para brotar logo adiante e sobreviver do meu arrancar e matar. Ele enganava a famigerada morte.
Deveria por datas no que escrevo senão sempre parecerá que escrevi depois que aprendi e muito pelo contrário, o aprender é absolutamente atual. Diário.
Foi assim que lembrei de um conto escrito em Bombas quando tinha onze bebedores para beija-flor e ficava sentada olhando sua guerra. Os beija-flores são muito belicosos, sabias? Lutam defendendo seu território. Descobri nesse belo tempo, onde não existia tempo e sobrava tempo para aprender as coisas imensamente sérias da vida: dos pequenos animais, do lindo jardim que eu tinha.
Existiu outro, perdido, se é que se pode perder algum texto já que ficaram escritos dentro de mim e talvez de algumas pessoas que leram, onde eu acompanhava formigas lá em Canela, no Rio Grande do Sul e me sentia uma delas e as compreendia.
Houve também aquela experiência no Beira-Mar Shopping, de Floripa, quando nem sonhava em morar na Ilha da Magia. Olhei as pessoas com um sentimento estranho e forte de que todas eram uma individualidade fantástica e pulsavam igual a mim, sendo também eu. Um sentimento de unidade tão grande que nem eu, amante das letrinhas, consigo descrever. Um paradoxo: uma unidade absolutamente cabível na individualidade.
Por causa dessas coisas todas foi que comecei a pensar que era maluca e agora, parte delas, o Rubens diz que também malucou. Encontro então, outro maluco e não me sinto tão deslocada nesse mundo que é de Deus.
Não é porque Ele está tão esquecido, perdido dentro das garrafas de Coca-cola e outras tantas coisas inúteis. Se é que Ele existe, não o tenho visto ultimamente.
Ontem eu pensei muito tempo que não estava me importando com a opinião de ninguém porque eu podia ser eu em paz e dar uma banana para as opiniões.
Pensei no meu amigo que se esforça para me convencer dos caminhos a percorrer, quando sei que já trilhei tantos. Agora desejo o meu próprio que seguirá outras marcas, mas provavelmente não as seguirá de forma inexorável e mais pularei amarelinha entre eles.
Até quis escrever, mas estava com sono. Escrevi mais tarde, não saiu do jeito que pensei no travesseiro. Outro amigo colocou no site mesmo assim. Ainda riu de mim quando desejei que o conto passasse na triagem e me respondeu que os meus sempre passam e isso também é estranho. Acho que só eu posso sentir realmente o que escrevo, são bons apenas aos meus olhos. No entanto, tive um amigo que chorara me lendo, ou se identificara. Então é uma tremenda pretensão imaginar que só eu sinto as coisas, tenho apenas a capacidade de transcrevê-las e foi o pessoal lá de cima que me deu isso, não fui eu que criei nada.
Acaba que isso é quase uma crônica e talvez eu possa arrumar a forma e jogar no espaço da Internet.
Tenha um lindo dia nublado porque eles também são lindos com seu alívio ao calor e, às vezes penso que sou meio sapo, pois sinto saudades desses dias quando demoram a voltar.
Vana Comissoli 01/2008
Às vezes preciso voltar atrás quando alguma coisa me fere demais e entristeço de ver minhas concepções infantis se desmanchando: amo a mim através do outro.
Que chato! Eu queria amar o outro diferente de mim! Mas talvez fosse uma invasão e assim é que está certo. Já escrevi que amamos o outro porque não podemos amar direto a Deus, ao nosso espírito imortal. Ou qualquer outra coisa externa e grande
Também volto a reler ao ficar feliz de reconhecer já ter feito tantas dessas sabedorias, se é que servem para alguma coisa.
Lembro-me do texto que escrevi quando abateram o guapuruvu que enxergava da minha janela e com quem conversava todas as manhãs. O consolei na morte iminente a cada galho tombado. Ele que era tão orgulhoso e feliz com sua beleza e elegância.
Depois chorei a perda de meu amigo árvore e para sempre reconheci suas sementes quando as encontrava. Recebi uma qualquer de presente e fiz de conta que eram dele. Afinal, todas as sementes de guapuruvu pertencem a mesma espécie porque suas almas de planta são unas e indivisíveis e, se morrem, não sentem a dor que sentimos sabendo que continuarão vivas em suas iguais.
Lembro que imitava o Chiquinho (o de Assis que amo incondicionalmente, como ele ensinou) dando bom dia céu, bom dia sol, ou chuva até mesmo antes de escovar os dentes.
Lembro que arrancava capim-navalha do meio da grama pensando que ele era muito ardiloso, pois escorregava as raízes por baixo das outras para brotar logo adiante e sobreviver do meu arrancar e matar. Ele enganava a famigerada morte.
Deveria por datas no que escrevo senão sempre parecerá que escrevi depois que aprendi e muito pelo contrário, o aprender é absolutamente atual. Diário.
Foi assim que lembrei de um conto escrito em Bombas quando tinha onze bebedores para beija-flor e ficava sentada olhando sua guerra. Os beija-flores são muito belicosos, sabias? Lutam defendendo seu território. Descobri nesse belo tempo, onde não existia tempo e sobrava tempo para aprender as coisas imensamente sérias da vida: dos pequenos animais, do lindo jardim que eu tinha.
Existiu outro, perdido, se é que se pode perder algum texto já que ficaram escritos dentro de mim e talvez de algumas pessoas que leram, onde eu acompanhava formigas lá em Canela, no Rio Grande do Sul e me sentia uma delas e as compreendia.
Houve também aquela experiência no Beira-Mar Shopping, de Floripa, quando nem sonhava em morar na Ilha da Magia. Olhei as pessoas com um sentimento estranho e forte de que todas eram uma individualidade fantástica e pulsavam igual a mim, sendo também eu. Um sentimento de unidade tão grande que nem eu, amante das letrinhas, consigo descrever. Um paradoxo: uma unidade absolutamente cabível na individualidade.
Por causa dessas coisas todas foi que comecei a pensar que era maluca e agora, parte delas, o Rubens diz que também malucou. Encontro então, outro maluco e não me sinto tão deslocada nesse mundo que é de Deus.
Não é porque Ele está tão esquecido, perdido dentro das garrafas de Coca-cola e outras tantas coisas inúteis. Se é que Ele existe, não o tenho visto ultimamente.
Ontem eu pensei muito tempo que não estava me importando com a opinião de ninguém porque eu podia ser eu em paz e dar uma banana para as opiniões.
Pensei no meu amigo que se esforça para me convencer dos caminhos a percorrer, quando sei que já trilhei tantos. Agora desejo o meu próprio que seguirá outras marcas, mas provavelmente não as seguirá de forma inexorável e mais pularei amarelinha entre eles.
Até quis escrever, mas estava com sono. Escrevi mais tarde, não saiu do jeito que pensei no travesseiro. Outro amigo colocou no site mesmo assim. Ainda riu de mim quando desejei que o conto passasse na triagem e me respondeu que os meus sempre passam e isso também é estranho. Acho que só eu posso sentir realmente o que escrevo, são bons apenas aos meus olhos. No entanto, tive um amigo que chorara me lendo, ou se identificara. Então é uma tremenda pretensão imaginar que só eu sinto as coisas, tenho apenas a capacidade de transcrevê-las e foi o pessoal lá de cima que me deu isso, não fui eu que criei nada.
Acaba que isso é quase uma crônica e talvez eu possa arrumar a forma e jogar no espaço da Internet.
Tenha um lindo dia nublado porque eles também são lindos com seu alívio ao calor e, às vezes penso que sou meio sapo, pois sinto saudades desses dias quando demoram a voltar.
Vana Comissoli 01/2008
BALÕES SOBRE SÃO PAULO
Lindo, não é mesmo?
Logo estourarão igualzinho promessa de político brasileiro: lindas, estouram assim que eles se elegem.
Estão cheios de gás, mais nada.
Brancos: vamos acabar com a violência! Paz nas cidades brasileiras!
Vermelhos: os hospitais brasileiros não verão mais o sangue dos brasileiros pelos corredores!
Pretos: Acabaremos com toda a roubalheira encoberta por cargos políticos!
Amarelos: O dinheiro do governo é do povo e deve voltar ao povo sob a forma de benefícios em todas as áreas: educação, habitação, saúde, segurança, saneamento, etc... etc... etc... etc... até o último de nossos problemas: o Lula.
Azuis: as águas brasileiras serão purificadas e não mais serão jogados sem tratamento os esgotos nos rios, lagos, lagoas, riachos, riachinhos, riachões, mares e buracos no fundo dos quintais que nem banheiro têm.
Enquanto isso acontece, olhem para cima, brasileiros! É bonito! E amanhã, tem futebol!
Logo estourarão igualzinho promessa de político brasileiro: lindas, estouram assim que eles se elegem.
Estão cheios de gás, mais nada.
Brancos: vamos acabar com a violência! Paz nas cidades brasileiras!
Vermelhos: os hospitais brasileiros não verão mais o sangue dos brasileiros pelos corredores!
Pretos: Acabaremos com toda a roubalheira encoberta por cargos políticos!
Amarelos: O dinheiro do governo é do povo e deve voltar ao povo sob a forma de benefícios em todas as áreas: educação, habitação, saúde, segurança, saneamento, etc... etc... etc... etc... até o último de nossos problemas: o Lula.
Azuis: as águas brasileiras serão purificadas e não mais serão jogados sem tratamento os esgotos nos rios, lagos, lagoas, riachos, riachinhos, riachões, mares e buracos no fundo dos quintais que nem banheiro têm.
Enquanto isso acontece, olhem para cima, brasileiros! É bonito! E amanhã, tem futebol!
quarta-feira, 2 de junho de 2010
A DANÇA DO LESTE

O corpo começou a inchar. Ficou um balão. Depois disseram que era efeito Balloné. Vai saber... Tem cada louco por aí!
Na hora não pareceu loucura nenhuma.
Não conseguia se mexer. Era um balão engraçado por que pesava. Mil quilos avaliou.
A cabeça foi esvaziando e os pensamentos diminuindo até sumirem. Branco total. Uma tela deu-se conta quando o filme começou.
É jovem, talvez dezoito ou dezenove anos, se tanto. O deserto espuma calor e as areias perdem-se no horizonte longínquo. Veste branco e não é sujo, é realmente imaculado, menos o turbante da cabeça no típico azul usado por sua raça tuaregue e que serve para cobrir o rosto nas tempestades de areia. Aparecendo, só os olhos negros, tão negros que não se podem esconder.
A cabra bali os estertores da morte provocada pelo gume afiado e rápido do punhal.
É exímia no feito, participa das recepções de boas vindas aos homens, em grandes comemorações pela venda do sal encarregando-se do abate de animais. Nem todas detêm a magia, ela é a mais conhecedora.
Nestes eventos é costume as mulheres pintarem os olhos com Kohl, o conhecido pó negro de sulfato antimônio, por isso os dela estão mais negros do que o habitual.
A longa cabeleira está presa em tranças. O rosto, pintado de vermelho e amarelo e os lábios de azul, forma uma espécie de máscara que serve de enfeite e símbolo mágico. A música usada para expulsar maus agouros soa dentro da tenda enquanto os amuletos protetores dos espíritos solitários que assombram o deserto são reverenciados por suas irmãs.
Preparam-se para descansar seus homens com massagem, fonte de magia e amor e sinal de agradecimento e alegria pelo sucesso do retorno ao lar.
A moça começou os rituais mais secretos enquanto as outras estão nas tendas numa algaravia. É uma Imrad, ou seja, pertence aos “homens livres, o povo das cabras". Lhe cabe ver nas tripas dos animais o futuro das próximas caravanas que partirão tão logo os homens se refaçam.
Jorra sangue do pescoço da sacrificada manchando a limpidez da areia endurecida. Abre a barriga num golpe certo e contínuo até expor as vísceras. O futuro da tribo está em suas mãos. O que as tripas quentes revelariam? Nunca soube.
Uma ordem e um puxão. Está em pé e olhando o homem. Não escapa submissa do olhar dele. O oficial britânico repete frases difíceis de entender com sua pronúncia horrível. Áspera aos ouvidos da pequena adivinha. Pessoa santa para seus iguais que mantinham crenças pré-islâmicas animísticas, como a presença dos espíritos Kel Asuf e a divinização do Qur'an.
Amarra as mãos de Abir Bint Adira com uma corda grosseira. Irrita-se o que o torna mais bruto. Esses malditos árabes não sabem que está proibido matar cabras para bruxarias? Xinga em sua língua de origem, despreocupado se ela entende inglês ou não. Importa apenas punir a transgressão. Desta vez não deixará passar. Foram avisados e teimam em descumprir a vontade de Sua Majestade representada por ele. Uma falta de respeito imperdoável.
Abir ferve de indignação.
Entre o povo nômade, auto intitulados homens livres, Imashagen, a família é composta pelo chefe da tenda, sua mulher e filhos. A sociedade berbere era nas suas origens matriarcal. A mulher tuaregue herdou o costume, sempre desempenhou e desempenha ainda um papel privilegiado na vida social e política. Ela pode escolher seu marido e divorciar-se, libertando-se de qualquer ligação. Desempenha todo o trabalho doméstico, torna-se culta e descansa. É detentora do segredo de todos os medicamentos tradicionais, confiando-o unicamente às suas filhas. É depositária da língua antiga (o tamasheq), é a melhor professora da escrita Tifinagh, e a melhor executante de Imzad, instrumento de cordas que afasta a solidão e os maus espíritos do acampamento. É ela que canta e toca acompanhada pelo tambor de tende, feito da pele das cabras que usam para seus rituais e sobrevivência. Ela é.
Abir Adira, perfeita descendente da ancestral Tin Hinan, a princesa geradora de toda a etnia tuaregue, não poderia admitir tal afronta.
O inglês, respaldado por estirpe superior, segundo sua visão, não é delicado. Ata os pulsos de Abir e monta seu belo cavalo tratado com esmero nas estribarias do quartel.
Ela se debate e cospe, não acerta o alvo. Olha angustiada para as tendas. As falas agudas e o som de um anzade encobrem qualquer possibilidade de ser ouvida.
O sol se põe no deserto. Uma mulher elegante canta com voz aguda. A melodia é estranhamente bela como a noite no Saara. Tais canções datam de longas eras, de séculos atrás quando os tuaregues reinavam nesta terra inóspita. Agora como então, as mulheres transmitem as tradições ensinando poesia e música às filhas. Logo todos estarão sentados em volta da fogueira escutando respeitosamente. Ela não estará.
O oficial monta. Abir não teve oportunidade de observá-lo, apenas olhara o que chama de sua sombra, é indigno olhar o rosto de um déspota. Seu mal poderá entrar na alma contaminando-a para sempre. Só o olhará na hora em que estiver morrendo. Isso ela faria com prazer e a hora haveria de chegar.
O cavalo começa a andar. A moça cerra os dentes de fúria. É indigno ser arrastada como uma cabra. Quase obrigada a ser grata ao cavaleiro por não estar indo a galope. Não é hábito em seu povo o suicídio, mas o assassinato por vingança é. Por isso sente raiva poderosa, raiva mortal.
O frio do deserto à noite começa com o encolher do sol. O inglês parou por minutos para colocar o capote. Nem olhou para ela, como se puxasse um bicho, ou um cadáver. A pele arrepia-se, os dentes logo baterão e sentirá mais do que nunca o valor da fogueira.
Sua esperança é que tenham dado por sua ausência, com certeza virão atrás dela. Não temem os malditos cristãos e suas armas. Já roubaram bastante e estão quase em igualdade de condições e são silenciosos como as cobras que espreitam. Darão o bote certeiro em defesa dela. Este inglês não terá nem tempo de ver de onde veio a lâmina larga de dois gumes com um friso longitudinal e não verá o punho guarnecido por uma peça retangular, que lembra uma cruz. A cruz que ele deve adorar bastardamente. Não é um filho de Alá.
A sede marca presença. O soldado puxa as rédeas e o cavalo estanca. Desce e tira o cantil preso à sela. Bebe deixando a água correr pelo queixo. Abir sente a língua grossa, talvez ele não divida o líquido e a raiva aumenta se é que ainda tem tanto peito para mais.
O homem aproxima-se e estende o cantil. A sobrevivência é o mandamento primeiro do povo das areias escaldantes. Abir aceita, antes faz um estranho gesto místico com a mão. Não abocanha o cantil imediatamente, olha o horizonte que vai perdendo os contornos para a noite.
Alguma coisa brilha no chão. Uma pedra preciosa caída de alguma caravana? O oficial abaixa-se para verificar. É seu bruxuleio de perdição.
A mulher tuaregue levanta a adaga escondida pelo Ichar, a longa e larga túnica que esconde seu corpo e impede a visão do que carrega por baixo. Basta um golpe, é matadora, sabe aonde acertar. Ele apenas tem tempo de virar-se para a moça.
Cai de costas, os olhos abertos, surpresa e raiva dentro deles mesmo assim, já quase vítreos. São verdes e adentram a alma de Abir para sempre.
O estado de sonambulismo, ou fosse o que fosse começou a ceder. Conseguiu mexer as mãos e sente o sangue circulando normalmente. Foi como voltar de um sonho real.
As lágrimas correm sem pejo e uma dor visceral toma conta dela.
Os olhos verdes do marido foram reencontrados na face de um oficial britânico morto.
Imaginação? Brincadeira do inconsciente?
A lei do retorno, do karma, até que haja perdão.
Vana Comissoli
quarta-feira, 12 de maio de 2010
O TOQUE VIRTUAL DIANTE DO AMOR E DA VIDA

Vivemos a Era Virtual. A Contemporânea começou seu fim com a construção do primeiro computador.
A partir daí a automatização de tudo foi crescendo em ondas cibernéticas co-lossais.
Não precisamos mais fazer ou comprar pão (alimento histórico, bíblico, simbó-lico) apenas programamos uma máquina e na hora que desejarmos ela expurgará pão quente e cheiroso para o café da manhã, tarde (um tanto obsoleto) ou da madrugada. Esta, cada dia mais extensa, nós cada vez mais insones, estressados, indormidos.
O pão vivo do espírito nos é servido em CDs em todas as linguagens possíveis de Deus. Algumas inventadas. Afinal não carece de assinatura do Divino.
Vinte e quatro horas por dia as rádios e as televisões rezam, oram ou profanam. Não é o bastante em termos de espiritualidade? Um show de primeira!
A presença de guias, mestres, orientadores tornou-se arcaica, basta ter carisma, um rosto belo, saber cantar, gritar e se balançar ao som de músicas duvidosamente angelicais.
Dormimos ao embalo metálico da TV que se desligará já tendo interferido em nossos sonhos não mais mensagens do inconsciente, mas pasteurizados e controladores de nossas escolhas e necessidades.
Que dizer então sobre os relacionamentos?
A solidão atinge cada vez mais gente, os casamentos desgastados ou impostos, se arrastam e aumentam inexoravelmente na mesma proporção de seu vazio.
O sentimento humano resiste entrincheirado em sua cruel antiguidade e obsole-tismo sob os olhos da geração hay teck. Bate em nossa cara e em nossos corações im-pondo exigências esdrúxulas de aproximação e contato. De eco do outro em nós e de nós no outro.
Estamos na Era Cibernética, conhecemos pessoas ausentes, anônimas e inverídicas nas baladas, nos chats, nos encontros virtuais.
Vez por outra ousamos ouvir suas vozes através do telefone, tendo o cuidado de não revelar o nosso. Se usarmos o celular, outro aparelho que passou a fazer parte de nosso organismo, programamos para aparecer número desconhecido. Ou o Bina nos avisará do inconveniente que clama acreditando ainda em humanidade e solenemente, cheios de razão, não atenderemos.
Alguns, mais audaciosos ou mais ultrapassados se expõem a um contato visual, um sexo de uma hora ou de uma tarde. Sexo virtualmente perfeito, sem face e sem alma.
Robotizamos o parceiro e usufruímos do corpo pretensamente plastificado por nossa imaginação. Depois, falsamente preenchidos, damos as costas. O sêmen jorrado se descarrega como algo espúrio e damos descarga na privada. Liquidada a questão.
Se tivermos o azar de encontrar algo real e tangível, assemelhado à gente, cor-remos a excluir e bloquear. Simples e rápido. Problema resolvido.
A maior parte das vezes nem ao menos nosso nome deixamos impresso na lem-brança, um nick nos afasta de forma protetora e escondida. O distanciamento da perso-na, da intimidade que intimida não fica comprometido.
Quando o corpo clamar novamente ou o vazio bater à porta, recorremos ao pro-cesso e fingimos que ele funciona azeitado.
O que restou?
Isso deixou de ser importante e vital. Coisa do passado romântico, afastar-se dos atritos que nos dão polimento é o objetivo. Atrito incomoda e não temos tempo de ser incomodados.
Os conflitos são empurrados para longe pelo teclado de um computador e nossa alma jorrará em jatos estrobofóbicos nas ondas da Internet.
Sentimentos à vista? Delete.
Ser humano ao alcance? Delete.
Deus vivo falando através de sinais e símbolos? Delete. Idéias, criação, prazer genuíno e vivo? Delete.
Prefira os ícones de sua área de trabalho.
Atual e moderno. Os demais são pertencentes às eras anteriores e ultrapassadas. A poesia agora é concreta.
Sintetize sua alma no twiter.
Beatifique sua imagem no orkut.
Atualize-se: torne-se um morto vivo, representante fiel da nova religião Rapa Nui Virtual & Cia.
Parabéns, evoluímos! Logo, logo as cavernas cibernéticas se abrirão plenamente nos trazendo êxtase de silicone.
Vana Comissoli
NÃO ATRAVESSE A RUA

O dia nasce cheio de fogos
Sou água, sou neve
Sou fogo que derrete
A névoa
A face marcada pelo querer
Transversa
Atravessa
O viver
Na mão o nada
Na tua?
Que tua?
Não existe o outro
Neste momento
Avesso
Sou nua,
Sou crua
Sou faixa de transeuntes
Passam e passam
Cuidado
Vem carro
Não atravesse
Atropelo
Me embaralho
Sou carro?
Sou transeunte?
Apelo
Me chegue
Me baste
Nada me basta sem o outro
Sufoco.
Estou prenhe
Parirei no escuro do quarto
A ternura que é só minha.
Derrubo no espaço
O que era teu.
A dor.
sábado, 1 de maio de 2010
AEÓLIO

Deus dos ventos,
sacode as árvores
até que todas as folhas caiam.
Desmancha a coroa das flores
até que fiquem plebéias e velhas.
Das velhas sopra as perucas
até que se recolham
e se reconheçam bola de boliche
sem pressa de pecar,
morrer ou secar.
Mexe os mares
deixa que a água balance brilhantes de luz
e que as ondas sejam nossa cruz.
Desmascara as bocas de força cruel.
Às cabeças de carretel
oferece morte com sabor de fel
Levanta a saia das mocinhas
quero suas coxas,
suas bundas
E suas vaginas
Tão róseas e lindas.
Tão finas.
Dos homens leve os chapéus
mande todos para o beleléu.
O certo corta em tiras
e serve como recheio de pastel
Tira as roupas do varal
jogue-as no barro.
Mas, por favor, não quebra esse jarro.
É de estimação
De um amigo pedindo perdão
Nessa revolução
apaixonada e causal
está a última esperança
de deixarmos de ser animal.
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